Espírito revolucionário
Alma ativa
Deixaste de viver o ostracismo
Da vida
Envolto em idéias sãs
Transversal ao seu tempo
Caminhos diferentes, novas posições
Mostrando ao mundo o direito que herdou
Como todos inovadores, fora rejeitado
Perderá ao fogo, o brilho das mãos
Inativo e julgado, posto de lado
Distante de sua posição
Guilhotinado no caminho
Interrompido o exercício
E ficou a lição
"Povos do mundo, sois livres, por que na terra
vim e aqui morri para mostrar sua condição"
Mesmo longe da perfeição
Útil o execrado, lado a lado
Tornou-se certo
No errado do passado
domingo, 15 de junho de 2008
Liberdade
Não gosto de ficar presos as palavras
Não desejo a limitação do mundo
Não ensejo grandes sabedorias
Ao pequeno cérebro obtuso
Não choro na ideologia intangível
Não grito no desespero real
Não vivo as agonias da mente
Refratadas no mundo ideal
Não espero mais do que o amanhã
Nem reflito o que vi ontem
Dual em plena sinergia
Espero de toda idolatria
Liberdade encontrar
Não desejo a limitação do mundo
Não ensejo grandes sabedorias
Ao pequeno cérebro obtuso
Não choro na ideologia intangível
Não grito no desespero real
Não vivo as agonias da mente
Refratadas no mundo ideal
Não espero mais do que o amanhã
Nem reflito o que vi ontem
Dual em plena sinergia
Espero de toda idolatria
Liberdade encontrar
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Crônica dos temperamentos impossíveis
Outro dia presenciei uma violenta discussão entre um casal amigo. Recém-casados, vitimas de uma gravidez indesejada, mal tiveram a chance de se conhecerem... foi pá, pum.... e a notícia estranhamente recebida pelos amigos e familiares.
-"Quem diria que, justamente o Paulo, um moleque que ainda brinca de videogames e carrinhos de controle remoto, iria se casar por este motivo" - comentava uma das parentes mais próximas.
Todos sabíamos bem o amigo que tínhamos. Sim, tínhamos. Este mudou completamente após os últimos eventos. Hoje, vejo-o com terno e gravata, falando de fraldas e papinhas... quem diria. Como é interessante vê-lo mudar do vinho para a água.... opsss, da água para o vinho. Desculpem o ato falho de um amigo que ainda desejava muitas outras baladas. Após o casamento muita coisa mudou.
Confidencialmente, em nossa última conversa, a dificuldade da vida matrimonial. Casou e herdou uma sogra... e, principalmente, um passado. As pessoas "abobadamente" dizem sim perante o juiz, e logo após, estão reclamando das cuecas e calcinhas jogadas pela casa. A bendita tampa do vaso sanitário. A mania de tirar caquinha do nariz. Por quê, depois de casado, a vida parece perder tanto o glamour? Mistérios do mundo animal.
Sempre pensei na possibilidade de novas matérias serem inseridas nas grades do Ensino Fundamental, matérias como: Casamento, as besteiras possíveis ou as dificuldades da relação a dois. Enfim, ensinos práticos que auxiliariam na tomada de decisões - muitas cagadas seriam evitadas.
Solteiro convicto. Ou pelo menos até tal insanidade me acometer. Vejo casais de digladiando quase até a morte. Pólos opostos na atração, pólos semelhantes na repulsa magnética. Outro amigo, vitima de 5 anos de enrolação (namoro e noivado) confessou-me o seguinte:
-"Amigo, resolvi casar por não agüentar tanta pressão, por mim continuaria solteiro por mais uns 2 ou 3 anos".
-"Mas tive que ceder.... de cada 3 palavras 2 eram.... "Quando iremos nos casar, amorzinho!!!"" - disse em tom de escárnio, imitando a voz da namorada.
-"Assim não é possível" - respondi tentando amenizar a culpa que ele parecia sentir, seja por abandonar os amigos ou pela própria incapacidade de prorrogar tal situação.
Não entendo como as pessoas deixam-se levar por atitudes claramente errôneas. Por amor, algumas pessoas fogem, outras matam, algumas agridem. Poucas são as que amam para a eternidade, manifestando tais sentimentos em atos até o fim da vida.
A voz da coerência se perde com o nascimento do amor. Que o amor, então, venha - vejamos se essa insanidade irá nos derrubar ou se seremos vencedores dessa batalha. Dentre guerreiros e mortos, que algo sobreviva. Que assim seja.
-"Quem diria que, justamente o Paulo, um moleque que ainda brinca de videogames e carrinhos de controle remoto, iria se casar por este motivo" - comentava uma das parentes mais próximas.
Todos sabíamos bem o amigo que tínhamos. Sim, tínhamos. Este mudou completamente após os últimos eventos. Hoje, vejo-o com terno e gravata, falando de fraldas e papinhas... quem diria. Como é interessante vê-lo mudar do vinho para a água.... opsss, da água para o vinho. Desculpem o ato falho de um amigo que ainda desejava muitas outras baladas. Após o casamento muita coisa mudou.
Confidencialmente, em nossa última conversa, a dificuldade da vida matrimonial. Casou e herdou uma sogra... e, principalmente, um passado. As pessoas "abobadamente" dizem sim perante o juiz, e logo após, estão reclamando das cuecas e calcinhas jogadas pela casa. A bendita tampa do vaso sanitário. A mania de tirar caquinha do nariz. Por quê, depois de casado, a vida parece perder tanto o glamour? Mistérios do mundo animal.
Sempre pensei na possibilidade de novas matérias serem inseridas nas grades do Ensino Fundamental, matérias como: Casamento, as besteiras possíveis ou as dificuldades da relação a dois. Enfim, ensinos práticos que auxiliariam na tomada de decisões - muitas cagadas seriam evitadas.
Solteiro convicto. Ou pelo menos até tal insanidade me acometer. Vejo casais de digladiando quase até a morte. Pólos opostos na atração, pólos semelhantes na repulsa magnética. Outro amigo, vitima de 5 anos de enrolação (namoro e noivado) confessou-me o seguinte:
-"Amigo, resolvi casar por não agüentar tanta pressão, por mim continuaria solteiro por mais uns 2 ou 3 anos".
-"Mas tive que ceder.... de cada 3 palavras 2 eram.... "Quando iremos nos casar, amorzinho!!!"" - disse em tom de escárnio, imitando a voz da namorada.
-"Assim não é possível" - respondi tentando amenizar a culpa que ele parecia sentir, seja por abandonar os amigos ou pela própria incapacidade de prorrogar tal situação.
Não entendo como as pessoas deixam-se levar por atitudes claramente errôneas. Por amor, algumas pessoas fogem, outras matam, algumas agridem. Poucas são as que amam para a eternidade, manifestando tais sentimentos em atos até o fim da vida.
A voz da coerência se perde com o nascimento do amor. Que o amor, então, venha - vejamos se essa insanidade irá nos derrubar ou se seremos vencedores dessa batalha. Dentre guerreiros e mortos, que algo sobreviva. Que assim seja.
domingo, 8 de junho de 2008
Na algibeira de Deodoro
Assim como flecha em direção ao inimigo. Como coroas construídas e pétalas despedaçadas. Como a vida cíclica que finda na velhice, e teima em continuar nos descendentes. Pobre de mim. Na imortalidade conferida a um objeto, nunca serei sujeito. Deixe a história se fazer, que lhos venho contar.
Das minas do quadrilátero ferrífero à corte do Rio de Janeiro, um longo caminho - de transformações, prensas e separações - decidiu o meu eterno destino: ser uma moeda. Saber o que é ter e perder o valor, mas essa é uma outra história.
Sendo uma moeda fui manipulada por diversas mãos - presenciei vidas e mortes, casos e fatos, amores e tragédias. E seria apenas mais uma moeda se não fosse especial para o mundo: A primeira moeda da República do Brasil. O ano grifado em mim, 1889.
Vocês, que conhecem história, podem me perguntar: "A República não foi proclamada em meados de novembro, como seria possível ter sido cunhada e entrar em circulação ainda neste ano?". Nem o melhor dos ouvires do Império ou a melhor das Repúblicas conseguiria essa eficiência em tão pouco tempo. Mistérios. Coisas que somente eu posso contar.
Era tarde. Dia 17 de outubro. A casa de Fundição trabalhava a todo o vapor, e eu estava pronta para ser transformada em mais uma das milhares de moedas de 100 réis imperiais, quando o Marechal chegou. A sua figura era bastante respeitada, apesar da aparência contraditória e das conseqüentes piadas que corriam sobre sua pessoa - afinal, como todos os seres humanos, as inconstâncias e "pecados" faziam parte de sua alma animal.
Um dos homens que acompanhava o Marechal, Sr. Benjamim Constant, se aproximou de um funcionário que trabalhava na prensa e ordenou que a matriz fosse alterada, entregando a que havia consigo - matriz que me deu as formas que preservo até hoje, mesmo com mais de um século de existência. Apesar de certa relutância, o funcionário cedeu. E o primeiro dos símbolos da República nasceu, antes do parto, que seria "normal" quase um mês depois.
Nunca me esquecerei a felicidade de Deodoro ao me pegar em suas mãos. Observava o meu brilho, de metal trabalhado e novo. Seus olhos refletiam com a mesma intensidade que, sendo eu criança neste mundo, não conseguiria perceber naquele momento - olhos de quem sente o poder nas mãos. Não que eu fosse tão poderosa, afinal qual poder teria uma única moeda... ou estaria enganada. Sim, eu estava. Eu era um símbolo - carregava o maior dos poderes, o ideológico. E seria indispensável para o fortalecimento dessas idéias, essencialmente libertárias.
Já era noite quando saíram da casa de Fundição. Nas mãos de Deodoro, encontrava o aconchego do primeiro dos muitos "pais" que tive. Colocou-me em sua algibeira num espaço separado das outras moedas, montou em seu cavalo e saímos, juntamente com a sua comitiva, em direção a uma casa na Rua Direita - sobrado no qual se reuniam para a mobilização de forças e discussão das medidas a serem adotadas.
Deodoro da Fonseca estava armando o futuro. E todos, sem exceção, me esperavam ansiosamente - uma simples moeda. Instrumento de uma propaganda fortalecedora para a verdadeira independência de Portugal. Tirou-me da algibeira e exibindo-me como se fosse um troféu, afirmou em voz alta:
- "Devemos caracterizar a nossa legitimidade, alterar a face imperial e deveras colonial que aqui se instaurou desde os primórdios. Nossa república demora a eclodir....e agora, como em épocas antigas, seremos legítimos e verdadeiramente livres para atender aos nossos interesses, de brasileiros".
- "Que a face do império seja extinta, e que surja a efígie da república" - forte frase que encontrou entusiasmada aclamação na voz séria do nosso Marechal, e primeiro Presidente.
Quem conhece o poder, prova de seu licor, não ousa largá-lo. É como o vício dos bêbados, a ganância dos avaros, o fanatismo dos fiéis. O poder estimula uma disputa interior essencialmente maniqueísta - a diferença entre o próprio e o coletivo. Afinal, não existe nada que seja bom para o mundo que não seja melhor para aquele que vive o poder, mesmo carregando as mais puras palavras.
Deodoro, que provou de seu delicioso licor, tentou ficar mais tempo do que o estipulado - não conseguiu. Certamente saberia prorrogar tal sensação se tivesse a mesma habilidade política de Getúlio Vargas. E imaginar que, nesta época, este era apenas um rapazote gaúcho que escondia medos e incertezas - tive a possibilidade de conhecê-lo. Se tornou grande e amado, mesmo sendo ditador.
Volto agora no tempo. No dia em fui comprada num sebo em Pinheiros - na praça Benedito Calixto. Local onde tive a possibilidade de conhecer aqueles olhos que souberam me enxergar, e que hoje podem dizer tudo o que eu tenho para contar.
Ao nosso redor: móveis seculares, roupas, selos, câmeras fotográficas.... muita velharia; ou melhor, antigüidade. A praça estava tomada pelos transeuntes e mercadores. Ouvia-se ao fundo o som de uma vitrola 78 rotações, com aqueles enormes e pesados discos de cerâmica - meu Deus, como o mundo se transforma!!! Sentia os raios de um domingo de sol, após ter ficado vários dias fechada numa caixa com outras moedas. Moedas tão antigas quanto eu, e que certamente guardam diversas histórias - mas não tão raras, visto que sou única. Porém, naquele espaço, éramos todas iguais.
Percebia traços, pessoas, roupas - um mundo totalmente diferente daquele primeiro que presenciei. Onde era comum percorrer as mãos de homens vestidos com fraques e cartolas, exibindo seus bens e títulos. E também outras mãos, de homens maltrajados e tratados na ignorância - discriminados apesar da utilidade, da força, do caráter que construíram este país. Tempos tumultuosos encontrávamos na capital. Ouvia-se o brado dos negros livres.
Se houvesse um humano capaz de ter a vida eterna, certamente ele iria se horrorizar com tantas diferenças - com essa cultura mutável, que cria e destrói ao mesmo tempo, e produz um mundo de coisas totalmente normais a partir do inconcebível. Algumas dessas criações sendo a essência de Deus e outras, a sua destruição. Que a liberdade do homem o leve a escolhas benéficas, e que a sua vontade não seja a imposição dos outros.
Sempre me perguntei por que fui a escolhida para presenciar a história. Sabe-se lá o que nos leva a presenciar tais situações, ainda por cima sendo a única moeda que, naquele ano, dignamente estampava: "República dos Estados Unidos do Brazil". Isso mesmo, moeda de uma época em que Brazil ainda se escrevia com "z". E o nosso lema "Ordem e Progresso" era o positivismo em forma de ação, não a esperança em forma de propaganda política - procurei durante anos tal ordem e progresso; difícil num país que já surgiu com complexo de inferioridade.... Estados Unidos. Eu e minhas divagações. Voltemos a história.
Naquela mesma noite, Deodoro me levou para sua casa. Apresentou-me o seu lar e a única pessoa de sua convivência diária, sua esposa. Seus filhos já eram crescidos e tinham suas respectivas famílias. Contavam apenas com alguns poucos empregados.
Já em seu leito, segurava-me em suas mãos e observava as formas da qual era pai - porém, me levava para a cama como se fosse uma de suas amantes. O desejo que se escondia naquele brilho era muito maior - e foi uma longa história de amor. Tornei-me a amante de Deodoro aos olhos de sua esposa, que não tinha ciúme. Esta sabia do imenso amor que movia Deodoro, objetivo primário em sua vida: instaurar a República e o ser Presidente. Intimamente tinha medo dessa ambição do marido, mas quem era ela para contrariá-lo.
Deodoro carregava-me para todos os lados. E assim foi por anos, mesmo após o grande Marechal ter se tornado o primeiro Presidente do país. Fui seu amuleto, e modelo para as demais moedas da nova República, durante praticamente dois anos. Recebi seu amor e gratidão - e ouvi muitos de seus pensamentos que não ousava proferir a nenhuma alma viva. Certamente queria que o acompanhasse eternamente, e que, na sua falta, ficasse para seus filhos e descendentes. Porém, outros destinos estavam reservados para mim.
Corria o ano de 1891. O Marechal andava preocupado com a pressão civil e a do Congresso - que havia o eleito nesse mesmo ano. Como sempre, antes de dormir, ficava me segurando e olhando. Devia estar pedindo aos céus a boa sorte que sempre o acompanhou. Sobreviveu a diversas guerras e agora estava sendo difícil "sobreviver" no poder, como desejava.
Em seu leito, sua esposa pediu-lhe que apagasse o queimador. O que o fez, colocando-me na sua algibeira. Em poucos segundos, da escuridão surge o ronco dos que estão no mundo dos sonhos. A noite caminhava na tranqüilidade que era possível ao Rio de Janeiro no final daquele século, quando, de repente, outras mãos buscaram-me dentro da algibeira de Deodoro e me esconderam no fundo de um bolso. Não consegui enxergar quem era a pessoa, e muito menos entender o que estava acontecendo. Mas sabia que somente poderiam ser a sua esposa ou algum de seus empregados, os únicos que residiam naquela casa.
No dia seguinte, ainda no fundo daquele bolso - de tecido sedoso e extremamente confortável, uma mão me pegou. Era a esposa de Deodoro.
- "Maldito Deodoro. Desgraçado. Como ousou me trair.. "
- "Agora verá como se retribui uma traição. E todas as noites que me fez passar acordada, nervosa, enquanto dormia como um anjo".
Será que ela, após dois anos de convivência pacífica, ficou com ciúmes de mim - uma simples moeda. Certamente não seria para tanto. E não era. Continuou caminhando apressadamente pelas ruas difamando o Presidente para todos os que quisessem ouvir.
- "Sr. Presidente. Mais de 40 anos de casados para serem jogados fora dessa maneira" - dizia furiosamente nas estreitas ruas do centro.
- "Trair-me com aquela mulata Alzira!!! Porco desgraçado!!!". Agora o crime tinha um enredo, conteúdo.
Cansei de presenciar as traições do Presidente, que mesmo com mais de 60 anos, era um compulsivo sexual. Todos sabiam dos pecados de Deodoro, mas santo-de-casa, além de não fazer milagres, muitas vezes não enxerga que convive com o Diabo. É mais fácil ver luxurias em olhos santos do que imaginar um dos seus sendo o maior dos pecadores. No dia anterior, Deodoro havia agarrado a empregada e certamente havia sido flagrado.
Uma raiva violenta subiu-lhe a cabeça. Vingança. Sabia que Deodoro tinha me como o seu bem material mais precioso, e saberia o que fazer comigo.
De repente ela pára na banca de jornal do Sr. Joaquim, e compra um exemplar de "O paiz" - fui como parte do pagamento, como uma qualquer. E me perdi no mundo, passando imperceptível por milhares de mãos.
Pouco tempo depois, na mão de um italiano no interior de Minas Gerais, fiquei sabendo que o Marechal não era mais o Presidente, e no ano seguinte, no caixa de uma padaria, fiquei sabendo de sua morte. Era 1892, nunca esquecerei. Aquele alagoano que resistiu a muitas batalhas e guerras como a do Paraguai e da Cisplatina, não soube perder, e se deixou morrer.
E continuei seguindo a minha trajetória. Percorri diversos Estados, e até conheci o exterior. O mundo realmente é grande - a mente das pessoas é que é pequena. Vivi muitas vidas, aventuras, numa única existência... histórias, que ficam para a próxima.
Das minas do quadrilátero ferrífero à corte do Rio de Janeiro, um longo caminho - de transformações, prensas e separações - decidiu o meu eterno destino: ser uma moeda. Saber o que é ter e perder o valor, mas essa é uma outra história.
Sendo uma moeda fui manipulada por diversas mãos - presenciei vidas e mortes, casos e fatos, amores e tragédias. E seria apenas mais uma moeda se não fosse especial para o mundo: A primeira moeda da República do Brasil. O ano grifado em mim, 1889.
Vocês, que conhecem história, podem me perguntar: "A República não foi proclamada em meados de novembro, como seria possível ter sido cunhada e entrar em circulação ainda neste ano?". Nem o melhor dos ouvires do Império ou a melhor das Repúblicas conseguiria essa eficiência em tão pouco tempo. Mistérios. Coisas que somente eu posso contar.
Era tarde. Dia 17 de outubro. A casa de Fundição trabalhava a todo o vapor, e eu estava pronta para ser transformada em mais uma das milhares de moedas de 100 réis imperiais, quando o Marechal chegou. A sua figura era bastante respeitada, apesar da aparência contraditória e das conseqüentes piadas que corriam sobre sua pessoa - afinal, como todos os seres humanos, as inconstâncias e "pecados" faziam parte de sua alma animal.
Um dos homens que acompanhava o Marechal, Sr. Benjamim Constant, se aproximou de um funcionário que trabalhava na prensa e ordenou que a matriz fosse alterada, entregando a que havia consigo - matriz que me deu as formas que preservo até hoje, mesmo com mais de um século de existência. Apesar de certa relutância, o funcionário cedeu. E o primeiro dos símbolos da República nasceu, antes do parto, que seria "normal" quase um mês depois.
Nunca me esquecerei a felicidade de Deodoro ao me pegar em suas mãos. Observava o meu brilho, de metal trabalhado e novo. Seus olhos refletiam com a mesma intensidade que, sendo eu criança neste mundo, não conseguiria perceber naquele momento - olhos de quem sente o poder nas mãos. Não que eu fosse tão poderosa, afinal qual poder teria uma única moeda... ou estaria enganada. Sim, eu estava. Eu era um símbolo - carregava o maior dos poderes, o ideológico. E seria indispensável para o fortalecimento dessas idéias, essencialmente libertárias.
Já era noite quando saíram da casa de Fundição. Nas mãos de Deodoro, encontrava o aconchego do primeiro dos muitos "pais" que tive. Colocou-me em sua algibeira num espaço separado das outras moedas, montou em seu cavalo e saímos, juntamente com a sua comitiva, em direção a uma casa na Rua Direita - sobrado no qual se reuniam para a mobilização de forças e discussão das medidas a serem adotadas.
Deodoro da Fonseca estava armando o futuro. E todos, sem exceção, me esperavam ansiosamente - uma simples moeda. Instrumento de uma propaganda fortalecedora para a verdadeira independência de Portugal. Tirou-me da algibeira e exibindo-me como se fosse um troféu, afirmou em voz alta:
- "Devemos caracterizar a nossa legitimidade, alterar a face imperial e deveras colonial que aqui se instaurou desde os primórdios. Nossa república demora a eclodir....e agora, como em épocas antigas, seremos legítimos e verdadeiramente livres para atender aos nossos interesses, de brasileiros".
- "Que a face do império seja extinta, e que surja a efígie da república" - forte frase que encontrou entusiasmada aclamação na voz séria do nosso Marechal, e primeiro Presidente.
Quem conhece o poder, prova de seu licor, não ousa largá-lo. É como o vício dos bêbados, a ganância dos avaros, o fanatismo dos fiéis. O poder estimula uma disputa interior essencialmente maniqueísta - a diferença entre o próprio e o coletivo. Afinal, não existe nada que seja bom para o mundo que não seja melhor para aquele que vive o poder, mesmo carregando as mais puras palavras.
Deodoro, que provou de seu delicioso licor, tentou ficar mais tempo do que o estipulado - não conseguiu. Certamente saberia prorrogar tal sensação se tivesse a mesma habilidade política de Getúlio Vargas. E imaginar que, nesta época, este era apenas um rapazote gaúcho que escondia medos e incertezas - tive a possibilidade de conhecê-lo. Se tornou grande e amado, mesmo sendo ditador.
Volto agora no tempo. No dia em fui comprada num sebo em Pinheiros - na praça Benedito Calixto. Local onde tive a possibilidade de conhecer aqueles olhos que souberam me enxergar, e que hoje podem dizer tudo o que eu tenho para contar.
Ao nosso redor: móveis seculares, roupas, selos, câmeras fotográficas.... muita velharia; ou melhor, antigüidade. A praça estava tomada pelos transeuntes e mercadores. Ouvia-se ao fundo o som de uma vitrola 78 rotações, com aqueles enormes e pesados discos de cerâmica - meu Deus, como o mundo se transforma!!! Sentia os raios de um domingo de sol, após ter ficado vários dias fechada numa caixa com outras moedas. Moedas tão antigas quanto eu, e que certamente guardam diversas histórias - mas não tão raras, visto que sou única. Porém, naquele espaço, éramos todas iguais.
Percebia traços, pessoas, roupas - um mundo totalmente diferente daquele primeiro que presenciei. Onde era comum percorrer as mãos de homens vestidos com fraques e cartolas, exibindo seus bens e títulos. E também outras mãos, de homens maltrajados e tratados na ignorância - discriminados apesar da utilidade, da força, do caráter que construíram este país. Tempos tumultuosos encontrávamos na capital. Ouvia-se o brado dos negros livres.
Se houvesse um humano capaz de ter a vida eterna, certamente ele iria se horrorizar com tantas diferenças - com essa cultura mutável, que cria e destrói ao mesmo tempo, e produz um mundo de coisas totalmente normais a partir do inconcebível. Algumas dessas criações sendo a essência de Deus e outras, a sua destruição. Que a liberdade do homem o leve a escolhas benéficas, e que a sua vontade não seja a imposição dos outros.
Sempre me perguntei por que fui a escolhida para presenciar a história. Sabe-se lá o que nos leva a presenciar tais situações, ainda por cima sendo a única moeda que, naquele ano, dignamente estampava: "República dos Estados Unidos do Brazil". Isso mesmo, moeda de uma época em que Brazil ainda se escrevia com "z". E o nosso lema "Ordem e Progresso" era o positivismo em forma de ação, não a esperança em forma de propaganda política - procurei durante anos tal ordem e progresso; difícil num país que já surgiu com complexo de inferioridade.... Estados Unidos. Eu e minhas divagações. Voltemos a história.
Naquela mesma noite, Deodoro me levou para sua casa. Apresentou-me o seu lar e a única pessoa de sua convivência diária, sua esposa. Seus filhos já eram crescidos e tinham suas respectivas famílias. Contavam apenas com alguns poucos empregados.
Já em seu leito, segurava-me em suas mãos e observava as formas da qual era pai - porém, me levava para a cama como se fosse uma de suas amantes. O desejo que se escondia naquele brilho era muito maior - e foi uma longa história de amor. Tornei-me a amante de Deodoro aos olhos de sua esposa, que não tinha ciúme. Esta sabia do imenso amor que movia Deodoro, objetivo primário em sua vida: instaurar a República e o ser Presidente. Intimamente tinha medo dessa ambição do marido, mas quem era ela para contrariá-lo.
Deodoro carregava-me para todos os lados. E assim foi por anos, mesmo após o grande Marechal ter se tornado o primeiro Presidente do país. Fui seu amuleto, e modelo para as demais moedas da nova República, durante praticamente dois anos. Recebi seu amor e gratidão - e ouvi muitos de seus pensamentos que não ousava proferir a nenhuma alma viva. Certamente queria que o acompanhasse eternamente, e que, na sua falta, ficasse para seus filhos e descendentes. Porém, outros destinos estavam reservados para mim.
Corria o ano de 1891. O Marechal andava preocupado com a pressão civil e a do Congresso - que havia o eleito nesse mesmo ano. Como sempre, antes de dormir, ficava me segurando e olhando. Devia estar pedindo aos céus a boa sorte que sempre o acompanhou. Sobreviveu a diversas guerras e agora estava sendo difícil "sobreviver" no poder, como desejava.
Em seu leito, sua esposa pediu-lhe que apagasse o queimador. O que o fez, colocando-me na sua algibeira. Em poucos segundos, da escuridão surge o ronco dos que estão no mundo dos sonhos. A noite caminhava na tranqüilidade que era possível ao Rio de Janeiro no final daquele século, quando, de repente, outras mãos buscaram-me dentro da algibeira de Deodoro e me esconderam no fundo de um bolso. Não consegui enxergar quem era a pessoa, e muito menos entender o que estava acontecendo. Mas sabia que somente poderiam ser a sua esposa ou algum de seus empregados, os únicos que residiam naquela casa.
No dia seguinte, ainda no fundo daquele bolso - de tecido sedoso e extremamente confortável, uma mão me pegou. Era a esposa de Deodoro.
- "Maldito Deodoro. Desgraçado. Como ousou me trair.. "
- "Agora verá como se retribui uma traição. E todas as noites que me fez passar acordada, nervosa, enquanto dormia como um anjo".
Será que ela, após dois anos de convivência pacífica, ficou com ciúmes de mim - uma simples moeda. Certamente não seria para tanto. E não era. Continuou caminhando apressadamente pelas ruas difamando o Presidente para todos os que quisessem ouvir.
- "Sr. Presidente. Mais de 40 anos de casados para serem jogados fora dessa maneira" - dizia furiosamente nas estreitas ruas do centro.
- "Trair-me com aquela mulata Alzira!!! Porco desgraçado!!!". Agora o crime tinha um enredo, conteúdo.
Cansei de presenciar as traições do Presidente, que mesmo com mais de 60 anos, era um compulsivo sexual. Todos sabiam dos pecados de Deodoro, mas santo-de-casa, além de não fazer milagres, muitas vezes não enxerga que convive com o Diabo. É mais fácil ver luxurias em olhos santos do que imaginar um dos seus sendo o maior dos pecadores. No dia anterior, Deodoro havia agarrado a empregada e certamente havia sido flagrado.
Uma raiva violenta subiu-lhe a cabeça. Vingança. Sabia que Deodoro tinha me como o seu bem material mais precioso, e saberia o que fazer comigo.
De repente ela pára na banca de jornal do Sr. Joaquim, e compra um exemplar de "O paiz" - fui como parte do pagamento, como uma qualquer. E me perdi no mundo, passando imperceptível por milhares de mãos.
Pouco tempo depois, na mão de um italiano no interior de Minas Gerais, fiquei sabendo que o Marechal não era mais o Presidente, e no ano seguinte, no caixa de uma padaria, fiquei sabendo de sua morte. Era 1892, nunca esquecerei. Aquele alagoano que resistiu a muitas batalhas e guerras como a do Paraguai e da Cisplatina, não soube perder, e se deixou morrer.
E continuei seguindo a minha trajetória. Percorri diversos Estados, e até conheci o exterior. O mundo realmente é grande - a mente das pessoas é que é pequena. Vivi muitas vidas, aventuras, numa única existência... histórias, que ficam para a próxima.
Confusões da vida adulta
Era uma quarta-feira chuvosa. Estava perdendo a paciência e os cabelos, arrancados em momentos de absoluta fúria com a enrascada dos céus - "valeu, Bendito São Pedro!!!". Não posso xingar, afinal, é um santo. Mas estando no carro preso a um congestionamento que prometia se estender por muito tempo, já haviam se passado 6 horas, buscava descarregar de qualquer forma a raiva acumulada por sentir tamanha "modernidade".
O ruim de viver na cidade mais desenvolvida do país me fez refletir sobre o pior dos contrastes, caracterizado no lema da bandeira brasileira: "Ordem e Progresso". Santa Ilusão. A mesma mão que traz as oportunidades leva com a outra todas as riquezas. Traduzindo: "Estamos sendo constantemente dilacerados pela percepção do progresso, que a poucos serve".
Certamente, para muitos, tal definição seja o paraíso onde a poluição não se distingue do ar e água consumidos. A vida some. E os crimes e mortes, ocorrências crescentes. A vida morre. Onde a perda da sensibilidade recebe um nome bonito "blase" - ninguém mais chora uma terrível catastrofe, tudo é tão normal. Onde o excesso de gente em busca de uma oportunidade nos transformam em animais ferozes que manifestam os atributos mais mesquinhos. "Eu por mim, e que Deus... me ajude". O individualismo egoísta deve estar próximo. Já chegou.
Pena que ninguém se conscientizou que ambos - ordem e progresso - devem caminhar paralelamente, e como consequência, enchentes, poluição... o verdadeiro caos nos é presenteado como recompensa ao egoísmo, pela nossa incompetência de desejar ser uma coletividade. Enquanto isso, vivamos os males até que estes nos liquidem.
Num desses raros momentos, ficar 6 horas no "sossego", a agitação da vida moderna seria a paz absoluta. Seria. Se soubesse como aproveitar o momento livre em algo construtivo. Preferia, nesse momento, amaldiçoar o prefeito, o governador e toda a raça política. E também o porco do carro da frente que acabou de jogar uma latinha de refrigerante pela janela. Consciência social, hummm... é ruim de acreditar.
Um clarão me cega. Será que o divino se manifestou aos mortais para nos salvar da perdição plantada!!! Comecei a refletir sobre o passado... e o tempo que desejava ser adulto. Acreditava que seria livre se, um dia, fosse como o meu pai. Quando era pequeno, mal o via em casa. Saia muito cedo para o trabalho - bancário - e quando voltava já estavámos dormindo. O dia dele deveria ser muito divertido. Ganhava o seu dinheiro, tinha a sua casa, carro. Tudo o que deseja e honrava em dizer que conseguira com muito esforço e sacrifício. Sendo pequenos, somente podíamos imaginar com eram as coisas. E na nossa mentalidade criativa, toda a diferença do mundo parecia ser a coisa mais maravilhosa.
Não conheciamos o mundo lá fora. E não sentia a ameaça proclamada pela minha mãe: "Tomem cuidado com os ladrões". O medo era uma sensação desconhecida, distante de crianças que cresceram felizes brincando na rua como as antigas gerações. Tive sorte. Muitos dos meus amigos viveram trancado em seus condominios, não conheceram nem seus vizinhos. A prisão já era uma verdade.
Para quem cresceu livre. O mundo real se transformou na pior das prisões. Muitos acham que começamos a ter conscîencia dos nossos atos aos 7 anos de idade. Na minha mortalidade, percebi que ainda estou tentando me descobrir e a esse mundo - totalmente estranho - extremamente diferente do imaginado. A força das idades, os aniversários que passaram trouxeram perspectivas tão diferenciada quanto os bolos comidos em todos esse anos.
Tudo parecia nos prender. O dinheiro, a família, a obrigação... a liberdade começou a parecer mais utópica do que real. Mesmo quando era jovem, preso no quarto ficava na falta de esperança da possibilidade de ser parte desse mundo. Pagamos para respirar o ar, como seria andar pela cidade impunemente. Quando o dinheiro falta , nada mais parece possível... não existe família, as obrigações não são cumpridas e a vida se esfacela... será que sempre foi assim? Até mesmo nas épocas mais insanas o mundo parecia ter uma lógica, que se constituiu na riqueza de uns e na extrema pobreza de outros. Fiquei no meio termo, jogado a pobreza com a capacidade de ter sido algo. Cadê o destino... esperei tanto por ele que acabei perecendo.
A ironia é uma constante. Preciso ser assim para desabafar e rir das desgraças... que são muitas. A sensação de liberdade e o medo da responsabilidade são as novas vertentes... e agora, Mané!!! O que fazer!!! Antes fossem apenas um método eficaz de não entrar em confusão: Não falar. Se vejo o "circo" pegar fogo, deixo-o para os macacos se digladiarem....nem sempre fui envolvido em confusões. Mas, nestas horas, perco a minha classe. Se quiserem me incluir sem permissão.... tomarão uma invertida que voltarão para casa desnorteados. Nada mais justo. E eu que já sonhei ser diplomata! Que todos os infelizes vão para o inferno, felizmente a minha insanidade me liberta!
O ruim de viver na cidade mais desenvolvida do país me fez refletir sobre o pior dos contrastes, caracterizado no lema da bandeira brasileira: "Ordem e Progresso". Santa Ilusão. A mesma mão que traz as oportunidades leva com a outra todas as riquezas. Traduzindo: "Estamos sendo constantemente dilacerados pela percepção do progresso, que a poucos serve".
Certamente, para muitos, tal definição seja o paraíso onde a poluição não se distingue do ar e água consumidos. A vida some. E os crimes e mortes, ocorrências crescentes. A vida morre. Onde a perda da sensibilidade recebe um nome bonito "blase" - ninguém mais chora uma terrível catastrofe, tudo é tão normal. Onde o excesso de gente em busca de uma oportunidade nos transformam em animais ferozes que manifestam os atributos mais mesquinhos. "Eu por mim, e que Deus... me ajude". O individualismo egoísta deve estar próximo. Já chegou.
Pena que ninguém se conscientizou que ambos - ordem e progresso - devem caminhar paralelamente, e como consequência, enchentes, poluição... o verdadeiro caos nos é presenteado como recompensa ao egoísmo, pela nossa incompetência de desejar ser uma coletividade. Enquanto isso, vivamos os males até que estes nos liquidem.
Num desses raros momentos, ficar 6 horas no "sossego", a agitação da vida moderna seria a paz absoluta. Seria. Se soubesse como aproveitar o momento livre em algo construtivo. Preferia, nesse momento, amaldiçoar o prefeito, o governador e toda a raça política. E também o porco do carro da frente que acabou de jogar uma latinha de refrigerante pela janela. Consciência social, hummm... é ruim de acreditar.
Um clarão me cega. Será que o divino se manifestou aos mortais para nos salvar da perdição plantada!!! Comecei a refletir sobre o passado... e o tempo que desejava ser adulto. Acreditava que seria livre se, um dia, fosse como o meu pai. Quando era pequeno, mal o via em casa. Saia muito cedo para o trabalho - bancário - e quando voltava já estavámos dormindo. O dia dele deveria ser muito divertido. Ganhava o seu dinheiro, tinha a sua casa, carro. Tudo o que deseja e honrava em dizer que conseguira com muito esforço e sacrifício. Sendo pequenos, somente podíamos imaginar com eram as coisas. E na nossa mentalidade criativa, toda a diferença do mundo parecia ser a coisa mais maravilhosa.
Não conheciamos o mundo lá fora. E não sentia a ameaça proclamada pela minha mãe: "Tomem cuidado com os ladrões". O medo era uma sensação desconhecida, distante de crianças que cresceram felizes brincando na rua como as antigas gerações. Tive sorte. Muitos dos meus amigos viveram trancado em seus condominios, não conheceram nem seus vizinhos. A prisão já era uma verdade.
Para quem cresceu livre. O mundo real se transformou na pior das prisões. Muitos acham que começamos a ter conscîencia dos nossos atos aos 7 anos de idade. Na minha mortalidade, percebi que ainda estou tentando me descobrir e a esse mundo - totalmente estranho - extremamente diferente do imaginado. A força das idades, os aniversários que passaram trouxeram perspectivas tão diferenciada quanto os bolos comidos em todos esse anos.
Tudo parecia nos prender. O dinheiro, a família, a obrigação... a liberdade começou a parecer mais utópica do que real. Mesmo quando era jovem, preso no quarto ficava na falta de esperança da possibilidade de ser parte desse mundo. Pagamos para respirar o ar, como seria andar pela cidade impunemente. Quando o dinheiro falta , nada mais parece possível... não existe família, as obrigações não são cumpridas e a vida se esfacela... será que sempre foi assim? Até mesmo nas épocas mais insanas o mundo parecia ter uma lógica, que se constituiu na riqueza de uns e na extrema pobreza de outros. Fiquei no meio termo, jogado a pobreza com a capacidade de ter sido algo. Cadê o destino... esperei tanto por ele que acabei perecendo.
A ironia é uma constante. Preciso ser assim para desabafar e rir das desgraças... que são muitas. A sensação de liberdade e o medo da responsabilidade são as novas vertentes... e agora, Mané!!! O que fazer!!! Antes fossem apenas um método eficaz de não entrar em confusão: Não falar. Se vejo o "circo" pegar fogo, deixo-o para os macacos se digladiarem....nem sempre fui envolvido em confusões. Mas, nestas horas, perco a minha classe. Se quiserem me incluir sem permissão.... tomarão uma invertida que voltarão para casa desnorteados. Nada mais justo. E eu que já sonhei ser diplomata! Que todos os infelizes vão para o inferno, felizmente a minha insanidade me liberta!
Excessos estúpidos
Será a morte a maior de nossas tragédias!?! Não creio. Outro dia estava na cozinha de minha casa, e na geladeira buscava a quase vazia lata de leite-condensado. Tirei-a da geladeira. Peguei o abridor de latas, e qual não é a minha surpresa - uma formiga.
Na minha "humanidade", tentei salvar a formiga menos esperta da possível morte. E, infelizmente, não tive êxito - mas não proporcionei o velório. Lavei a colher, economicamente raspei a lata, deixando "micro resto" para ser consumido posteriormente. Lata na geladeira. Ainda mais vazia.
Muitos foram os pensamentos que me vieram a partir dessas duas cenas que tiveram a morte como fim comum. Ambas ambicionaram mais do que poderiam usufruir. Uma morreu no resgate imposto pela generosidade, e a outra da morte inevitável - os excessos que matam as pessoas, os animais, os bichos são os mesmos. E todos somos suscetíveis a esses pecados da gula, do ter e consumir muito mais do que as necessidades, e ser egoístas em querer só para nós, e ser desumano em não estender as mãos.
O homem é o bicho que faz isso conscientemente. Tem a razão como linha mestra, e a imperdoável atitude que o poder do excesso lhe confere - até a inveja dos outros. E se esquece, estúpido, de que é acima de tudo, mortal.
Na minha "humanidade", tentei salvar a formiga menos esperta da possível morte. E, infelizmente, não tive êxito - mas não proporcionei o velório. Lavei a colher, economicamente raspei a lata, deixando "micro resto" para ser consumido posteriormente. Lata na geladeira. Ainda mais vazia.
No dia seguinte, deixei de lado a minha "pão-durice" e resolvi ver se a lata podia me propiciar algo. A felicidade perdida. E deixar que a natureza, o lixeiro e a lata tivessem o seu destino. Qual não é a minha surpresa: no fundo da lata, uma formiga que não eu havia percebido, morta, afogada pela imensa gota condensada - a outra soube se esconder na esperteza de quem poderia ficar com todo o doce para ela, aproveitando sozinha aquela montanha de açúcar, que para mim era só um resto.
Muitos foram os pensamentos que me vieram a partir dessas duas cenas que tiveram a morte como fim comum. Ambas ambicionaram mais do que poderiam usufruir. Uma morreu no resgate imposto pela generosidade, e a outra da morte inevitável - os excessos que matam as pessoas, os animais, os bichos são os mesmos. E todos somos suscetíveis a esses pecados da gula, do ter e consumir muito mais do que as necessidades, e ser egoístas em querer só para nós, e ser desumano em não estender as mãos.
O homem é o bicho que faz isso conscientemente. Tem a razão como linha mestra, e a imperdoável atitude que o poder do excesso lhe confere - até a inveja dos outros. E se esquece, estúpido, de que é acima de tudo, mortal.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Terras Santas
Judeus em fuga cruzaram a macedônia
E negros mares encontraram
Onde o salitre presente aos pés
Marcavam a queda em pleno luar
Em seu retorno à busca constante
Vitimados pela negação
Séculos e séculos sucessivos
Mouros, arianos, palestinos
Trouxeram sangue ao caminho
Almas torturadas ao sol
Escravos, conversos, perseguidos
Alastraram grandes desafios
No viver, sem conflitos
E agora, chagas ao tempo....mesmo lamento
Onde força e violência
Na busca pela abastança
Trouxe aos povos, guerras e ignorância
"Terra Santa, palco da epopéia
Recusaste a dádiva imputada
E duas mil primaveras passaram
Sem respeitar o sangue dos irmãos"
E negros mares encontraram
Onde o salitre presente aos pés
Marcavam a queda em pleno luar
Em seu retorno à busca constante
Vitimados pela negação
Séculos e séculos sucessivos
Mouros, arianos, palestinos
Trouxeram sangue ao caminho
Almas torturadas ao sol
Escravos, conversos, perseguidos
Alastraram grandes desafios
No viver, sem conflitos
E agora, chagas ao tempo....mesmo lamento
Onde força e violência
Na busca pela abastança
Trouxe aos povos, guerras e ignorância
"Terra Santa, palco da epopéia
Recusaste a dádiva imputada
E duas mil primaveras passaram
Sem respeitar o sangue dos irmãos"
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