sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A mulher que pensava ser Deus

Diversos pecados foram prometidos a um homem - pedras atiradas a cruz por mãos femininas, delicadas, sinceras, macias e vingativas. Em seu leito, D. Emília provou os licores de Lucifer nas sensações que a traição lhe cobriu. Uma mulher muito mais jovem. Inveja. Bela e Esbelta. Ira. Coberta em suas vaidades, jóias e sedas presenteadas pelo poder do dinheiro para sentir-se superior.

Os dois, na cama, observavam surpresos o flagra dado por D. Emília, que havia acabado de retornar inesperadamente da viagem à fazenda de seu irmão, na cidade de Andradas. A menina Catharina, envergonhada com a situação, fazia o possível para se esconder sob os lençóis. Constrangia-se com os possíveis pensamentos daquela que sempre havia lhe tratado muito bem. "Estou perdida... o que o meu pai irá fazer quando ficar sabendo?" pensava intimamente, enquanto Virgílio fitava agressivamente a esposa.

- "Meu Deus, o que é isso?!" - disse inconformada com a situação, tentando segurar as lágrimas que lhe vinham aos olhos.

Havia duas alternativas para ele. Pedir desculpas ou, a mais preferida, humilhá-la. E percebendo a fúria que brotava nos olhos de Emília, sem piedade, escolheu pela segunda:

- "Emília, não vou me justificar... não tenho do que me justificar... é isso que você está vendo e ponto". Antes tivesse encerrado por aí.

- "Se você fosse bela, jovem, magrinha e sedutora como Catharina, nada disso teria acontecido. Precisaria de milhões de jóias para ficar mais atraente, além de implorar um milagre a Deus" - sarcástico, como o espelho que refletia essa verdade.

Sentiu a ironia de seu marido na verdade crua, com a menina nua. Não era mais bela ou jovem. Nem seus traços eram mais os mesmos - uma vaga lembrança pela metamorfose sofrida. Uma pintura borrada, uma cópia malfeita. O tempo lhe fora muito cruel. Vieram-lhe rugas e gorduras. Sobraram-lhe pintas, manchas, peles, cabelos brancos que, em conjunto, marcavam-lhe a velhice.

Catharina era uma menina linda, não devia ter mais do que dezessete anos. Era bela. Uma jovem tentadoramente atraente que escondia ingenuidade e malícia num mesmo olhar. D. Emília não conseguia deixar de reparar como o corpo daquela menina brilhava mesmo na escuridão daquele quarto; sua pele alva, nêspera, criava contraste com seus olhos e cabelos negros, que eram lisos, compridos. A menina era a cicuta que inebriava a alma dos homens a cometerem pecados; perfeita como um quadro de Rembrandt, ocasionava inveja oculta nas mulheres que, confrontando-se com a realidade, enxergavam as diferenças inferiorizantes.

Flagrar Virgílio com a menina Catharina foi o maior golpe que recebeu em sua vida, maior do que ter sido obrigada a se casar com ele, mesmo interessada num outro rapaz. Naquela época, sem a possibilidade de escolha, teve que se sujeitar ao pacto familiar que uniu as mais poderosas e influentes familias da região. Afastada das decisões dos "coronéis", nunca pudera falar - somente aceitar. Tão menos gritar ou questionar, e sim, respeitar e acatar.

Esse golpe atingia-lhe na única coisa que ainda possuía: sua vaidade. Quando jovem, D. Emília foi uma bela mulher - tão bela quanto Catharina - e não se conseguia se conformar com as tristes transformações que se davam em seu corpo, que deixavam-na sem a mesma disposição, beleza ou motivação para se manter vivendo. Porém, sendo católica fervorosa, preferia as rezas ao mesquinho sentimento, ou assim buscava parecer.

A raiva que sentia naquele momento era maior do que qualquer uma das humilhações a que era submetida diariamente. Doía profundamente ser atingida em seu ponto fraco, que Virgílio bem conhecia. Antes essa dor fosse apenas resultado do ciúme que, infelizmente, não mais sentia. Intimamente, desejava que ele morresse, apesar de não assumir nem em pensamento. A repressão era uma constante, e os santos estavam a protegê-la das mais difíceis situações. Eram a muleta para quem nada possuía - nem filhos, nem amigas, ninguém. Escapara da insanidade pelas preces prometidas, mas a cena com a menina Catharina foi maior do que qualquer uma das farras de Virgílio.

O tempo tornou-a escrava de suas inquietações. No início, as coisas foram diferentes, julgou-se apaixonada por ele, ou pensou que sim, afinal não tinha como se questionar sem conhecer minimamente tal possibilidade em outro homem. Porém, esse mesmo tempo demonstrou que o seu sonho de felicidade não poderia existir. Nessa história não havia espaço para fantasia. A realidade é que vivia com um homem feio e medíocre que, sendo bêbado e jogador, gastava o pouco que ainda possuíam em suas farras. Todos os dias, alcoolizado, chegava em sua casa altas horas da noite e, muitas vezes, obrigava-a a se deitar com ele mesmo nessas condições.

Na fúria dos apressados segundos, tais palavras e a visões lhe tiraram a sanidade. A compostura repressiva deu espaço à liberdade da loucura - onde muitas promessas surgiram na onipotência criada por estas situações. E foi quando tudo começou a acontecer.

- "Sentirá a ferro e fogo a dor e a ira dos deuses. Pois quem crê em mim nada sentirá se pureza encontrar" - gritava, enquanto chamava dois funcionários de sua fazenda.

- "Emília. Está louca, mulher?" - surpreendia-se Virgílio com a atitude da, até então, submissa esposa.

- "Parem...." - ordenou aos funcionários. Em vão. Não gostavam dele, e tinham motivos de sobra para acatar a ordem de D. Emília. Humilhações, autoritarismo, semi-escravidão, sensações presentes e plenas de raiva.

- "Levem-no ao tronco" - ordenou D. Emília, que foi imediatamente atendida. O antigo tronco, onde muitos escravos foram açoitados até a morte, iria presenciar algo inédito.

- "Pelo amor de Deus, Emília... o que pretende fazer?" - perguntava com preocupação latente, crescendo à medida que os grilhões lhe foram colocados. Estava nu, e as vergonhas do sem-vergonha eram motivo de risos entre as empregadas - ex-escravas, muitas vezes molestadas, bolinadas, pelo patrão.

- "Sentirá de minhas mãos o perdão, e das mãos daqueles que maltrataste, o remédio que o libertará de seus pecados, suas impurezas, de tudo o que fez brotar em sofrimento".

Tal frase era uma incógnita. Intimamente não sentia ter feito nada de mal para os outros - tinha ciência de que bebia em excesso, que jogava, e que havia caído em tentação diante daquela obra detestavelmente tentadora. O que mais? Não tinha resposta. Suas imperfeições não lhe eram tão visíveis como a perfeição de Catharina.
Pensava que tal remédio para as impurezas não deveria ser nada. Porém, o medo crescia a cada segundo que se percebia no tronco.

- "Pelo amor de Deus...." - desesperava-se o traidor.

A jovem Catharina era filha de um pobre sitiante que lhes fornecia legumes. Porém, muitas vezes, devido ao excesso de encomendas, ela se encarregava de ir entregá-las sozinha para ajudar ao seu pai. Todos na região a conheciam. Viram-na crescer e embelezar.

Virgílio já havia reparado muito bem na menina, nas suas curvas, beleza e, principalmente, nos olhos que brilhavam intensamente ao se depararem com tanta riqueza. Desejava uma vida melhor, todo aquele luxo e conforto. Sonhava com as maquilagens da "patroa", e a percepção de Virgílio diante daqueles desejos ocultos abriram a brecha que queria. Sempre que Catharina aparecia, presenteava-a com um agrado - longe dos olhos de seu pai, para que não viesse com suposições que a menina parecia não imaginar, mas que povoavam suas intenções: obter aquele maravilhoso corpo que, mesmo portanto roupas simplórias, ressaltavam sua forma, delicada como a de uma escultura grega.

Ao redor, a menina observava a cena. D. Emília havia deixado-a ir, estava livre, porém preferiu presenciar tudo - parecia esperar algo. Sabia que a menina não tinha culpa, ou assim acreditava. Intimamente pensava que era apenas uma criança corrompida pelas intenções de "alguém" muito mais vivido e esperto do que ela. Além disso, provavelmente ela mesma desejaria aquela mulher se fosse um homem. Mas não era. E para a traição do marido, algo muito especial estava reservado.

- "D. Emília, o que gostaria que fizéssemos?" - perguntou o capataz, ansioso por alguma penalidade.

- "Deixem-no assim por enquanto".

- "Sentirá a humilhação de estar nu e sem defesas. Logo todos na cidade saberão o que aqui está acontecendo - sem sofrimento não há salvação - e virão ajudar a salvá-lo" - deixando no ar qualquer possibilidade, todas ou nenhuma, o que aumentava o desespero de seu marido. Este, chorava copiosamente, sentindo uma dor maior do que qualquer açoite - e como doía ver o orgulho escorrer em cada lágrima e suor. A dignidade morria, a vergonha poluía, mas ainda não era possível sentir seu arrependimento.

No carvalho, o tempo parecia infinito. Não bastava a humilhação dos humildes, a dor da glória e redenção, suportar estaticamente como se a morte já houvesse afligido, era necessário mais.

- "Francisco... vá a cidade espalhar a história" - ordenou Tonhão, o capataz da fazenda. Ordem acatada como seu houvesse sido proferida por D. Emília. O velho Chico era amigo de longa data do pai de Catharina - a jovem formosa. Sabia que, por um lado, a filha do amigo ficaria exposta a comentários se nada fizesse, e, por outro lado, sendo o portador da notícia, poderia remediar o mal que a sociedade faria àquela menina. Mas, que história iria inventar?

Durante o caminho foi matutando com as pedras. Percorreu uma longa distância com seus pensamentos quando uma inspiração lhe surgiu: nunca havia presenciado D. Emília falar contra qualquer pessoa - a forma com a qual se expressava era singular, se não tivesse tomada por Deus, por quem seria?

Chegando na cidade, foi direto ao velho padeiro - ponto difusor das notícias na pequena Poços de Caldas. E, despretensiosamente...

- "Seu Canó, algo estranho anda rondando estas paragens.. e meus olhos puderam presenciar..." - refletindo bem as palavras que estava por falar.

- "Fale Fio, o que anda acontecendo?" - com indescritível ansiedade.

- "O sinhô já ouviu dizer das vozes de Deus contra o pecado?"

- "Como, meu filho".

- "Da presença do Espírito Santo na boca humana dada emergência exigida" - completou jogando a idéia para ser fisgada.

Seu Canó era homem beato. Deixava sua padaria, sua casa, sua família para ir a Igreja. Muito religioso, disse ter ouvido algo do gênero numa viagem pelos interiores de Minas.

- "Pois é... D. Emília veio em salvação de seu marido".

- "Não me diga... justamente a D. Emília" - remoendo-se por nunca ter sido capaz de receber tal "dadiva".

- "Sim, a D. Emília. O Espírito Santo veio em seus ouvidos, pequeno e puro, soprar os pecados que o marido cometera e as penitências a serem recebidas".

- "Mah... será que ela pode fazer isso... o que o padre achará disso?".

- "O Espírito Santo pode tudo..."

E continuou:
- "O Coroné Virgílio está no tronco... desnudo... recebendo o castigo para sua própria redenção. A sua pena... o julgamento".

- "Será que ela não enlouqueceu? Haveria algum motivo?". O padeiro Canó parecia desconfiado. Não poderia crer na hipótese do Espírito Santo, mais por inveja do que por qualquer fato palpável.

- "Essa mulher pensa que é Deus.... hummm....". E continuou:
- "Apesar do marido ser realmente merecedor de uma bela penitência, isto não dá direito a ela de agir desta forma" - desdenhou seu Canó, assumindo a idéia que melhor lhe convinha.

Em pouco tempo, uma pequena multidão já havia se formado e todos se dirigiam para a fazenda. Ninguém pensava em perder a cena. O que os aguardaria lá? Era a pergunta que todos se faziam, curiosos e entusiasmados por ver algo diferente naquela pacata cidade.

Sórdidos pensamentos misturados com a inocência da crença. Alguns se mostravam beatos, outros, o diabo, esperando presenciar sangue e violência - o que sempre atraiu as almas humanas. Um novo martírio, a repetição do coliseu em seus espetáculos dantescos e a morte, neste caso, de um ser nada cristão. Suposições, desejos e pensamentos, cada qual com o seu, durante a caminhada.

Na estrada de terra, uma imensa quantidade de pessoas continuava a se formar - o pó que repousava era acordado pelos pés apressados, de quem vive na monotonia que é quebrada por algo diferente.

- "Ouvi dizer que D.Emília pirou" - dizia um.

- "E que seu marido foi morto a pauladas" - complementou outro.

À medida que circulava a notícia, diferentes versões surgiam. Seria Deus ou o Diabo? Estaria possuída pelo Espírito Santo ou pela pomba gira? Ou teria se revoltado contra as intempestividades do marido? As suposições surgiam. Cada um daqueles buscava acreditar no que melhor lhe convinha. Seu Chico - funcionário da fazenda - conseguiu plantar uma semente. Ninguém comentava sobre um possível adultério, nem podiam imaginar que este era o real motivo - muito menos que a pequena Catharina era a protagonista deste evento. O velho Chico, voltando para a fazenda, refletia sobre todo o acontecimento, e intimamente pensava:

-"Deus queira que D. Emília nada cite perante todos". Havia este risco, o que seria uma tragédia para a vida da menina diante de uma cidade extremamente machista. Certamente se isso viesse a ocorrer precisaria se mudar ou, quem sabe, acabaria na vida fácil. Plantando a loucura de D. Emília pensar ser Deus, atraiu curiosos por fofoca e, principalmente, beatos que seguiam em oração esperando ouvir a voz presente do Espírito Santo - não deixariam a nova porta-voz ser crucificada pelas incompreensões humanas.

-"Glória, Glória.... aleluia" - cantavam cerca de trinta pessoas que, em frente ao pelotão, carregavam uma imagem de Nossa Senhora do Desterro.

Na fazenda, D. Emília tratava de cuidar da pequena Catharina. Não cria, moça bela, culpada pelo "incidente". Conhecia bem o marido e jogava neste toda a culpa. Ela vira Catharina crescer, mesmo na diferença de mundos - uma rica, outra paupérrima... uma patroa, outra, filha de um trabalhador valente, que viúvo, fazia de tudo para o melhor da pequena filha. Sua vida era toda dedicada a esta, e seria uma dor muito grande descobrir o que estava acontecendo ou uma tragédia pior.

- "Menina.... te conheço há anos... sempre com teu pai por todos os lados". Uma pausa.

- "Como pode cair na lábia daquele verme, que todos sabem, não prestar".

Catharina permanecia muda. Em seus pensamentos, milhões de coisas lhe passavam pela cabeça. Como sair daquela situação? Felizmente, para ela, ninguém conseguia imaginar a verdade que se escondia por detrás daqueles olhos ingênuos - sempre soube dissimular, construir uma imagem de boa moça. Alguns anos antes - então com doze anos - teve sua primeira experiência amorosa, com um primo afastado que veio visitar seu pai.
Este, sentindo o brilho da ambição, presenteou-a com um belo colar; e como tudo tem um preço, teve a sua pureza como moeda de troca. Gostou de ambas as coisas - naquela noite, no pequeno estábulo do sítio de seu pai, se encontrou com o primo, que foi lhe ensinando o caminho do amor. Tirando-lhe delicadamente cada peça, beijando-lhe o corpo e transformando aquela criança em mulher.

-"Dona Emília... nem entendo como tudo isso aconteceu... vim fazer uma entrega para o meu pai, que estava super atarefado, e quando percebi, o seu Virgílio já estava tentando me beijar a força". Com uma sinceridade comovente para quem mentia.

-"Maldito seja... como pode fazer isso com uma criança?".

-"Mas o castigo aos pecados não tardará... não tardará... e ele, finalmente, aprenderá que na vida todos os atos tem um preço". A menina sabia disso, conhecia, até então, o valor financeiro das suas ações, mas em pouco conheceria o valor moral que existem em todas as relações pessoais.

- "Não se precipite D. Emília, a senhora não me parece bem".

- "Nunca estive tão bem na minha vida. Menina, eu sei muito bem o que estou fazendo... tudo vai sair do jeito que estou pensando".

- "Por favor, D. Emília... se meu pai souber estarei perdida".

D. Emília parecia presa em seus pensamentos. Catharina não sabia se ela havia ou não ouvido ao seu pedido, mas era melhor não dar sopa para o azar ou para a imaginação dos verdadeiros fatos. A conversa foi breve e, novamente, D. Emília deixou-a livre para ir embora antes que o povo chegasse da cidade, porém esta novamente se recusou a ir. Queria presenciar o que iria acontecer. E complementou para a menina:

- "Já que desejas ficar, verás os pecados prometidos a um homem...". E saiu sem mais dizer.

O povo começava a chegar em frente a fazenda. Tonhão e seu Chico, assim como outros funcionários, indicavam o caminho para a sede. Precisavam manter a ordem, pois não poderiam conceber que algo sumisse da propriedade; que alguém, aproveitando-se da situação, viesse a roubar qualquer item da propriedade.
As funcionárias abandonaram seus trabalhos e se dirigiram para o tronco, ficando ao seu redor. Todas já haviam visto o patrão desnudo, mas não haviam abandonado o trabalho, até quando começou a chegar o povo da cidade. Os beatos continuavam com suas cantorias, e os demais, comentavam a cena mais engraçada presenciada: seu Virgílio, sem roupa, chorando, e preso ao tronco.

Durante cinco minutos, as pessoas ficaram esperando alguma coisa, até que D. Emília apareceu, passando por todos como se não houvesse ninguém ao redor. Em sua mão esquerda portava uma navalha, e na direita uma tulipa.

- "Virgílio, agora chegou a hora de receber o remédio para cada um dos seus pecados... o povo zomba de ti, da sua situação, lembre-se que, no tronco, não tens mais amigos, colegas e diversão... os próximos se tornam distantes e inatingíveis, assim como o foi para os outros sem sua piedade".

Aproximou-se dele, e, para espanto das pessoas, chamou o capataz para que segurasse sua cabeça. Arrancou uma pétala da tulipa e colocou-a em sua boca.

- "Espero que suas palavras se purifiquem... e que, de onde sinto o cheiro da bebida, todos possam sentir o perfume da vida".

Pediu a Tonhão que continuasse a segurar a cabeça de Virgílio. E num lance, perdido pelo olhar de muitos, abriu-lhe um talho na face. A navalha veloz cortou um pouco da estima. Tirando-lhe o pouco de beleza que alguém ali poderia encontrar.

- "Que sinta a ira e a inveja de seu passado... não queira nunca mais maltratar os que lhe são diferentes... pretos, amarelos, feios e velhos... agora sua face não será a mesma.. para sempre ficará marcada a dor que ocasionaste a todos o que feriste".

As pessoas ficaram chocadas. Os mais fervorosos católicos choravam copiosamente pela lição que conseguiam entender. Os pagãos se deliciavam com o cenário que, apesar de haverem imaginado, não acreditavam vir a realidade. D. Emília sempre fora uma pessoa bondosa e submissa, incapaz de machucar uma simples formiga, mas, naquele momento, viam outra pessoa, que certamente não era a mesma velha delicada de sempre.

Houve inquietação de muitas pessoas. Porém ninguém estava triste com o sofrimento que Virgílio passava. Sentia-se humilhado por estar nu, sem defesas, dignidade, com o rosto em chamas. Sem o orgulho e a soberba que fazia questão de carregar por todos os lados. Durante minutos, D. Emília deixou-o sofrer com a expectativa. Será que havia acabado? Não, era apenas o começo.

Retornou de sua casa com um pote de mel na mão esquerda e com um chicote na direita. Virgílio se aterrorizava com as perspectivas. E D. Emília, sem dar ouvido aos gritos que incitavam a agressão, manteve-se serena e continuou em seu papel de Deus.

- "Que este mel purifique sua alma de toda a maldade que fez passar. A lição que hoje aprende não é a da raiva, mas da capacidade de se enxergar em cada um dos pecados". Passou-lhe o mel na ferida que abrira e preparou o caminho para a libertação de muitos. E continuou:

- "Cada qual que se sente ofendido com as atitudes de Virgílio venha, pegue este chicote, e lhe castigue".

As pessoas olhavam incrédulas, parecendo não acreditar nas palavras de D. Emília. Até que a primeira pessoa se apresentou - uma ex-escrava que havia sofrido muito nas mãos destes. Dizem as más línguas que este seria o pai de seu temporão. Outras funcionárias se uniram a fila, assim como funcionários e parte daquelas pessoas que vieram da cidade. Os mais religiosos diziam já haver perdoado.

- "Não discutimos o perdão e sim a libertação dos pecados dele, coisa que só irá conseguir sofrendo e vendo quem ele fez sofrer".

Alguns foram convencidos com esse argumento e aumentaram a fila, para desespero de Virgílio. "Meu Deus, como posso ter feito tanta gente sofrer?", pensava intimamente. A fila tinha cerca de trinta pessoas que, em cada uma das chibatadas, forneciam-lhe uma resposta. D. Emília pediu a todos que falassem dos pecados que este havia cometido para com elas - alguns pecados visto que os funcionários tinham uma lista enorme de queixas.
Assim que o último golpe lhe foi desferido, assim como o motivo, pediu que o capataz o retirasse do tronco. Alguns esboçaram uma indignação, queriam ver mais. D. Emília pediu a todos que esperassem, ainda não tinha terminado com os pecados. E ordenou ao Tonhão que o levasse ao quarto do casal, enquanto os demais funcionários ficavam a controlar o povo.

Tonhão colocou-o na cama, amarrando-lhe as mãos e as pernas, conforme D. Emília havia lhe pedido. Porém, quando se preparava para retornar ao pátio externo, D. Emília o impediu.

- "Tonhão... para a libertação desse outro pecado precisarei de você". O capataz não compreendia. Mas estava lá para ajudá-la a fazer qualquer coisa contra aquele odioso patrão que possuía.

Sem nada dizer, beijou-o na frente de Virgílio, beijo que foi correspondido. Tonhão, que havia percebido a intenção de D. Emília, começou a agarrá-la, beijá-la com voracidade que faria inveja a seu marido, que preferia não enxergar o que estavam fazendo. Mas, apesar de fazer todo o esforço do mundo, não conseguiu ficar sem ver o capataz dormir com sua esposa.

- "Venha Tonhão... de agora em diante serás o meu homem... pois, quem me recusou não terá nada de mim... sentirá a mesma dor dos próprios pecados, traições... e a dor de saber que, mesmo me tirando a vaidade, existem pessoas que me desejam. Que o ciúme o liberte".

Após haverem consumado o fato, D. Emília começou a preparar uma trouxa com algumas roupas, enquanto pediu para que Tonhão o levasse para fora. Pouco tempo depois, na presença de todos, tirou toda a riqueza de Virgílio e mandou-o embora. Fato incomum para a época.

- "Nada mais possui aqui. Pegue suas roupas e siga o seu caminho". Estas foram suas últimas palavras.
Na verdade, Virgílio vivia da riqueza que restava a Emília e assim foi por muitos anos. Sempre que precisava de algo, acabava recorrendo a família dela para conseguir, com o pretexto de quebra de safra ou alguma outra epidemia a dizimar seus gados.

Viu seu marido sair pela estrada. Sem rumo, destino. Como não tiveram filhos, ela não tinha com que se preocupar. As pessoas, com velas acesas nas mãos, abriram caminho para que ele fosse. E seguiram sua imagem até desaparecer na escuridão, que o fim daquela tarde trouxe. Era a liberdade, mesmo sem nada nas mãos. Tinha um mundo para construir, sem a prisão do passado, dos erros, da tristeza que ocasionou a muitas pessoas. Foi embora, humilhado, mas com a chance do perdão que a mulher, na voz de Deus, permitirá a ele. Nunca mais souberam dele e, desde então, D. Emília pode viver a vida como sempre quis. Já Catharina, depois de um tempo, foi descoberta enquanto se envolvia com outro fazendeiro da região, mas seu final não foi infeliz: a última notícia que tive é que havia conseguido se casar com um empresário da capital. Cada qual tem o que faz por merecer.

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