sábado, 23 de fevereiro de 2008

Jogo dos egos

Na espreita desejas faces
ocultas vontades destróem
muros de lamentos, obtusos detritos
na ironia de quem vê confuso

E loucura corrói a mente
em ceticismos não obstante discretos
atiradas pedras, verdades inertes
criança feita em liso concreto

E ainda procura outras faces
brinquedo igual em cada lamento
fora aurélio, insano descrente
da conversão demente de gente temente

Agora, desejas calado no olfato
a distância permitida aos cegos
novos sensores substituem a carne largada
decompondo o ser no jogo dos egos

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Amanhã....

Em névoas brancas irrompe o fulgor do sol. As gélidas faces soturnas se esvanecem na obscuridão - tornam da boêmia, retornam para a cama - e sem o calor alcoólico se refugiam nos tecidos isolantes, retendo-se no próprio calor.

Outros, dormiam, e vem para a lida. O corpo esquenta no trabalho, se mantém acesso na labuta matutina e se torna diária, infinita - a produzir o pão, plantar a roça, fazer palhoça e viver nos filhos brotando. A água deita sob o verde, orvalho diamante, riqueza à vida orgânica - energia ao sedento homem, pobre em metais, rico em esperança.... no olhar de uma criança com a capacidade de sonhar.

As lágrimas marcam o mesmo destino. Sólido que ao líquido torna. Fora hora de dores discretas, fogem ininterruptas no desabafo ocasional. O corpo cansa, a alma descansa - enquanto o ébrio volta ao milésimo sono. As mãos do homem do campo produzem, e o outro vive em sonhos - da vida fácil e fútil, de gotas quentes e desabafos. Mesmo o vagabundo sofre, troca a vida do dia, ao luar da morte, destinado aos que amam sob a lua... e desaparecem nesse amor.

O dia chega ao término. Os ponteiros mantêm-se em movimento. O calor foge e uma súbita escuridão vem trazer a noção. Tanto ao sol ou a lua, chuvas e fulguras, a humanidade se encerra nos sentidos, é a dor e o amor, finge que diz não sentir - resiste sem mais insistir, e se deixa levar.... no direito das conseqüências dos sentimentos que confundem a alma, turvas no dual amor.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Imposição ao homem-morto

Obrigação. O bem-estar verso os deveres impostos. A cada dia, uma tortura é praticada - atos contrários às nossas vontades. Sinto uma dor enorme antes de começar toda e qualquer coisa, e depois a êxtase de ter começado. Outras vezes começo com pressa e mal vejo a hora de terminar, e depois que termino, volto ao amplo templo de ócio - a ficar olhando, esperando ansioso, o que nunca chegará.

Não existe inspiração ou fortuna. Existe sim uma dor profunda, explode a mente, devasta as esperanças, e não é mas do que uma lembrança que me faz chorar. Nesta imaginação me criei, e não sou ilusão nesta dor... real, fisica, visível e nunca compartilhavel que habita os meus neurônios e maltrata somente este corpo. E como um pesadelo acordado, sem sombras ao lado, libertando-me de ser escravo: onde somente a minha mão tem poder, mas me impede.

Serei sempre uma alma torturada ou terei cura. Às vezes me sinto feliz e parece pecado, busco as coisas e torno ao marasmo, procuro pessoas e me encontro solitário - e como todos os esquecidos, me deixo envolver pelas palavras para sanar a amargura, talvez seja esta a partida para a cura - se possível for. Achar nos outros atos, os pecados que sou. Os grilhões de dor paralisante com a oportunidade do mundo.

Ser quem não sou, mas quem sou!!!. Duvido que saiba quem és. Já que vivemos do que não acreditamos, sem esperança de paraíso. Prefiro ser o louco que carrega a paz à ser o lider que carrega as algemas. Escravo perdido se desviando das chibatadas.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O espírito do Carnaval

Maldita solidão. Mais uma noite de Carnaval. Observo ao meu redor o despertar dos mais diferentes sentimentos - uns, se perdem na esbórnia sazonal, outros, antigos pecadores, se isolam em retiros espirituais tentando fugir das tentações do mundo.

Sou invisível. Seria diferente se não fosse assim. Um anjo não se pode apresentar ao mundo, deve permanecer recluso e atento às necessidades das pessoas. Estou sempre em alerta. No Carnaval existe o risco das pessoas se transformarem mais do que seria permitido. Não há nada de mal em deixar a liberdade trazer a alegria... nessa época, executivos, juízes, professores, se transformam em seres que a liberdade constrói. Se divertir não é pecado, pecado é deixar de viver.

O juiz "marajá" é o diabo condenatório cuja sentença pode martirizar o mundo, e o tridente espeta a bunda dos foliões. Os pobres costumam ser as vítimas nos outros dias. Porém, sorri com o bolso gordo pelas suas conquistas. A desigualdade que nos faz brasileiros.

Os pobres também tem a sua chance. A riqueza, o deslumbre das fantasias tornam-no especial, mesmo que seja apenas por um dia. No sambódromo, o mundo pode vê-lo. E após o desfile volta ao anonimato de sempre, esperando o outro Carnaval para poder ser "rei".

Distante da sensação de me julgar uma divindade benigna ou maligna - não sou superior a ninguém. Que me perdoem os céus. Sinto a solidão das pessoas, mesmo num grande salão de festa... numa grande cidade... rodeado de pessoas. Um vazio me completa. Algo tão efêmero não pode perdurar mais de alguns segundos, e isso é triste. O significado se perde, os instintos aparecem.

Ao redor, mulheres nuas sendo assediadas pelos tarados de ocasião. O meu olho observava cada detalhe. Uma lágrima misturada com suor escorria a face da namorada de um briguento. Ela carregava decepção e vergonha. O Carnaval estava morto. Muito diferente da alegria que sentira no ano anterior, na Bahia, seguindo o trio-elétrico com as amigas. Onde os beijos rolavam soltos. E eram outros os sentimentos desses mesmos olhos; a sensação imortalizava o amor pelo Carnaval, nossa festa popular, mais popular do que todas as outras. Onde todos, irrestritamente se envolvem... pelo menos uma vez na vida.

No camarote dessa mesma casa noturna, prostitutas de ocasião. Umas contratadas para exibir os corpos e atrair os homens. Isso justificava o alto preço da entrada, e a quantidade excessiva de homens. Algumas mulheres eram assediadas como se fossem uma "dessas" mulheres. E as cameras de televisão passavam pelas suas faces, envergonhadas, exibindo outra das falsidades ideológicas que podem existir no Carnaval.

Uma dessas prostitutas, podia ler em seus olhos, dançava sensualmente mas estava extremamente triste. Apesar de ninguém saber, era a primeira vez que fazia aquilo. Em casa, o pai doente era a sua única preocupação. No camarote fingia ser uma das iguais - com o mesmo despudor - porém, sua alma dizia a quem podia enxergar. Essa era a única alternativa.

Em cada um dos lugares que viajei, sendo o anjo que acompanha as pessoas, tentei ajudá-las a se descobrirem. Presenciei os vôos aos sentimentos de atração, carinho e amor. Também senti suas tristezas e decepções. Todos esses sentimentos existem nos céus e infernos que se criam nos carnavais. Seja nos tempos passados ou futuros, eles foram e se repetirão. E eu, na solidão invisível de ser um anjo, estou presente nas festas profanas, pois na reunião de duas ou mais almas, sempre lá devemos estar.

Quarta-feira de cinzas. Nas suas diferenças semelhantes, se alternam os personagens e histórias, e o Carnaval se despede. No próximo ano tem mais. Sempre haverá. Nos encontramos no próximo, até mais.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Últimas luas

O grisalho senil
na morada "via feliz" do triste fim
filósofo do passado presente
reminiscências do ser nunca ausente
o passado é a única vida que resta
e o resto, é solidão

O homem, rascunho de seus momentos vigorosos
é apenas uma das fotos que carrega nos braços
uma luz, uma imagem - mudanças em sua "paisagem"
Levando-o da mesma vida para outra realidade

Senil na soma das idades
deixa na fila de espera, os que ainda estão nessa terra
heróis da resistência ante a força da demência