Resta você
e face perdida da noite
lua brilhante, forte escuridão
intensidade oculta das lágrimas
horas de solidão
Quebrado os segundos, perdido o passado
sente o frio que nasce
morre o sentimento - os abraços impossíveis
e, resta você, longe daqui
sem daqui sair
E deixa o anjo noturno
nos sonhos que as asas levam
realidade é a perdição
humanidade, tentação
pecados ao homem mortal
Agora, sinto sono - relembro perdido
sem quantificar os momentos
não existe noção, tempo
Estamos ambos perdidos no que foi construído
E hoje é apenas cimento - estático
preso no pensamento
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Horizonte Perdido
Espírito fugaz
Chama flamoriosa
Lutais contra os verdugos de outrora
Perdeste a vida em batalha
e a alma em relvas
Do horizonte perdido
Passado jamais esquecido
Deixaste em ti a memória
De outra vida sem glória.
Mais uma vez te encontro
Tão longe e tão perto
Pensamentos obscuros, hoje descobertos -
No passado inimigo
Tempo de fogo e guerras
Perdeste um grande amigo
Nas mãos dos deuses da guerra;
Sociedade putrefata e hábitos mesquinhos
Tu foste o amigo
No horizonte perdido.
Em tempos difíceis
Auxiliaste-me com ardor
Curaste todas as moléstias
Chagas aberta a dor
Porém um dia, tudo mudou
Deixaste sangrando minh´alma
e todo meu amor;
Feriste não só meu corpo
Alma, espírito, vela
E neste passado distante
Foste amigo, inimigo
Ontem e hoje
Tudo isto a vida revela.
Dores sombrias na alma
A dor que fora minha
Da amada que sorria
E da tua inveja;
Não soubeste que da vida
Nada se cria ou se leva
Deixaste que tua cobiça
Estragasse a coisa mais bela
O meu amor, por ela!!!
"Quando sofrerdes, lembrais
Do que fizeste no passado
Perdoais para serdes perdoado
E onde houve ódio e guerra
Que surja o amor nesta terra"
Chama flamoriosa
Lutais contra os verdugos de outrora
Perdeste a vida em batalha
e a alma em relvas
Do horizonte perdido
Passado jamais esquecido
Deixaste em ti a memória
De outra vida sem glória.
Mais uma vez te encontro
Tão longe e tão perto
Pensamentos obscuros, hoje descobertos -
No passado inimigo
Tempo de fogo e guerras
Perdeste um grande amigo
Nas mãos dos deuses da guerra;
Sociedade putrefata e hábitos mesquinhos
Tu foste o amigo
No horizonte perdido.
Em tempos difíceis
Auxiliaste-me com ardor
Curaste todas as moléstias
Chagas aberta a dor
Porém um dia, tudo mudou
Deixaste sangrando minh´alma
e todo meu amor;
Feriste não só meu corpo
Alma, espírito, vela
E neste passado distante
Foste amigo, inimigo
Ontem e hoje
Tudo isto a vida revela.
Dores sombrias na alma
A dor que fora minha
Da amada que sorria
E da tua inveja;
Não soubeste que da vida
Nada se cria ou se leva
Deixaste que tua cobiça
Estragasse a coisa mais bela
O meu amor, por ela!!!
"Quando sofrerdes, lembrais
Do que fizeste no passado
Perdoais para serdes perdoado
E onde houve ódio e guerra
Que surja o amor nesta terra"
Invasões de frustrações
Invadia-me os olhos com a pretensão de descobrir minhas supostas verdades. Nunca a tinha visto. Virei a minha face para um outro objeto. Carros buzinando, pessoas andando apressadas, neurose. A avenida Paulista, o coração pulsante de artérias entupidas. Malditos. Olhava-me como se estivesse cagado ou como se fosse capaz de me destruir. Impossível... a morte já havia chegado. O fracasso.
Mais uma negativa ao meu desespero por um emprego. Sempre chegam as cartas idiotas que deveriam ficar caladas, esquecidas, para não serem mais uma das novas chagas abertas, nunca cicatrizáveis: "agradecemos a sua participação no processo seletivo". NÃO!!! Novamente. Droga de esperança que nos prende aos sonhos que nunca se concretizam.
Já com o espírito perdido e tentando fingir compreensão a um mundo condenatório. Peço o perdão de todos para aliviar o fardo. O telefone toca. Atendo. A voz amigável inveja a minha vida boa, sem trabalhar - que venham passar pelo desemprego para saber a dor de ser pisado impiedosamente e não ser ajudado. As mãos amigas se lavam. E continuam egoístas. Mundo moderno que me tortura.
Antes a morte fosse a saída. Mas não me aceito derrotado e tão menos desprezado. No bolso só tenho 1 real. É tudo o que não me resta. A pizza Hut deliciosa na boca dos amigos ficará longe. Finjo estar sem fome. Antes não fosse letrado nas melhores faculdades. Antes tivesse sonhado em ser ao ter podido viver. Uma realidade perturbadora que ao mesmo tempo parece dar e retira. A dignidade.
Na mortalidade sinto a pobreza. Invadem-me o "privado" e me expõem ao "público". Sou ridicularizado. E qual é o meu pecado? Todos tem os seus. Maria Madalena do ano 2000. Como milhões de outros sofredores das mesmas e injustas invasões. Sou mais um. E sirvo como objeto de pesquisa para antropólogos urbanos. Sinto raiva. Os olhos da psicóloga devastam minha alma e retiram-me as oportunidades - qual a minha culpa diante do passado ao qual fui obrigado viver e que formaram cicatrizes profundas. Mesmo sem querer meus olhos são uma ameaça poderosa; sou uma arma apontada para todos - espelho do que podem se tornar.
Não me importo mais com o que querem dizer. Somente os amigos tem a liberdade da palavra, mesmo sendo ela cítrica. Na rua um sujeito me pára. Quer uns trocados. Continuo andando pela Paulista com as imagens e pensamentos dos meus infortúnios. - "Não tenho nada, meu amigo". Sai xingando a minha falta de caridade. Vá a merda. Será que as pessoas pensam que só elas sofrem no mundo? Certamente pensam... só nelas. Percebo que não posso manter a minha vaidade ou felicidade... olhos ferinos atacam o pouco que nos resta para tentarmos sermos humanos. Vida miserável. E o estereótipo já está formado. Será que até no pensamento dos outros crêem poderosos interventores? A sanidade parece desvanecer no cérebro já cansado de tentativa... tentativas inócuas. Voltar para casa de mãos vazias, e ser chamado de vagabundo.
- "Pára de passear e arranja um emprego" diz minha sogra. Cadê a compreensão humana? Que se danem todos!!!
Nunca fui egoísta. Compartilhei minhas mãos, distribui sorrisos e atitudes. Objetivar retorno financeiro não era o importante em cada um desses momentos, mas capitalizar a sensação de vida... a energia alegre que está nesse mesmo ar que agora é denso. A avenida Paulista do meu cérebro. Conturbada na velocidade e quantidade, mas pobre no conteúdo. E de diretrizes difusas que, na crise que passamos, faz com que nos percamos.
Amo o meu país. Mas, o que está acontecendo? Terei que culpar políticos ou rever as minhas atitudes. O que será mais fácil? Terei que navegar a globalização ou ser uma bolinha de gude retirada de meninos pobres. Que corram as lágrimas.... a piedade não tem irmão.
No escritório da psicóloga era testado para a empresa. Diversas foram as empresas. E muitas foram as fases suplantas - pequenas batalhas diante da guerra. E na sua capacidade discriminatória, o meu destino. Falhei novamente. Ou melhor, fui falhado na mente desta. Reprovado. Poucas foram as vitórias na vida deste soldado que caminha na Paulista e acabou de ter a vida vasculhada. Sim, meu pai era alcoólatra... e qual é o problema!!! Sim... tenho defeitos!!! Sim.... sou humano. Ou será que terei que transcender a divindade por um mísero, mas tão ambicionado emprego. Mundo estranho. Serei eu objeto de provações mais ríspidas por ter a capacidade de refletir ou a lógica do mundo ainda não foi descoberta? As pessoas não tem tempo a perder. E fazem outros terem todo o tempo do mundo, ainda mais com a invasão tecnológica e virtual sobre seus empregos, hoje dispensáveis.
Na avenida Paulista aquela mulher de traços nordestinos invadia-me os olhos. Não era compaixão o que sentia, tão menos atração. Era agressiva a forma como me desnudava... poderia ela prever o meu futuro ou testar a minha força, já que os mais fracos perecem em solos hostis.... roubar-me, o quê? Corro o risco de ser baleado por bandidos incrédulos da minha pobreza. A minha parte animal, reprimida e adequada pela religião, se manifesta na mesma intensidade e sentido contrário. Ela se sente incomodada, vira a face e vai embora.....
Mais uma negativa ao meu desespero por um emprego. Sempre chegam as cartas idiotas que deveriam ficar caladas, esquecidas, para não serem mais uma das novas chagas abertas, nunca cicatrizáveis: "agradecemos a sua participação no processo seletivo". NÃO!!! Novamente. Droga de esperança que nos prende aos sonhos que nunca se concretizam.
Já com o espírito perdido e tentando fingir compreensão a um mundo condenatório. Peço o perdão de todos para aliviar o fardo. O telefone toca. Atendo. A voz amigável inveja a minha vida boa, sem trabalhar - que venham passar pelo desemprego para saber a dor de ser pisado impiedosamente e não ser ajudado. As mãos amigas se lavam. E continuam egoístas. Mundo moderno que me tortura.
Antes a morte fosse a saída. Mas não me aceito derrotado e tão menos desprezado. No bolso só tenho 1 real. É tudo o que não me resta. A pizza Hut deliciosa na boca dos amigos ficará longe. Finjo estar sem fome. Antes não fosse letrado nas melhores faculdades. Antes tivesse sonhado em ser ao ter podido viver. Uma realidade perturbadora que ao mesmo tempo parece dar e retira. A dignidade.
Na mortalidade sinto a pobreza. Invadem-me o "privado" e me expõem ao "público". Sou ridicularizado. E qual é o meu pecado? Todos tem os seus. Maria Madalena do ano 2000. Como milhões de outros sofredores das mesmas e injustas invasões. Sou mais um. E sirvo como objeto de pesquisa para antropólogos urbanos. Sinto raiva. Os olhos da psicóloga devastam minha alma e retiram-me as oportunidades - qual a minha culpa diante do passado ao qual fui obrigado viver e que formaram cicatrizes profundas. Mesmo sem querer meus olhos são uma ameaça poderosa; sou uma arma apontada para todos - espelho do que podem se tornar.
Não me importo mais com o que querem dizer. Somente os amigos tem a liberdade da palavra, mesmo sendo ela cítrica. Na rua um sujeito me pára. Quer uns trocados. Continuo andando pela Paulista com as imagens e pensamentos dos meus infortúnios. - "Não tenho nada, meu amigo". Sai xingando a minha falta de caridade. Vá a merda. Será que as pessoas pensam que só elas sofrem no mundo? Certamente pensam... só nelas. Percebo que não posso manter a minha vaidade ou felicidade... olhos ferinos atacam o pouco que nos resta para tentarmos sermos humanos. Vida miserável. E o estereótipo já está formado. Será que até no pensamento dos outros crêem poderosos interventores? A sanidade parece desvanecer no cérebro já cansado de tentativa... tentativas inócuas. Voltar para casa de mãos vazias, e ser chamado de vagabundo.
- "Pára de passear e arranja um emprego" diz minha sogra. Cadê a compreensão humana? Que se danem todos!!!
Nunca fui egoísta. Compartilhei minhas mãos, distribui sorrisos e atitudes. Objetivar retorno financeiro não era o importante em cada um desses momentos, mas capitalizar a sensação de vida... a energia alegre que está nesse mesmo ar que agora é denso. A avenida Paulista do meu cérebro. Conturbada na velocidade e quantidade, mas pobre no conteúdo. E de diretrizes difusas que, na crise que passamos, faz com que nos percamos.
Amo o meu país. Mas, o que está acontecendo? Terei que culpar políticos ou rever as minhas atitudes. O que será mais fácil? Terei que navegar a globalização ou ser uma bolinha de gude retirada de meninos pobres. Que corram as lágrimas.... a piedade não tem irmão.
No escritório da psicóloga era testado para a empresa. Diversas foram as empresas. E muitas foram as fases suplantas - pequenas batalhas diante da guerra. E na sua capacidade discriminatória, o meu destino. Falhei novamente. Ou melhor, fui falhado na mente desta. Reprovado. Poucas foram as vitórias na vida deste soldado que caminha na Paulista e acabou de ter a vida vasculhada. Sim, meu pai era alcoólatra... e qual é o problema!!! Sim... tenho defeitos!!! Sim.... sou humano. Ou será que terei que transcender a divindade por um mísero, mas tão ambicionado emprego. Mundo estranho. Serei eu objeto de provações mais ríspidas por ter a capacidade de refletir ou a lógica do mundo ainda não foi descoberta? As pessoas não tem tempo a perder. E fazem outros terem todo o tempo do mundo, ainda mais com a invasão tecnológica e virtual sobre seus empregos, hoje dispensáveis.
Na avenida Paulista aquela mulher de traços nordestinos invadia-me os olhos. Não era compaixão o que sentia, tão menos atração. Era agressiva a forma como me desnudava... poderia ela prever o meu futuro ou testar a minha força, já que os mais fracos perecem em solos hostis.... roubar-me, o quê? Corro o risco de ser baleado por bandidos incrédulos da minha pobreza. A minha parte animal, reprimida e adequada pela religião, se manifesta na mesma intensidade e sentido contrário. Ela se sente incomodada, vira a face e vai embora.....
domingo, 30 de dezembro de 2007
Imbecilóide
Burro pasta mato
Ato fato morto
Burro estúpido caro
Caro estúpido burro
Quem pensas ser tu?
Imagens de um futuro glorioso...
...que nunca chega
Gloria que não mereces - infame tolo
Característica "lóide", imbecil
Quem te vê, nunca te viu
E quem te encontrou sabe
Alma falsa recobra e abre
Asas de vôos inúteis ao ego
Caro imbecil, és cego
E continua na rédea
Muito mais como uma égua
Se pastar mudo, sem nada ruminar
Sabio serás!!!
Ato fato morto
Burro estúpido caro
Caro estúpido burro
Quem pensas ser tu?
Imagens de um futuro glorioso...
...que nunca chega
Gloria que não mereces - infame tolo
Característica "lóide", imbecil
Quem te vê, nunca te viu
E quem te encontrou sabe
Alma falsa recobra e abre
Asas de vôos inúteis ao ego
Caro imbecil, és cego
E continua na rédea
Muito mais como uma égua
Se pastar mudo, sem nada ruminar
Sabio serás!!!
Lótus Ocidental
Respira em ares brancos
É vida a luz do dia
Pétalas suaves, flor de lótus
Que a terra do sol nascente
Alegrou a minha vista
De traços a uma história
Retratada pela aurora
Onde o sol se esconde
E sorri a noite
Iluminada pelo seu luar
E neste sincretismo
Que mesclam os mundos
Encontrei os olhos mais puros
Longe de tal lugar
Brasil, terra querida
No sangue de suas lidas
Trouxe a minha vida
A beleza do seu olhar
É vida a luz do dia
Pétalas suaves, flor de lótus
Que a terra do sol nascente
Alegrou a minha vista
De traços a uma história
Retratada pela aurora
Onde o sol se esconde
E sorri a noite
Iluminada pelo seu luar
E neste sincretismo
Que mesclam os mundos
Encontrei os olhos mais puros
Longe de tal lugar
Brasil, terra querida
No sangue de suas lidas
Trouxe a minha vida
A beleza do seu olhar
O mendigo e o luar
Nas agruras abruptas do âmago
Amargo doces palavras ditas em vão
Promessas simbólicas nunca cumpridas
Cicatrizes no palido coração
Na ampulheta corre a areia
Voluptuosamente, sangue em minhas mãos
Cada grão, um sofrimento
Lamento dual(istico) do mundo são
Ora corre areia, ora sangue
Pobre alma, estive no mangue
Descobrindo no lamaçal
Outros lados que a vida esconde
"Nunca pobre é o coração
Que na luz das agruras incontidas
Proporciona todas as lidas
Que burilam o rico, o mendigo ou seu irmão"
Amargo doces palavras ditas em vão
Promessas simbólicas nunca cumpridas
Cicatrizes no palido coração
Na ampulheta corre a areia
Voluptuosamente, sangue em minhas mãos
Cada grão, um sofrimento
Lamento dual(istico) do mundo são
Ora corre areia, ora sangue
Pobre alma, estive no mangue
Descobrindo no lamaçal
Outros lados que a vida esconde
"Nunca pobre é o coração
Que na luz das agruras incontidas
Proporciona todas as lidas
Que burilam o rico, o mendigo ou seu irmão"
22:22
Repetição
A hora me segue como um fato
Acumula 2, soma 4
E me apresenta, cada noite, como um retrato.
Os olhos desviam, nada vêem, mas no segundo exato:
22:22 ao meu lado.
Será presságio, indicação, interrogação
Afinal, o que significaria ter tantos 2 em minha mão.
Suposição - Se manipulado na derivação, talvez riqueza seja a benção
Sena, loto, quina....sorte espreita na esquina
Na casa lotérica da dona Joaquina
Mas, e senão for isto, o que indica este fato sinistro.
22:22....êpa, hora de dormir!!!
Boa noite....
A hora me segue como um fato
Acumula 2, soma 4
E me apresenta, cada noite, como um retrato.
Os olhos desviam, nada vêem, mas no segundo exato:
22:22 ao meu lado.
Será presságio, indicação, interrogação
Afinal, o que significaria ter tantos 2 em minha mão.
Suposição - Se manipulado na derivação, talvez riqueza seja a benção
Sena, loto, quina....sorte espreita na esquina
Na casa lotérica da dona Joaquina
Mas, e senão for isto, o que indica este fato sinistro.
22:22....êpa, hora de dormir!!!
Boa noite....
sábado, 29 de dezembro de 2007
Escrito a lápis
Escrito a lápis
Trilho meu caminho
Passos decididos, erros cometidos
Apagados do passado
Com um simples passar de mão
Escrito a lápis
Mudo meu destino
Corrijo os passos, desvios
Que todo dia nesta vida
Encontramos pelo chão
Escrito a lápis
Cada barreira, cada dificuldade
Cada momento, cada dia
Pode ser transformado em alegria
Criando um mundo mais são
Escrito a lápis
Vivo minha vida
Sorrio, pois sei
Que mesmo ao fim do pior dia
O destino está em minhas mãos!!!
Trilho meu caminho
Passos decididos, erros cometidos
Apagados do passado
Com um simples passar de mão
Escrito a lápis
Mudo meu destino
Corrijo os passos, desvios
Que todo dia nesta vida
Encontramos pelo chão
Escrito a lápis
Cada barreira, cada dificuldade
Cada momento, cada dia
Pode ser transformado em alegria
Criando um mundo mais são
Escrito a lápis
Vivo minha vida
Sorrio, pois sei
Que mesmo ao fim do pior dia
O destino está em minhas mãos!!!
Verdades!:
Louca dor
Sinto na alma infeliz
Tristeza por ser passado
De um mundo
Que não foi, e nem é
Ninguém sabe o que diz
Ilustre pensadores "ignóbeis"
Débeis de mentalidade "sã"
Qual é a loucura do mundo
A não ser esta em que o mundo está!
O pequeno se considera grande
A inteligente, imortal
Pobre do sujeito que não sabe
Que este mundo como tal
É totalmente irracional
Sinto na alma infeliz
Tristeza por ser passado
De um mundo
Que não foi, e nem é
Ninguém sabe o que diz
Ilustre pensadores "ignóbeis"
Débeis de mentalidade "sã"
Qual é a loucura do mundo
A não ser esta em que o mundo está!
O pequeno se considera grande
A inteligente, imortal
Pobre do sujeito que não sabe
Que este mundo como tal
É totalmente irracional
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
A mulher que pensava ser Deus
Diversos pecados foram prometidos a um homem - pedras atiradas a cruz por mãos femininas, delicadas, sinceras, macias e vingativas. Em seu leito, D. Emília provou os licores de Lucifer nas sensações que a traição lhe cobriu. Uma mulher muito mais jovem. Inveja. Bela e Esbelta. Ira. Coberta em suas vaidades, jóias e sedas presenteadas pelo poder do dinheiro para sentir-se superior.
Os dois, na cama, observavam surpresos o flagra dado por D. Emília, que havia acabado de retornar inesperadamente da viagem à fazenda de seu irmão, na cidade de Andradas. A menina Catharina, envergonhada com a situação, fazia o possível para se esconder sob os lençóis. Constrangia-se com os possíveis pensamentos daquela que sempre havia lhe tratado muito bem. "Estou perdida... o que o meu pai irá fazer quando ficar sabendo?" pensava intimamente, enquanto Virgílio fitava agressivamente a esposa.
- "Meu Deus, o que é isso?!" - disse inconformada com a situação, tentando segurar as lágrimas que lhe vinham aos olhos.
Havia duas alternativas para ele. Pedir desculpas ou, a mais preferida, humilhá-la. E percebendo a fúria que brotava nos olhos de Emília, sem piedade, escolheu pela segunda:
- "Emília, não vou me justificar... não tenho do que me justificar... é isso que você está vendo e ponto". Antes tivesse encerrado por aí.
- "Se você fosse bela, jovem, magrinha e sedutora como Catharina, nada disso teria acontecido. Precisaria de milhões de jóias para ficar mais atraente, além de implorar um milagre a Deus" - sarcástico, como o espelho que refletia essa verdade.
Sentiu a ironia de seu marido na verdade crua, com a menina nua. Não era mais bela ou jovem. Nem seus traços eram mais os mesmos - uma vaga lembrança pela metamorfose sofrida. Uma pintura borrada, uma cópia malfeita. O tempo lhe fora muito cruel. Vieram-lhe rugas e gorduras. Sobraram-lhe pintas, manchas, peles, cabelos brancos que, em conjunto, marcavam-lhe a velhice.
Catharina era uma menina linda, não devia ter mais do que dezessete anos. Era bela. Uma jovem tentadoramente atraente que escondia ingenuidade e malícia num mesmo olhar. D. Emília não conseguia deixar de reparar como o corpo daquela menina brilhava mesmo na escuridão daquele quarto; sua pele alva, nêspera, criava contraste com seus olhos e cabelos negros, que eram lisos, compridos. A menina era a cicuta que inebriava a alma dos homens a cometerem pecados; perfeita como um quadro de Rembrandt, ocasionava inveja oculta nas mulheres que, confrontando-se com a realidade, enxergavam as diferenças inferiorizantes.
Flagrar Virgílio com a menina Catharina foi o maior golpe que recebeu em sua vida, maior do que ter sido obrigada a se casar com ele, mesmo interessada num outro rapaz. Naquela época, sem a possibilidade de escolha, teve que se sujeitar ao pacto familiar que uniu as mais poderosas e influentes familias da região. Afastada das decisões dos "coronéis", nunca pudera falar - somente aceitar. Tão menos gritar ou questionar, e sim, respeitar e acatar.
Esse golpe atingia-lhe na única coisa que ainda possuía: sua vaidade. Quando jovem, D. Emília foi uma bela mulher - tão bela quanto Catharina - e não se conseguia se conformar com as tristes transformações que se davam em seu corpo, que deixavam-na sem a mesma disposição, beleza ou motivação para se manter vivendo. Porém, sendo católica fervorosa, preferia as rezas ao mesquinho sentimento, ou assim buscava parecer.
A raiva que sentia naquele momento era maior do que qualquer uma das humilhações a que era submetida diariamente. Doía profundamente ser atingida em seu ponto fraco, que Virgílio bem conhecia. Antes essa dor fosse apenas resultado do ciúme que, infelizmente, não mais sentia. Intimamente, desejava que ele morresse, apesar de não assumir nem em pensamento. A repressão era uma constante, e os santos estavam a protegê-la das mais difíceis situações. Eram a muleta para quem nada possuía - nem filhos, nem amigas, ninguém. Escapara da insanidade pelas preces prometidas, mas a cena com a menina Catharina foi maior do que qualquer uma das farras de Virgílio.
O tempo tornou-a escrava de suas inquietações. No início, as coisas foram diferentes, julgou-se apaixonada por ele, ou pensou que sim, afinal não tinha como se questionar sem conhecer minimamente tal possibilidade em outro homem. Porém, esse mesmo tempo demonstrou que o seu sonho de felicidade não poderia existir. Nessa história não havia espaço para fantasia. A realidade é que vivia com um homem feio e medíocre que, sendo bêbado e jogador, gastava o pouco que ainda possuíam em suas farras. Todos os dias, alcoolizado, chegava em sua casa altas horas da noite e, muitas vezes, obrigava-a a se deitar com ele mesmo nessas condições.
Na fúria dos apressados segundos, tais palavras e a visões lhe tiraram a sanidade. A compostura repressiva deu espaço à liberdade da loucura - onde muitas promessas surgiram na onipotência criada por estas situações. E foi quando tudo começou a acontecer.
- "Sentirá a ferro e fogo a dor e a ira dos deuses. Pois quem crê em mim nada sentirá se pureza encontrar" - gritava, enquanto chamava dois funcionários de sua fazenda.
- "Emília. Está louca, mulher?" - surpreendia-se Virgílio com a atitude da, até então, submissa esposa.
- "Parem...." - ordenou aos funcionários. Em vão. Não gostavam dele, e tinham motivos de sobra para acatar a ordem de D. Emília. Humilhações, autoritarismo, semi-escravidão, sensações presentes e plenas de raiva.
- "Levem-no ao tronco" - ordenou D. Emília, que foi imediatamente atendida. O antigo tronco, onde muitos escravos foram açoitados até a morte, iria presenciar algo inédito.
- "Pelo amor de Deus, Emília... o que pretende fazer?" - perguntava com preocupação latente, crescendo à medida que os grilhões lhe foram colocados. Estava nu, e as vergonhas do sem-vergonha eram motivo de risos entre as empregadas - ex-escravas, muitas vezes molestadas, bolinadas, pelo patrão.
- "Sentirá de minhas mãos o perdão, e das mãos daqueles que maltrataste, o remédio que o libertará de seus pecados, suas impurezas, de tudo o que fez brotar em sofrimento".
Tal frase era uma incógnita. Intimamente não sentia ter feito nada de mal para os outros - tinha ciência de que bebia em excesso, que jogava, e que havia caído em tentação diante daquela obra detestavelmente tentadora. O que mais? Não tinha resposta. Suas imperfeições não lhe eram tão visíveis como a perfeição de Catharina.
Pensava que tal remédio para as impurezas não deveria ser nada. Porém, o medo crescia a cada segundo que se percebia no tronco.
- "Pelo amor de Deus...." - desesperava-se o traidor.
A jovem Catharina era filha de um pobre sitiante que lhes fornecia legumes. Porém, muitas vezes, devido ao excesso de encomendas, ela se encarregava de ir entregá-las sozinha para ajudar ao seu pai. Todos na região a conheciam. Viram-na crescer e embelezar.
Virgílio já havia reparado muito bem na menina, nas suas curvas, beleza e, principalmente, nos olhos que brilhavam intensamente ao se depararem com tanta riqueza. Desejava uma vida melhor, todo aquele luxo e conforto. Sonhava com as maquilagens da "patroa", e a percepção de Virgílio diante daqueles desejos ocultos abriram a brecha que queria. Sempre que Catharina aparecia, presenteava-a com um agrado - longe dos olhos de seu pai, para que não viesse com suposições que a menina parecia não imaginar, mas que povoavam suas intenções: obter aquele maravilhoso corpo que, mesmo portanto roupas simplórias, ressaltavam sua forma, delicada como a de uma escultura grega.
Ao redor, a menina observava a cena. D. Emília havia deixado-a ir, estava livre, porém preferiu presenciar tudo - parecia esperar algo. Sabia que a menina não tinha culpa, ou assim acreditava. Intimamente pensava que era apenas uma criança corrompida pelas intenções de "alguém" muito mais vivido e esperto do que ela. Além disso, provavelmente ela mesma desejaria aquela mulher se fosse um homem. Mas não era. E para a traição do marido, algo muito especial estava reservado.
- "D. Emília, o que gostaria que fizéssemos?" - perguntou o capataz, ansioso por alguma penalidade.
- "Deixem-no assim por enquanto".
- "Sentirá a humilhação de estar nu e sem defesas. Logo todos na cidade saberão o que aqui está acontecendo - sem sofrimento não há salvação - e virão ajudar a salvá-lo" - deixando no ar qualquer possibilidade, todas ou nenhuma, o que aumentava o desespero de seu marido. Este, chorava copiosamente, sentindo uma dor maior do que qualquer açoite - e como doía ver o orgulho escorrer em cada lágrima e suor. A dignidade morria, a vergonha poluía, mas ainda não era possível sentir seu arrependimento.
No carvalho, o tempo parecia infinito. Não bastava a humilhação dos humildes, a dor da glória e redenção, suportar estaticamente como se a morte já houvesse afligido, era necessário mais.
- "Francisco... vá a cidade espalhar a história" - ordenou Tonhão, o capataz da fazenda. Ordem acatada como seu houvesse sido proferida por D. Emília. O velho Chico era amigo de longa data do pai de Catharina - a jovem formosa. Sabia que, por um lado, a filha do amigo ficaria exposta a comentários se nada fizesse, e, por outro lado, sendo o portador da notícia, poderia remediar o mal que a sociedade faria àquela menina. Mas, que história iria inventar?
Durante o caminho foi matutando com as pedras. Percorreu uma longa distância com seus pensamentos quando uma inspiração lhe surgiu: nunca havia presenciado D. Emília falar contra qualquer pessoa - a forma com a qual se expressava era singular, se não tivesse tomada por Deus, por quem seria?
Chegando na cidade, foi direto ao velho padeiro - ponto difusor das notícias na pequena Poços de Caldas. E, despretensiosamente...
- "Seu Canó, algo estranho anda rondando estas paragens.. e meus olhos puderam presenciar..." - refletindo bem as palavras que estava por falar.
- "Fale Fio, o que anda acontecendo?" - com indescritível ansiedade.
- "O sinhô já ouviu dizer das vozes de Deus contra o pecado?"
- "Como, meu filho".
- "Da presença do Espírito Santo na boca humana dada emergência exigida" - completou jogando a idéia para ser fisgada.
Seu Canó era homem beato. Deixava sua padaria, sua casa, sua família para ir a Igreja. Muito religioso, disse ter ouvido algo do gênero numa viagem pelos interiores de Minas.
- "Pois é... D. Emília veio em salvação de seu marido".
- "Não me diga... justamente a D. Emília" - remoendo-se por nunca ter sido capaz de receber tal "dadiva".
- "Sim, a D. Emília. O Espírito Santo veio em seus ouvidos, pequeno e puro, soprar os pecados que o marido cometera e as penitências a serem recebidas".
- "Mah... será que ela pode fazer isso... o que o padre achará disso?".
- "O Espírito Santo pode tudo..."
E continuou:
- "O Coroné Virgílio está no tronco... desnudo... recebendo o castigo para sua própria redenção. A sua pena... o julgamento".
- "Será que ela não enlouqueceu? Haveria algum motivo?". O padeiro Canó parecia desconfiado. Não poderia crer na hipótese do Espírito Santo, mais por inveja do que por qualquer fato palpável.
- "Essa mulher pensa que é Deus.... hummm....". E continuou:
- "Apesar do marido ser realmente merecedor de uma bela penitência, isto não dá direito a ela de agir desta forma" - desdenhou seu Canó, assumindo a idéia que melhor lhe convinha.
Em pouco tempo, uma pequena multidão já havia se formado e todos se dirigiam para a fazenda. Ninguém pensava em perder a cena. O que os aguardaria lá? Era a pergunta que todos se faziam, curiosos e entusiasmados por ver algo diferente naquela pacata cidade.
Sórdidos pensamentos misturados com a inocência da crença. Alguns se mostravam beatos, outros, o diabo, esperando presenciar sangue e violência - o que sempre atraiu as almas humanas. Um novo martírio, a repetição do coliseu em seus espetáculos dantescos e a morte, neste caso, de um ser nada cristão. Suposições, desejos e pensamentos, cada qual com o seu, durante a caminhada.
Na estrada de terra, uma imensa quantidade de pessoas continuava a se formar - o pó que repousava era acordado pelos pés apressados, de quem vive na monotonia que é quebrada por algo diferente.
- "Ouvi dizer que D.Emília pirou" - dizia um.
- "E que seu marido foi morto a pauladas" - complementou outro.
À medida que circulava a notícia, diferentes versões surgiam. Seria Deus ou o Diabo? Estaria possuída pelo Espírito Santo ou pela pomba gira? Ou teria se revoltado contra as intempestividades do marido? As suposições surgiam. Cada um daqueles buscava acreditar no que melhor lhe convinha. Seu Chico - funcionário da fazenda - conseguiu plantar uma semente. Ninguém comentava sobre um possível adultério, nem podiam imaginar que este era o real motivo - muito menos que a pequena Catharina era a protagonista deste evento. O velho Chico, voltando para a fazenda, refletia sobre todo o acontecimento, e intimamente pensava:
-"Deus queira que D. Emília nada cite perante todos". Havia este risco, o que seria uma tragédia para a vida da menina diante de uma cidade extremamente machista. Certamente se isso viesse a ocorrer precisaria se mudar ou, quem sabe, acabaria na vida fácil. Plantando a loucura de D. Emília pensar ser Deus, atraiu curiosos por fofoca e, principalmente, beatos que seguiam em oração esperando ouvir a voz presente do Espírito Santo - não deixariam a nova porta-voz ser crucificada pelas incompreensões humanas.
-"Glória, Glória.... aleluia" - cantavam cerca de trinta pessoas que, em frente ao pelotão, carregavam uma imagem de Nossa Senhora do Desterro.
Na fazenda, D. Emília tratava de cuidar da pequena Catharina. Não cria, moça bela, culpada pelo "incidente". Conhecia bem o marido e jogava neste toda a culpa. Ela vira Catharina crescer, mesmo na diferença de mundos - uma rica, outra paupérrima... uma patroa, outra, filha de um trabalhador valente, que viúvo, fazia de tudo para o melhor da pequena filha. Sua vida era toda dedicada a esta, e seria uma dor muito grande descobrir o que estava acontecendo ou uma tragédia pior.
- "Menina.... te conheço há anos... sempre com teu pai por todos os lados". Uma pausa.
- "Como pode cair na lábia daquele verme, que todos sabem, não prestar".
Catharina permanecia muda. Em seus pensamentos, milhões de coisas lhe passavam pela cabeça. Como sair daquela situação? Felizmente, para ela, ninguém conseguia imaginar a verdade que se escondia por detrás daqueles olhos ingênuos - sempre soube dissimular, construir uma imagem de boa moça. Alguns anos antes - então com doze anos - teve sua primeira experiência amorosa, com um primo afastado que veio visitar seu pai.
Este, sentindo o brilho da ambição, presenteou-a com um belo colar; e como tudo tem um preço, teve a sua pureza como moeda de troca. Gostou de ambas as coisas - naquela noite, no pequeno estábulo do sítio de seu pai, se encontrou com o primo, que foi lhe ensinando o caminho do amor. Tirando-lhe delicadamente cada peça, beijando-lhe o corpo e transformando aquela criança em mulher.
-"Dona Emília... nem entendo como tudo isso aconteceu... vim fazer uma entrega para o meu pai, que estava super atarefado, e quando percebi, o seu Virgílio já estava tentando me beijar a força". Com uma sinceridade comovente para quem mentia.
-"Maldito seja... como pode fazer isso com uma criança?".
-"Mas o castigo aos pecados não tardará... não tardará... e ele, finalmente, aprenderá que na vida todos os atos tem um preço". A menina sabia disso, conhecia, até então, o valor financeiro das suas ações, mas em pouco conheceria o valor moral que existem em todas as relações pessoais.
- "Não se precipite D. Emília, a senhora não me parece bem".
- "Nunca estive tão bem na minha vida. Menina, eu sei muito bem o que estou fazendo... tudo vai sair do jeito que estou pensando".
- "Por favor, D. Emília... se meu pai souber estarei perdida".
D. Emília parecia presa em seus pensamentos. Catharina não sabia se ela havia ou não ouvido ao seu pedido, mas era melhor não dar sopa para o azar ou para a imaginação dos verdadeiros fatos. A conversa foi breve e, novamente, D. Emília deixou-a livre para ir embora antes que o povo chegasse da cidade, porém esta novamente se recusou a ir. Queria presenciar o que iria acontecer. E complementou para a menina:
- "Já que desejas ficar, verás os pecados prometidos a um homem...". E saiu sem mais dizer.
O povo começava a chegar em frente a fazenda. Tonhão e seu Chico, assim como outros funcionários, indicavam o caminho para a sede. Precisavam manter a ordem, pois não poderiam conceber que algo sumisse da propriedade; que alguém, aproveitando-se da situação, viesse a roubar qualquer item da propriedade.
As funcionárias abandonaram seus trabalhos e se dirigiram para o tronco, ficando ao seu redor. Todas já haviam visto o patrão desnudo, mas não haviam abandonado o trabalho, até quando começou a chegar o povo da cidade. Os beatos continuavam com suas cantorias, e os demais, comentavam a cena mais engraçada presenciada: seu Virgílio, sem roupa, chorando, e preso ao tronco.
Durante cinco minutos, as pessoas ficaram esperando alguma coisa, até que D. Emília apareceu, passando por todos como se não houvesse ninguém ao redor. Em sua mão esquerda portava uma navalha, e na direita uma tulipa.
- "Virgílio, agora chegou a hora de receber o remédio para cada um dos seus pecados... o povo zomba de ti, da sua situação, lembre-se que, no tronco, não tens mais amigos, colegas e diversão... os próximos se tornam distantes e inatingíveis, assim como o foi para os outros sem sua piedade".
Aproximou-se dele, e, para espanto das pessoas, chamou o capataz para que segurasse sua cabeça. Arrancou uma pétala da tulipa e colocou-a em sua boca.
- "Espero que suas palavras se purifiquem... e que, de onde sinto o cheiro da bebida, todos possam sentir o perfume da vida".
Pediu a Tonhão que continuasse a segurar a cabeça de Virgílio. E num lance, perdido pelo olhar de muitos, abriu-lhe um talho na face. A navalha veloz cortou um pouco da estima. Tirando-lhe o pouco de beleza que alguém ali poderia encontrar.
- "Que sinta a ira e a inveja de seu passado... não queira nunca mais maltratar os que lhe são diferentes... pretos, amarelos, feios e velhos... agora sua face não será a mesma.. para sempre ficará marcada a dor que ocasionaste a todos o que feriste".
As pessoas ficaram chocadas. Os mais fervorosos católicos choravam copiosamente pela lição que conseguiam entender. Os pagãos se deliciavam com o cenário que, apesar de haverem imaginado, não acreditavam vir a realidade. D. Emília sempre fora uma pessoa bondosa e submissa, incapaz de machucar uma simples formiga, mas, naquele momento, viam outra pessoa, que certamente não era a mesma velha delicada de sempre.
Houve inquietação de muitas pessoas. Porém ninguém estava triste com o sofrimento que Virgílio passava. Sentia-se humilhado por estar nu, sem defesas, dignidade, com o rosto em chamas. Sem o orgulho e a soberba que fazia questão de carregar por todos os lados. Durante minutos, D. Emília deixou-o sofrer com a expectativa. Será que havia acabado? Não, era apenas o começo.
Retornou de sua casa com um pote de mel na mão esquerda e com um chicote na direita. Virgílio se aterrorizava com as perspectivas. E D. Emília, sem dar ouvido aos gritos que incitavam a agressão, manteve-se serena e continuou em seu papel de Deus.
- "Que este mel purifique sua alma de toda a maldade que fez passar. A lição que hoje aprende não é a da raiva, mas da capacidade de se enxergar em cada um dos pecados". Passou-lhe o mel na ferida que abrira e preparou o caminho para a libertação de muitos. E continuou:
- "Cada qual que se sente ofendido com as atitudes de Virgílio venha, pegue este chicote, e lhe castigue".
As pessoas olhavam incrédulas, parecendo não acreditar nas palavras de D. Emília. Até que a primeira pessoa se apresentou - uma ex-escrava que havia sofrido muito nas mãos destes. Dizem as más línguas que este seria o pai de seu temporão. Outras funcionárias se uniram a fila, assim como funcionários e parte daquelas pessoas que vieram da cidade. Os mais religiosos diziam já haver perdoado.
- "Não discutimos o perdão e sim a libertação dos pecados dele, coisa que só irá conseguir sofrendo e vendo quem ele fez sofrer".
Alguns foram convencidos com esse argumento e aumentaram a fila, para desespero de Virgílio. "Meu Deus, como posso ter feito tanta gente sofrer?", pensava intimamente. A fila tinha cerca de trinta pessoas que, em cada uma das chibatadas, forneciam-lhe uma resposta. D. Emília pediu a todos que falassem dos pecados que este havia cometido para com elas - alguns pecados visto que os funcionários tinham uma lista enorme de queixas.
Assim que o último golpe lhe foi desferido, assim como o motivo, pediu que o capataz o retirasse do tronco. Alguns esboçaram uma indignação, queriam ver mais. D. Emília pediu a todos que esperassem, ainda não tinha terminado com os pecados. E ordenou ao Tonhão que o levasse ao quarto do casal, enquanto os demais funcionários ficavam a controlar o povo.
Tonhão colocou-o na cama, amarrando-lhe as mãos e as pernas, conforme D. Emília havia lhe pedido. Porém, quando se preparava para retornar ao pátio externo, D. Emília o impediu.
- "Tonhão... para a libertação desse outro pecado precisarei de você". O capataz não compreendia. Mas estava lá para ajudá-la a fazer qualquer coisa contra aquele odioso patrão que possuía.
Sem nada dizer, beijou-o na frente de Virgílio, beijo que foi correspondido. Tonhão, que havia percebido a intenção de D. Emília, começou a agarrá-la, beijá-la com voracidade que faria inveja a seu marido, que preferia não enxergar o que estavam fazendo. Mas, apesar de fazer todo o esforço do mundo, não conseguiu ficar sem ver o capataz dormir com sua esposa.
- "Venha Tonhão... de agora em diante serás o meu homem... pois, quem me recusou não terá nada de mim... sentirá a mesma dor dos próprios pecados, traições... e a dor de saber que, mesmo me tirando a vaidade, existem pessoas que me desejam. Que o ciúme o liberte".
Após haverem consumado o fato, D. Emília começou a preparar uma trouxa com algumas roupas, enquanto pediu para que Tonhão o levasse para fora. Pouco tempo depois, na presença de todos, tirou toda a riqueza de Virgílio e mandou-o embora. Fato incomum para a época.
- "Nada mais possui aqui. Pegue suas roupas e siga o seu caminho". Estas foram suas últimas palavras.
Na verdade, Virgílio vivia da riqueza que restava a Emília e assim foi por muitos anos. Sempre que precisava de algo, acabava recorrendo a família dela para conseguir, com o pretexto de quebra de safra ou alguma outra epidemia a dizimar seus gados.
Viu seu marido sair pela estrada. Sem rumo, destino. Como não tiveram filhos, ela não tinha com que se preocupar. As pessoas, com velas acesas nas mãos, abriram caminho para que ele fosse. E seguiram sua imagem até desaparecer na escuridão, que o fim daquela tarde trouxe. Era a liberdade, mesmo sem nada nas mãos. Tinha um mundo para construir, sem a prisão do passado, dos erros, da tristeza que ocasionou a muitas pessoas. Foi embora, humilhado, mas com a chance do perdão que a mulher, na voz de Deus, permitirá a ele. Nunca mais souberam dele e, desde então, D. Emília pode viver a vida como sempre quis. Já Catharina, depois de um tempo, foi descoberta enquanto se envolvia com outro fazendeiro da região, mas seu final não foi infeliz: a última notícia que tive é que havia conseguido se casar com um empresário da capital. Cada qual tem o que faz por merecer.
Os dois, na cama, observavam surpresos o flagra dado por D. Emília, que havia acabado de retornar inesperadamente da viagem à fazenda de seu irmão, na cidade de Andradas. A menina Catharina, envergonhada com a situação, fazia o possível para se esconder sob os lençóis. Constrangia-se com os possíveis pensamentos daquela que sempre havia lhe tratado muito bem. "Estou perdida... o que o meu pai irá fazer quando ficar sabendo?" pensava intimamente, enquanto Virgílio fitava agressivamente a esposa.
- "Meu Deus, o que é isso?!" - disse inconformada com a situação, tentando segurar as lágrimas que lhe vinham aos olhos.
Havia duas alternativas para ele. Pedir desculpas ou, a mais preferida, humilhá-la. E percebendo a fúria que brotava nos olhos de Emília, sem piedade, escolheu pela segunda:
- "Emília, não vou me justificar... não tenho do que me justificar... é isso que você está vendo e ponto". Antes tivesse encerrado por aí.
- "Se você fosse bela, jovem, magrinha e sedutora como Catharina, nada disso teria acontecido. Precisaria de milhões de jóias para ficar mais atraente, além de implorar um milagre a Deus" - sarcástico, como o espelho que refletia essa verdade.
Sentiu a ironia de seu marido na verdade crua, com a menina nua. Não era mais bela ou jovem. Nem seus traços eram mais os mesmos - uma vaga lembrança pela metamorfose sofrida. Uma pintura borrada, uma cópia malfeita. O tempo lhe fora muito cruel. Vieram-lhe rugas e gorduras. Sobraram-lhe pintas, manchas, peles, cabelos brancos que, em conjunto, marcavam-lhe a velhice.
Catharina era uma menina linda, não devia ter mais do que dezessete anos. Era bela. Uma jovem tentadoramente atraente que escondia ingenuidade e malícia num mesmo olhar. D. Emília não conseguia deixar de reparar como o corpo daquela menina brilhava mesmo na escuridão daquele quarto; sua pele alva, nêspera, criava contraste com seus olhos e cabelos negros, que eram lisos, compridos. A menina era a cicuta que inebriava a alma dos homens a cometerem pecados; perfeita como um quadro de Rembrandt, ocasionava inveja oculta nas mulheres que, confrontando-se com a realidade, enxergavam as diferenças inferiorizantes.
Flagrar Virgílio com a menina Catharina foi o maior golpe que recebeu em sua vida, maior do que ter sido obrigada a se casar com ele, mesmo interessada num outro rapaz. Naquela época, sem a possibilidade de escolha, teve que se sujeitar ao pacto familiar que uniu as mais poderosas e influentes familias da região. Afastada das decisões dos "coronéis", nunca pudera falar - somente aceitar. Tão menos gritar ou questionar, e sim, respeitar e acatar.
Esse golpe atingia-lhe na única coisa que ainda possuía: sua vaidade. Quando jovem, D. Emília foi uma bela mulher - tão bela quanto Catharina - e não se conseguia se conformar com as tristes transformações que se davam em seu corpo, que deixavam-na sem a mesma disposição, beleza ou motivação para se manter vivendo. Porém, sendo católica fervorosa, preferia as rezas ao mesquinho sentimento, ou assim buscava parecer.
A raiva que sentia naquele momento era maior do que qualquer uma das humilhações a que era submetida diariamente. Doía profundamente ser atingida em seu ponto fraco, que Virgílio bem conhecia. Antes essa dor fosse apenas resultado do ciúme que, infelizmente, não mais sentia. Intimamente, desejava que ele morresse, apesar de não assumir nem em pensamento. A repressão era uma constante, e os santos estavam a protegê-la das mais difíceis situações. Eram a muleta para quem nada possuía - nem filhos, nem amigas, ninguém. Escapara da insanidade pelas preces prometidas, mas a cena com a menina Catharina foi maior do que qualquer uma das farras de Virgílio.
O tempo tornou-a escrava de suas inquietações. No início, as coisas foram diferentes, julgou-se apaixonada por ele, ou pensou que sim, afinal não tinha como se questionar sem conhecer minimamente tal possibilidade em outro homem. Porém, esse mesmo tempo demonstrou que o seu sonho de felicidade não poderia existir. Nessa história não havia espaço para fantasia. A realidade é que vivia com um homem feio e medíocre que, sendo bêbado e jogador, gastava o pouco que ainda possuíam em suas farras. Todos os dias, alcoolizado, chegava em sua casa altas horas da noite e, muitas vezes, obrigava-a a se deitar com ele mesmo nessas condições.
Na fúria dos apressados segundos, tais palavras e a visões lhe tiraram a sanidade. A compostura repressiva deu espaço à liberdade da loucura - onde muitas promessas surgiram na onipotência criada por estas situações. E foi quando tudo começou a acontecer.
- "Sentirá a ferro e fogo a dor e a ira dos deuses. Pois quem crê em mim nada sentirá se pureza encontrar" - gritava, enquanto chamava dois funcionários de sua fazenda.
- "Emília. Está louca, mulher?" - surpreendia-se Virgílio com a atitude da, até então, submissa esposa.
- "Parem...." - ordenou aos funcionários. Em vão. Não gostavam dele, e tinham motivos de sobra para acatar a ordem de D. Emília. Humilhações, autoritarismo, semi-escravidão, sensações presentes e plenas de raiva.
- "Levem-no ao tronco" - ordenou D. Emília, que foi imediatamente atendida. O antigo tronco, onde muitos escravos foram açoitados até a morte, iria presenciar algo inédito.
- "Pelo amor de Deus, Emília... o que pretende fazer?" - perguntava com preocupação latente, crescendo à medida que os grilhões lhe foram colocados. Estava nu, e as vergonhas do sem-vergonha eram motivo de risos entre as empregadas - ex-escravas, muitas vezes molestadas, bolinadas, pelo patrão.
- "Sentirá de minhas mãos o perdão, e das mãos daqueles que maltrataste, o remédio que o libertará de seus pecados, suas impurezas, de tudo o que fez brotar em sofrimento".
Tal frase era uma incógnita. Intimamente não sentia ter feito nada de mal para os outros - tinha ciência de que bebia em excesso, que jogava, e que havia caído em tentação diante daquela obra detestavelmente tentadora. O que mais? Não tinha resposta. Suas imperfeições não lhe eram tão visíveis como a perfeição de Catharina.
Pensava que tal remédio para as impurezas não deveria ser nada. Porém, o medo crescia a cada segundo que se percebia no tronco.
- "Pelo amor de Deus...." - desesperava-se o traidor.
A jovem Catharina era filha de um pobre sitiante que lhes fornecia legumes. Porém, muitas vezes, devido ao excesso de encomendas, ela se encarregava de ir entregá-las sozinha para ajudar ao seu pai. Todos na região a conheciam. Viram-na crescer e embelezar.
Virgílio já havia reparado muito bem na menina, nas suas curvas, beleza e, principalmente, nos olhos que brilhavam intensamente ao se depararem com tanta riqueza. Desejava uma vida melhor, todo aquele luxo e conforto. Sonhava com as maquilagens da "patroa", e a percepção de Virgílio diante daqueles desejos ocultos abriram a brecha que queria. Sempre que Catharina aparecia, presenteava-a com um agrado - longe dos olhos de seu pai, para que não viesse com suposições que a menina parecia não imaginar, mas que povoavam suas intenções: obter aquele maravilhoso corpo que, mesmo portanto roupas simplórias, ressaltavam sua forma, delicada como a de uma escultura grega.
Ao redor, a menina observava a cena. D. Emília havia deixado-a ir, estava livre, porém preferiu presenciar tudo - parecia esperar algo. Sabia que a menina não tinha culpa, ou assim acreditava. Intimamente pensava que era apenas uma criança corrompida pelas intenções de "alguém" muito mais vivido e esperto do que ela. Além disso, provavelmente ela mesma desejaria aquela mulher se fosse um homem. Mas não era. E para a traição do marido, algo muito especial estava reservado.
- "D. Emília, o que gostaria que fizéssemos?" - perguntou o capataz, ansioso por alguma penalidade.
- "Deixem-no assim por enquanto".
- "Sentirá a humilhação de estar nu e sem defesas. Logo todos na cidade saberão o que aqui está acontecendo - sem sofrimento não há salvação - e virão ajudar a salvá-lo" - deixando no ar qualquer possibilidade, todas ou nenhuma, o que aumentava o desespero de seu marido. Este, chorava copiosamente, sentindo uma dor maior do que qualquer açoite - e como doía ver o orgulho escorrer em cada lágrima e suor. A dignidade morria, a vergonha poluía, mas ainda não era possível sentir seu arrependimento.
No carvalho, o tempo parecia infinito. Não bastava a humilhação dos humildes, a dor da glória e redenção, suportar estaticamente como se a morte já houvesse afligido, era necessário mais.
- "Francisco... vá a cidade espalhar a história" - ordenou Tonhão, o capataz da fazenda. Ordem acatada como seu houvesse sido proferida por D. Emília. O velho Chico era amigo de longa data do pai de Catharina - a jovem formosa. Sabia que, por um lado, a filha do amigo ficaria exposta a comentários se nada fizesse, e, por outro lado, sendo o portador da notícia, poderia remediar o mal que a sociedade faria àquela menina. Mas, que história iria inventar?
Durante o caminho foi matutando com as pedras. Percorreu uma longa distância com seus pensamentos quando uma inspiração lhe surgiu: nunca havia presenciado D. Emília falar contra qualquer pessoa - a forma com a qual se expressava era singular, se não tivesse tomada por Deus, por quem seria?
Chegando na cidade, foi direto ao velho padeiro - ponto difusor das notícias na pequena Poços de Caldas. E, despretensiosamente...
- "Seu Canó, algo estranho anda rondando estas paragens.. e meus olhos puderam presenciar..." - refletindo bem as palavras que estava por falar.
- "Fale Fio, o que anda acontecendo?" - com indescritível ansiedade.
- "O sinhô já ouviu dizer das vozes de Deus contra o pecado?"
- "Como, meu filho".
- "Da presença do Espírito Santo na boca humana dada emergência exigida" - completou jogando a idéia para ser fisgada.
Seu Canó era homem beato. Deixava sua padaria, sua casa, sua família para ir a Igreja. Muito religioso, disse ter ouvido algo do gênero numa viagem pelos interiores de Minas.
- "Pois é... D. Emília veio em salvação de seu marido".
- "Não me diga... justamente a D. Emília" - remoendo-se por nunca ter sido capaz de receber tal "dadiva".
- "Sim, a D. Emília. O Espírito Santo veio em seus ouvidos, pequeno e puro, soprar os pecados que o marido cometera e as penitências a serem recebidas".
- "Mah... será que ela pode fazer isso... o que o padre achará disso?".
- "O Espírito Santo pode tudo..."
E continuou:
- "O Coroné Virgílio está no tronco... desnudo... recebendo o castigo para sua própria redenção. A sua pena... o julgamento".
- "Será que ela não enlouqueceu? Haveria algum motivo?". O padeiro Canó parecia desconfiado. Não poderia crer na hipótese do Espírito Santo, mais por inveja do que por qualquer fato palpável.
- "Essa mulher pensa que é Deus.... hummm....". E continuou:
- "Apesar do marido ser realmente merecedor de uma bela penitência, isto não dá direito a ela de agir desta forma" - desdenhou seu Canó, assumindo a idéia que melhor lhe convinha.
Em pouco tempo, uma pequena multidão já havia se formado e todos se dirigiam para a fazenda. Ninguém pensava em perder a cena. O que os aguardaria lá? Era a pergunta que todos se faziam, curiosos e entusiasmados por ver algo diferente naquela pacata cidade.
Sórdidos pensamentos misturados com a inocência da crença. Alguns se mostravam beatos, outros, o diabo, esperando presenciar sangue e violência - o que sempre atraiu as almas humanas. Um novo martírio, a repetição do coliseu em seus espetáculos dantescos e a morte, neste caso, de um ser nada cristão. Suposições, desejos e pensamentos, cada qual com o seu, durante a caminhada.
Na estrada de terra, uma imensa quantidade de pessoas continuava a se formar - o pó que repousava era acordado pelos pés apressados, de quem vive na monotonia que é quebrada por algo diferente.
- "Ouvi dizer que D.Emília pirou" - dizia um.
- "E que seu marido foi morto a pauladas" - complementou outro.
À medida que circulava a notícia, diferentes versões surgiam. Seria Deus ou o Diabo? Estaria possuída pelo Espírito Santo ou pela pomba gira? Ou teria se revoltado contra as intempestividades do marido? As suposições surgiam. Cada um daqueles buscava acreditar no que melhor lhe convinha. Seu Chico - funcionário da fazenda - conseguiu plantar uma semente. Ninguém comentava sobre um possível adultério, nem podiam imaginar que este era o real motivo - muito menos que a pequena Catharina era a protagonista deste evento. O velho Chico, voltando para a fazenda, refletia sobre todo o acontecimento, e intimamente pensava:
-"Deus queira que D. Emília nada cite perante todos". Havia este risco, o que seria uma tragédia para a vida da menina diante de uma cidade extremamente machista. Certamente se isso viesse a ocorrer precisaria se mudar ou, quem sabe, acabaria na vida fácil. Plantando a loucura de D. Emília pensar ser Deus, atraiu curiosos por fofoca e, principalmente, beatos que seguiam em oração esperando ouvir a voz presente do Espírito Santo - não deixariam a nova porta-voz ser crucificada pelas incompreensões humanas.
-"Glória, Glória.... aleluia" - cantavam cerca de trinta pessoas que, em frente ao pelotão, carregavam uma imagem de Nossa Senhora do Desterro.
Na fazenda, D. Emília tratava de cuidar da pequena Catharina. Não cria, moça bela, culpada pelo "incidente". Conhecia bem o marido e jogava neste toda a culpa. Ela vira Catharina crescer, mesmo na diferença de mundos - uma rica, outra paupérrima... uma patroa, outra, filha de um trabalhador valente, que viúvo, fazia de tudo para o melhor da pequena filha. Sua vida era toda dedicada a esta, e seria uma dor muito grande descobrir o que estava acontecendo ou uma tragédia pior.
- "Menina.... te conheço há anos... sempre com teu pai por todos os lados". Uma pausa.
- "Como pode cair na lábia daquele verme, que todos sabem, não prestar".
Catharina permanecia muda. Em seus pensamentos, milhões de coisas lhe passavam pela cabeça. Como sair daquela situação? Felizmente, para ela, ninguém conseguia imaginar a verdade que se escondia por detrás daqueles olhos ingênuos - sempre soube dissimular, construir uma imagem de boa moça. Alguns anos antes - então com doze anos - teve sua primeira experiência amorosa, com um primo afastado que veio visitar seu pai.
Este, sentindo o brilho da ambição, presenteou-a com um belo colar; e como tudo tem um preço, teve a sua pureza como moeda de troca. Gostou de ambas as coisas - naquela noite, no pequeno estábulo do sítio de seu pai, se encontrou com o primo, que foi lhe ensinando o caminho do amor. Tirando-lhe delicadamente cada peça, beijando-lhe o corpo e transformando aquela criança em mulher.
-"Dona Emília... nem entendo como tudo isso aconteceu... vim fazer uma entrega para o meu pai, que estava super atarefado, e quando percebi, o seu Virgílio já estava tentando me beijar a força". Com uma sinceridade comovente para quem mentia.
-"Maldito seja... como pode fazer isso com uma criança?".
-"Mas o castigo aos pecados não tardará... não tardará... e ele, finalmente, aprenderá que na vida todos os atos tem um preço". A menina sabia disso, conhecia, até então, o valor financeiro das suas ações, mas em pouco conheceria o valor moral que existem em todas as relações pessoais.
- "Não se precipite D. Emília, a senhora não me parece bem".
- "Nunca estive tão bem na minha vida. Menina, eu sei muito bem o que estou fazendo... tudo vai sair do jeito que estou pensando".
- "Por favor, D. Emília... se meu pai souber estarei perdida".
D. Emília parecia presa em seus pensamentos. Catharina não sabia se ela havia ou não ouvido ao seu pedido, mas era melhor não dar sopa para o azar ou para a imaginação dos verdadeiros fatos. A conversa foi breve e, novamente, D. Emília deixou-a livre para ir embora antes que o povo chegasse da cidade, porém esta novamente se recusou a ir. Queria presenciar o que iria acontecer. E complementou para a menina:
- "Já que desejas ficar, verás os pecados prometidos a um homem...". E saiu sem mais dizer.
O povo começava a chegar em frente a fazenda. Tonhão e seu Chico, assim como outros funcionários, indicavam o caminho para a sede. Precisavam manter a ordem, pois não poderiam conceber que algo sumisse da propriedade; que alguém, aproveitando-se da situação, viesse a roubar qualquer item da propriedade.
As funcionárias abandonaram seus trabalhos e se dirigiram para o tronco, ficando ao seu redor. Todas já haviam visto o patrão desnudo, mas não haviam abandonado o trabalho, até quando começou a chegar o povo da cidade. Os beatos continuavam com suas cantorias, e os demais, comentavam a cena mais engraçada presenciada: seu Virgílio, sem roupa, chorando, e preso ao tronco.
Durante cinco minutos, as pessoas ficaram esperando alguma coisa, até que D. Emília apareceu, passando por todos como se não houvesse ninguém ao redor. Em sua mão esquerda portava uma navalha, e na direita uma tulipa.
- "Virgílio, agora chegou a hora de receber o remédio para cada um dos seus pecados... o povo zomba de ti, da sua situação, lembre-se que, no tronco, não tens mais amigos, colegas e diversão... os próximos se tornam distantes e inatingíveis, assim como o foi para os outros sem sua piedade".
Aproximou-se dele, e, para espanto das pessoas, chamou o capataz para que segurasse sua cabeça. Arrancou uma pétala da tulipa e colocou-a em sua boca.
- "Espero que suas palavras se purifiquem... e que, de onde sinto o cheiro da bebida, todos possam sentir o perfume da vida".
Pediu a Tonhão que continuasse a segurar a cabeça de Virgílio. E num lance, perdido pelo olhar de muitos, abriu-lhe um talho na face. A navalha veloz cortou um pouco da estima. Tirando-lhe o pouco de beleza que alguém ali poderia encontrar.
- "Que sinta a ira e a inveja de seu passado... não queira nunca mais maltratar os que lhe são diferentes... pretos, amarelos, feios e velhos... agora sua face não será a mesma.. para sempre ficará marcada a dor que ocasionaste a todos o que feriste".
As pessoas ficaram chocadas. Os mais fervorosos católicos choravam copiosamente pela lição que conseguiam entender. Os pagãos se deliciavam com o cenário que, apesar de haverem imaginado, não acreditavam vir a realidade. D. Emília sempre fora uma pessoa bondosa e submissa, incapaz de machucar uma simples formiga, mas, naquele momento, viam outra pessoa, que certamente não era a mesma velha delicada de sempre.
Houve inquietação de muitas pessoas. Porém ninguém estava triste com o sofrimento que Virgílio passava. Sentia-se humilhado por estar nu, sem defesas, dignidade, com o rosto em chamas. Sem o orgulho e a soberba que fazia questão de carregar por todos os lados. Durante minutos, D. Emília deixou-o sofrer com a expectativa. Será que havia acabado? Não, era apenas o começo.
Retornou de sua casa com um pote de mel na mão esquerda e com um chicote na direita. Virgílio se aterrorizava com as perspectivas. E D. Emília, sem dar ouvido aos gritos que incitavam a agressão, manteve-se serena e continuou em seu papel de Deus.
- "Que este mel purifique sua alma de toda a maldade que fez passar. A lição que hoje aprende não é a da raiva, mas da capacidade de se enxergar em cada um dos pecados". Passou-lhe o mel na ferida que abrira e preparou o caminho para a libertação de muitos. E continuou:
- "Cada qual que se sente ofendido com as atitudes de Virgílio venha, pegue este chicote, e lhe castigue".
As pessoas olhavam incrédulas, parecendo não acreditar nas palavras de D. Emília. Até que a primeira pessoa se apresentou - uma ex-escrava que havia sofrido muito nas mãos destes. Dizem as más línguas que este seria o pai de seu temporão. Outras funcionárias se uniram a fila, assim como funcionários e parte daquelas pessoas que vieram da cidade. Os mais religiosos diziam já haver perdoado.
- "Não discutimos o perdão e sim a libertação dos pecados dele, coisa que só irá conseguir sofrendo e vendo quem ele fez sofrer".
Alguns foram convencidos com esse argumento e aumentaram a fila, para desespero de Virgílio. "Meu Deus, como posso ter feito tanta gente sofrer?", pensava intimamente. A fila tinha cerca de trinta pessoas que, em cada uma das chibatadas, forneciam-lhe uma resposta. D. Emília pediu a todos que falassem dos pecados que este havia cometido para com elas - alguns pecados visto que os funcionários tinham uma lista enorme de queixas.
Assim que o último golpe lhe foi desferido, assim como o motivo, pediu que o capataz o retirasse do tronco. Alguns esboçaram uma indignação, queriam ver mais. D. Emília pediu a todos que esperassem, ainda não tinha terminado com os pecados. E ordenou ao Tonhão que o levasse ao quarto do casal, enquanto os demais funcionários ficavam a controlar o povo.
Tonhão colocou-o na cama, amarrando-lhe as mãos e as pernas, conforme D. Emília havia lhe pedido. Porém, quando se preparava para retornar ao pátio externo, D. Emília o impediu.
- "Tonhão... para a libertação desse outro pecado precisarei de você". O capataz não compreendia. Mas estava lá para ajudá-la a fazer qualquer coisa contra aquele odioso patrão que possuía.
Sem nada dizer, beijou-o na frente de Virgílio, beijo que foi correspondido. Tonhão, que havia percebido a intenção de D. Emília, começou a agarrá-la, beijá-la com voracidade que faria inveja a seu marido, que preferia não enxergar o que estavam fazendo. Mas, apesar de fazer todo o esforço do mundo, não conseguiu ficar sem ver o capataz dormir com sua esposa.
- "Venha Tonhão... de agora em diante serás o meu homem... pois, quem me recusou não terá nada de mim... sentirá a mesma dor dos próprios pecados, traições... e a dor de saber que, mesmo me tirando a vaidade, existem pessoas que me desejam. Que o ciúme o liberte".
Após haverem consumado o fato, D. Emília começou a preparar uma trouxa com algumas roupas, enquanto pediu para que Tonhão o levasse para fora. Pouco tempo depois, na presença de todos, tirou toda a riqueza de Virgílio e mandou-o embora. Fato incomum para a época.
- "Nada mais possui aqui. Pegue suas roupas e siga o seu caminho". Estas foram suas últimas palavras.
Na verdade, Virgílio vivia da riqueza que restava a Emília e assim foi por muitos anos. Sempre que precisava de algo, acabava recorrendo a família dela para conseguir, com o pretexto de quebra de safra ou alguma outra epidemia a dizimar seus gados.
Viu seu marido sair pela estrada. Sem rumo, destino. Como não tiveram filhos, ela não tinha com que se preocupar. As pessoas, com velas acesas nas mãos, abriram caminho para que ele fosse. E seguiram sua imagem até desaparecer na escuridão, que o fim daquela tarde trouxe. Era a liberdade, mesmo sem nada nas mãos. Tinha um mundo para construir, sem a prisão do passado, dos erros, da tristeza que ocasionou a muitas pessoas. Foi embora, humilhado, mas com a chance do perdão que a mulher, na voz de Deus, permitirá a ele. Nunca mais souberam dele e, desde então, D. Emília pode viver a vida como sempre quis. Já Catharina, depois de um tempo, foi descoberta enquanto se envolvia com outro fazendeiro da região, mas seu final não foi infeliz: a última notícia que tive é que havia conseguido se casar com um empresário da capital. Cada qual tem o que faz por merecer.
Aprenda com o vento
Insignificante larva
Rastejo em solo inerte
Massacrado pelos deuses da Terra
Sucumbi aos destinos de Hera
Longe dos pedestais dos imberbes
Repugnantes aos antipodas
Enclausurado com Baco
Festivais no destino sombrio
Alegria em pleno desatino
Saciavam egos, trouxe-me a morte
Distante de Apolo
Tive em Gaia, a prece escolhida
Nova terra, floresce a vida
Com a deusa a me ajudar
Não rastejo mais entre iguais
Elevaram-me a condição
Pedras, humildade - vim de baixo
Onde correm as lágrimas, livraram-me as mãos
"Reduzido a pó em seu tormento
O homem cruel, que vitima com desprezo
Encontra lá seu retornar....
Humildade é o caminho, pôr-se aos pés e rastejar"
Rastejo em solo inerte
Massacrado pelos deuses da Terra
Sucumbi aos destinos de Hera
Longe dos pedestais dos imberbes
Repugnantes aos antipodas
Enclausurado com Baco
Festivais no destino sombrio
Alegria em pleno desatino
Saciavam egos, trouxe-me a morte
Distante de Apolo
Tive em Gaia, a prece escolhida
Nova terra, floresce a vida
Com a deusa a me ajudar
Não rastejo mais entre iguais
Elevaram-me a condição
Pedras, humildade - vim de baixo
Onde correm as lágrimas, livraram-me as mãos
"Reduzido a pó em seu tormento
O homem cruel, que vitima com desprezo
Encontra lá seu retornar....
Humildade é o caminho, pôr-se aos pés e rastejar"
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Social
Sustentáculos
Madeira nobre ou concreto armado
Elevam-me sobre o chão
Escondem-me da natureza
O homem criou defesas, de onde
Não sabe sair
Armadinhas
A proteção que não conforta
Lápis em discussão, serei inútil
Aos avanços violentos da sociedade
A cama acaricia os sonhos
A casa guarda as almas
Mas, lá fora, nada é igual
Não há florestas, mas há selvagens
Não há venenos, mas há perigos
Não há proteção.... proteção
Dos que esqueceram a força da comunidade
E vivem o egoísmo:
"Eu tenho, eu sou, eu posso"
Com você, não me importo
Até que, um filho assassinado
Aumenta o remorso
Ahhh.... se tivesse sido mais humano
Para com o meu próximo
Madeira nobre ou concreto armado
Elevam-me sobre o chão
Escondem-me da natureza
O homem criou defesas, de onde
Não sabe sair
Armadinhas
A proteção que não conforta
Lápis em discussão, serei inútil
Aos avanços violentos da sociedade
A cama acaricia os sonhos
A casa guarda as almas
Mas, lá fora, nada é igual
Não há florestas, mas há selvagens
Não há venenos, mas há perigos
Não há proteção.... proteção
Dos que esqueceram a força da comunidade
E vivem o egoísmo:
"Eu tenho, eu sou, eu posso"
Com você, não me importo
Até que, um filho assassinado
Aumenta o remorso
Ahhh.... se tivesse sido mais humano
Para com o meu próximo
Tempos modernos, meu inferno
Silêncio!!!
Grande cidade
Sirenes, pessoas
Tortura sem masmorra
E meu pé grita outro pisão:
"Ei, cuidado aí em cima"
Pouco espaço, muito conflito
Ambição pelo pedaço
Dono do mundo passo
Sem olhar pra baixo
Milhões por metro quadrado
Falta água, luz, amor - não disfarço
E com o egoísmo do individualismo
Cada qual com seu lugar diz:
"Não meta o seu nariz", mesmo
Estando apertado.
Afinal, como posso respirar
Muita gente, pouco emprego
Perspectiva, meu tormento
Jogado a incompetência
Sem a chance de mostrar.
Silêncio, grande cidade!!!
Quero descansar.
Grande cidade
Sirenes, pessoas
Tortura sem masmorra
E meu pé grita outro pisão:
"Ei, cuidado aí em cima"
Pouco espaço, muito conflito
Ambição pelo pedaço
Dono do mundo passo
Sem olhar pra baixo
Milhões por metro quadrado
Falta água, luz, amor - não disfarço
E com o egoísmo do individualismo
Cada qual com seu lugar diz:
"Não meta o seu nariz", mesmo
Estando apertado.
Afinal, como posso respirar
Muita gente, pouco emprego
Perspectiva, meu tormento
Jogado a incompetência
Sem a chance de mostrar.
Silêncio, grande cidade!!!
Quero descansar.
Tristeza incompleta
Na vida errante
o destino quis assim
fui pétala despedaçada, flor marginal
largada num fundo de quintal
somente com a tristeza incompleta
de não ser compreendida
Na tristeza incompleta
os passos não seduzem os imbecis mortais
a ilusão do tempo nunca é passageira
a luz do vento nunca é viagem
o pó do homem nunca gerará vida
A metade de nada nunca será coisa inteira
Julgarão na tua face as derrotas
Apontarão as suas incompetências
Abordarão os seus medos
Destruirão a sua fé
E como todos os outros infelizes, será:
"Mais uma pobre face sob a terra".
o destino quis assim
fui pétala despedaçada, flor marginal
largada num fundo de quintal
somente com a tristeza incompleta
de não ser compreendida
Na tristeza incompleta
os passos não seduzem os imbecis mortais
a ilusão do tempo nunca é passageira
a luz do vento nunca é viagem
o pó do homem nunca gerará vida
A metade de nada nunca será coisa inteira
Julgarão na tua face as derrotas
Apontarão as suas incompetências
Abordarão os seus medos
Destruirão a sua fé
E como todos os outros infelizes, será:
"Mais uma pobre face sob a terra".
Angelus nobilis
Cupido
Busco suas flechas como um último suspiro
Da vida sem sentimento
Do dia sem brilho
Da noite de lamento
Busco, cupido, a outra asa
Voar, alçar o céu...o patamar onde ela está
Tens flechas velozes, mas será que podes fazer meu coração cativar?
Será??
Busco suas flechas como um último suspiro
Da vida sem sentimento
Do dia sem brilho
Da noite de lamento
Busco, cupido, a outra asa
Voar, alçar o céu...o patamar onde ela está
Tens flechas velozes, mas será que podes fazer meu coração cativar?
Será??
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
O amor perdido
Pudera falar de amor se a coragem não tivesse me faltado. Longe, contemplo olhos impossíveis - lembro-me dos traços que permaneciam - luz de uma juventude perdida. Envelhecemos na distância incerta do coração: "Não seria melhor a negativa definitiva à esperança eterna?" - perguntava-me sem piedade da minha dor.
As faces, corroídas pelo tempo, são trapos. Os olhos vivazes dão visão a um mundo embaçado - não tive a gloria da coragem - dos que enxergavam o amor no reflexo alheio, e não eram egoístas, tão menos, covardes. Nunca perdoarei a minha ausência. O pó da terra sem ser barro. A paródia morta em risadas solitárias - como não se divertir com a própria desgraça, e com os defeitos que nos impossibilitam viver.
A única verdade é que.... que.... te amei mais do que a mim. Te criei no coração inerte pela incapacidade de me declarar - morri em cada uma das tentativas frustradas. Fui pobre mendigo que recusa solidariedade - um pobre mortal que não aceita a benção de Deus. Um ateu irrecuperável na convicção das fraquezas, um infeliz incapaz de declarar as verdades.
Choro. Hoje a coragem subitamente surgiu. As minhas mãos declaram o amor que, de todo o sempre, foi a caravela em infindável oceano. Tarde demais. Sua face repousa na eternidade conferida aos anjos - tão bela como na primeira vez que a vi, há mais de 70 anos. Crianças que se permitiam a sonhos, que nunca vieram e nem virão. Não gostaria de me permitir vivo, vendo-a fria. Nunca desejei sentir dor maior do que a sua morte, e de me declarar, hoje, em seu epitáfio.
Não existe glória pois não existiu coragem. E sei que, perdoados sejamos nós, pobres de espírito, por não conseguirmos o principal bem que a vida pode proporcionar - saber amar e ser amado.
As faces, corroídas pelo tempo, são trapos. Os olhos vivazes dão visão a um mundo embaçado - não tive a gloria da coragem - dos que enxergavam o amor no reflexo alheio, e não eram egoístas, tão menos, covardes. Nunca perdoarei a minha ausência. O pó da terra sem ser barro. A paródia morta em risadas solitárias - como não se divertir com a própria desgraça, e com os defeitos que nos impossibilitam viver.
A única verdade é que.... que.... te amei mais do que a mim. Te criei no coração inerte pela incapacidade de me declarar - morri em cada uma das tentativas frustradas. Fui pobre mendigo que recusa solidariedade - um pobre mortal que não aceita a benção de Deus. Um ateu irrecuperável na convicção das fraquezas, um infeliz incapaz de declarar as verdades.
Choro. Hoje a coragem subitamente surgiu. As minhas mãos declaram o amor que, de todo o sempre, foi a caravela em infindável oceano. Tarde demais. Sua face repousa na eternidade conferida aos anjos - tão bela como na primeira vez que a vi, há mais de 70 anos. Crianças que se permitiam a sonhos, que nunca vieram e nem virão. Não gostaria de me permitir vivo, vendo-a fria. Nunca desejei sentir dor maior do que a sua morte, e de me declarar, hoje, em seu epitáfio.
Não existe glória pois não existiu coragem. E sei que, perdoados sejamos nós, pobres de espírito, por não conseguirmos o principal bem que a vida pode proporcionar - saber amar e ser amado.
Origens
Pássaro debandado
Céu úmido e sombrio
Pobre pulmão amargurado
Tuberculose, sintoma acumulado
Pela rota
Livre arbítrio
Que a embriaguez
Inoculada pelos seus cantos
Reluziu encantos, propagou a loucura
Desviando o caminho
Para onde migrava o mundo
E a humanidade adormecia
De volta a sanidade
Questões a incoerência
Sorria na latência acometida
E com o sentido que a luz trazia
Sofria, sofria, sofria....
Céu úmido e sombrio
Pobre pulmão amargurado
Tuberculose, sintoma acumulado
Pela rota
Livre arbítrio
Que a embriaguez
Inoculada pelos seus cantos
Reluziu encantos, propagou a loucura
Desviando o caminho
Para onde migrava o mundo
E a humanidade adormecia
De volta a sanidade
Questões a incoerência
Sorria na latência acometida
E com o sentido que a luz trazia
Sofria, sofria, sofria....
Interna
Doces pétalas rosáceas
e o cheiro do passamento inerente
Escapam as lágrimas da tortura, prisão incompetente
Prende abrindo todas as frestas,
Fecha prendendo o que resta - ilusão libertária
Impotente morte vida dividida
Nem ao céu, sinto o inferno
E estando aqui, não nego, meu corpo entrego
Mas ao Deus-dará, nada receberá - imposição divina
"Sofra, sentindo a luz do dia" na liberdade intangível
Falta perspectiva, o próprio ou de fora
No outro lado já passou o passado
A dor é apenas alívio cítrico das incompreensões
Se alguém criou o tudo, quem destruiu o nada?
E me deixou assim - tendo que ser dual
Dor e vida, serão o mesmo complemento
Não tolero o mesmo lamento, muito menos
As rimas idiotas, formadas no desespero
Do que é vivido morto - mundo insano
Que me interna na solidão
e o cheiro do passamento inerente
Escapam as lágrimas da tortura, prisão incompetente
Prende abrindo todas as frestas,
Fecha prendendo o que resta - ilusão libertária
Impotente morte vida dividida
Nem ao céu, sinto o inferno
E estando aqui, não nego, meu corpo entrego
Mas ao Deus-dará, nada receberá - imposição divina
"Sofra, sentindo a luz do dia" na liberdade intangível
Falta perspectiva, o próprio ou de fora
No outro lado já passou o passado
A dor é apenas alívio cítrico das incompreensões
Se alguém criou o tudo, quem destruiu o nada?
E me deixou assim - tendo que ser dual
Dor e vida, serão o mesmo complemento
Não tolero o mesmo lamento, muito menos
As rimas idiotas, formadas no desespero
Do que é vivido morto - mundo insano
Que me interna na solidão
Esse umbigo é seu, e este meu
(Homenagem a todos os "idiotas" que teimam em "dar pitaco" em nossas vidas)
Quais são as "palavras" que sufocam a minha alma!?! Estou acorrentado. Na liberdade latente que teima em infringir as dores da ambição, sou pequeno rato, entocado, a espreita do mundo para me fazer "gente". Ter direitos, ter deveres... partilhar o queijo. Queijo - delícias - quantas imagens fiz para ti em meu destino. Idealizadas, e não concretizadas. Nunca pude degustar o seu sabor, a pressa e o medo me deram a oportunidade de estar vivo, e não degluti-lo nas intempéries... sempre foi assim.
Maldito gato, humanos, venenos. Cerceiam-me do que deveria ser e não é. Mas, a quem reclamar!?! O Todo-Poderoso está ocupado e diz que é "Karma", santa calma necessária. Já os ouvidos cotidianos não alcançam a minha compreensão; santa inveja, que nos isola e nos rebaixa às frustrações dos que não se suportam. Pensei em reclamar com alguém mais poderoso - fui ao espelho e, não tendo a reflexão do reflexo, vi a imagem do ser em mim e disse: "Não seja mais um rato. Se é para ser, lute pelo interno ou pelo inferno. Desejos e desejos povoaram as almas dos fantasmas, zumbis, dos mortos ainda vivos, que não souberam se libertar de si".
Olhei para o céu, senti o infinito. E dos relatos sempre descritos que dizem: "Se pudesse voltar a viver...." ou "viverei a vida como se este fosse o último segundo". Cheguei a importante decisão, sou a pessoa mais importante do mundo e posso ser dono das minhas próprias regras - respiro, rapidamente e com a voracidade da inconstância - posso mudar isso e ser sereno (é o que desejo). Posso traçar minha reta e seguir em curvas (sou livre para sair pela tangente, e assumir a minha imperfeição). Posso viver alegre e me sentir livre no mundo que tende a me prender.... famílias e pessoas que adoram nos controlar - dirigir o nosso mundo, para se esquecer do próprio. Pobres mortais, que vivem na mesquinhez da fofoca, e não vivem os "seus" segundos.
Descobri, olhando para o mundo, que este ora é claro e sempre se torna escuro. Estou lúcido. Não serei por muito. E nesse momento sou frágil as lanças armadas, preparadas na intervenção. O cérebro inconsciente guardou os medos, o respeito... e hoje pede liberdade. Agredi o mundo, não foi a melhor forma. Chorei e deixei-me a morte, que não me quis levar. Encontrei a coerência, diferente do que achava ser - antes nazista, coercitiva - hoje aberta e amiga. Na liberdade de errar, sem culpa, sem pecado. Pecado, cujo temor nos paralisa as ações, nos leva ao conformismo e nos deixa frágeis para a vida que exige a luta, a guerra.
Escolhi o caminho da paz. O que se enxerga na consistência da vida. Se viver mais, fizer mais, também errarei mais e arcarei com mais conseqüências. Mas, serei capaz de viver se não tentar!?! Fazer menos, me deixar largado na impressão da perfeição, afinal, errei menos. Mas na forma que traz a prepotência e o orgulho que segregam as pessoas.
Escolhi viver na paz do erro. A que conforta pela dor do tentar e exige a ação calada, não o marasmo ativo do "apenas" falar. Deixem as pessoas julgarem a "propaganda" dos outros, prefiro, a minha verdade. Só essa me liberta.
Quais são as "palavras" que sufocam a minha alma!?! Estou acorrentado. Na liberdade latente que teima em infringir as dores da ambição, sou pequeno rato, entocado, a espreita do mundo para me fazer "gente". Ter direitos, ter deveres... partilhar o queijo. Queijo - delícias - quantas imagens fiz para ti em meu destino. Idealizadas, e não concretizadas. Nunca pude degustar o seu sabor, a pressa e o medo me deram a oportunidade de estar vivo, e não degluti-lo nas intempéries... sempre foi assim.
Maldito gato, humanos, venenos. Cerceiam-me do que deveria ser e não é. Mas, a quem reclamar!?! O Todo-Poderoso está ocupado e diz que é "Karma", santa calma necessária. Já os ouvidos cotidianos não alcançam a minha compreensão; santa inveja, que nos isola e nos rebaixa às frustrações dos que não se suportam. Pensei em reclamar com alguém mais poderoso - fui ao espelho e, não tendo a reflexão do reflexo, vi a imagem do ser em mim e disse: "Não seja mais um rato. Se é para ser, lute pelo interno ou pelo inferno. Desejos e desejos povoaram as almas dos fantasmas, zumbis, dos mortos ainda vivos, que não souberam se libertar de si".
Olhei para o céu, senti o infinito. E dos relatos sempre descritos que dizem: "Se pudesse voltar a viver...." ou "viverei a vida como se este fosse o último segundo". Cheguei a importante decisão, sou a pessoa mais importante do mundo e posso ser dono das minhas próprias regras - respiro, rapidamente e com a voracidade da inconstância - posso mudar isso e ser sereno (é o que desejo). Posso traçar minha reta e seguir em curvas (sou livre para sair pela tangente, e assumir a minha imperfeição). Posso viver alegre e me sentir livre no mundo que tende a me prender.... famílias e pessoas que adoram nos controlar - dirigir o nosso mundo, para se esquecer do próprio. Pobres mortais, que vivem na mesquinhez da fofoca, e não vivem os "seus" segundos.
Descobri, olhando para o mundo, que este ora é claro e sempre se torna escuro. Estou lúcido. Não serei por muito. E nesse momento sou frágil as lanças armadas, preparadas na intervenção. O cérebro inconsciente guardou os medos, o respeito... e hoje pede liberdade. Agredi o mundo, não foi a melhor forma. Chorei e deixei-me a morte, que não me quis levar. Encontrei a coerência, diferente do que achava ser - antes nazista, coercitiva - hoje aberta e amiga. Na liberdade de errar, sem culpa, sem pecado. Pecado, cujo temor nos paralisa as ações, nos leva ao conformismo e nos deixa frágeis para a vida que exige a luta, a guerra.
Escolhi o caminho da paz. O que se enxerga na consistência da vida. Se viver mais, fizer mais, também errarei mais e arcarei com mais conseqüências. Mas, serei capaz de viver se não tentar!?! Fazer menos, me deixar largado na impressão da perfeição, afinal, errei menos. Mas na forma que traz a prepotência e o orgulho que segregam as pessoas.
Escolhi viver na paz do erro. A que conforta pela dor do tentar e exige a ação calada, não o marasmo ativo do "apenas" falar. Deixem as pessoas julgarem a "propaganda" dos outros, prefiro, a minha verdade. Só essa me liberta.
Manifesto da insanidade - Apresentação
Todos carregamos dores. Sofrer, viver, respirar, amar... tudo pode ser motivo para se refletir. Infelizmente, a nossa literatura só costuma a ver com bons olhos poemas de fundo romântico, deixando de lado aqueles que abordam outros sentimentos ou razões (mesmo que "explosões" de insanidade) para surgir.
Sou mais um daqueles "loucos", com atestado de insanidade, que sempre refletiu pela dor. Desses intermináveis momentos, surgiram alguns textos, poesias, crônicas e contos que, felizmente, receberam alguns prêmios literários - a minha insanidade recebeu atestado de "salubridade" - e gostaria de compartilhar com vocês, um pouco dessas experiências, e o resultado final.
Nunca fui um aluno nota 10 em português, por sinal, sempre odiei a matéria, mas no mundo das idéias, ainda mais quando estamos sujeitos à "agentes internos" que nos controlam violentamente, a "verdade" pessoal se manifesta, e produz algo que pode ser compartilhado (reproduzido aos olhos dos que sentem ou sentiram a mesma coisa).
Que nós, pessoas que temos "doenças mentais", não sejamos vistos como loucos ou gênios, mas sim, que sejamos aceitos com nossas limitações e dons. Das palavras, expressões, loucuras e insanidades, que surjam a reflexão, o entendimento e a compreensão. Não precisamos da sua piedade, mas sim, que todos nos aceitem indiscriminadamente. Esse é o meu desejo, essa é a minha luta.
Grande Abr,
FLusvarghi
Sou mais um daqueles "loucos", com atestado de insanidade, que sempre refletiu pela dor. Desses intermináveis momentos, surgiram alguns textos, poesias, crônicas e contos que, felizmente, receberam alguns prêmios literários - a minha insanidade recebeu atestado de "salubridade" - e gostaria de compartilhar com vocês, um pouco dessas experiências, e o resultado final.
Nunca fui um aluno nota 10 em português, por sinal, sempre odiei a matéria, mas no mundo das idéias, ainda mais quando estamos sujeitos à "agentes internos" que nos controlam violentamente, a "verdade" pessoal se manifesta, e produz algo que pode ser compartilhado (reproduzido aos olhos dos que sentem ou sentiram a mesma coisa).
Que nós, pessoas que temos "doenças mentais", não sejamos vistos como loucos ou gênios, mas sim, que sejamos aceitos com nossas limitações e dons. Das palavras, expressões, loucuras e insanidades, que surjam a reflexão, o entendimento e a compreensão. Não precisamos da sua piedade, mas sim, que todos nos aceitem indiscriminadamente. Esse é o meu desejo, essa é a minha luta.
Grande Abr,
FLusvarghi
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