Bug. Computadores. Com o clima de tensão e muita expectativa, o ano 2000 está se aproximando. Como proclamado "De 1000 passarás e 2000 não chegarás", muitos temem pelo pior. Sou um deles. Justificado ou não esse medo, só o destino poderá comprovar.
Último dia de 1999. O sol machuca a pele no litoral paulista, Praia Grande; único local onde os trocados poderiam suprir os gastos necessários - nada de Paris, Roma ou Nova York. Quem sabe na próxima encarnação, se o planeta ainda existir, venha comemorar a virada dos 2999. Penso: Qual será o problema que a civilização enfrentará!!!! Certamente existirá.... será uma doença incurável, a escravidão para povos alienigenas ou a inesperada era de paz e tranquilidade conseguirá efetivamente tocar o espírito humano, deixando-o nobre às atitudes e diferenças, se é que existirá diferença!!!
Outro pensamento surgiu a cabeça, fato raro; poderemos nem chegar ao tão esperado ano. Na televisão podíamos ver que já era ano 2000 na Nova Zelândia, 13 horas antes.... e se o Bug afetar uma usina atômica na Rússia, ou mísseis de bases indianas ou alemãs. O questionamento que não parecia ter sido feito me preocupava profundamente. Nem os poderosos norte-americanos presenciariam - e nós, terceiro mundo latino-americano estaríamos em pé de igualdade neste último segundo.
As horas foram passando. Vimos apresentações folclóricas e comemorações em quase todos os países do mundo - Filipinas, Malásia, Indía... até Israel.... deveria ser o fim-do-mundo... nem eles quiseram perder a festa, mesmo estando milenios distante de nós, no ano 5000 e cassetada. A hora passou pela Alemanha.... UFA!!! Fiquei mais tranquilo. E sentindo arder a pele por ter me exposto muito ao Sol - umas garotas foram conversar comigo, e como bom cavalheiro, não recusei bate-papo (nada melhor para o ego) - Não eram bonitas mas falavam coisas engraçadas. Acharam que a minha irmã mais nova, de 15 anos, estava gravida novamente.... Tadinha, como as pessoas são cruéis, além de estar brincando com o nosso Léo (irmãozinho de 2 anos), a barriga dela se tornou um ponto de questionamento entre pessoas "curiosas" (acho que foi a melhor palavra para descrevê-las). Uma lição para o ano novo, ela vai precisar emagrecer. Logicamente, apesar das meninas implorarem para eu não contar para ela (o que não o fiz), o fato chegou ao ouvido dela... como os seres humanos são cruéis, mesmo sendo família, ninguém perdoa.
Acreditando que o perigo havia passado, já que os países mais desestruturados (e poderosos) do mundo não sentiram nenhum efeito negativo, chegaríamos ao ano 2000.... Mas ainda havia uma dúvida a me questionar: apesar do governo brasileiro não assumir haver armas atômicas, uma intrigante conversa com o ex-governador de São Paulo, Franco Montoro, deixou-me cheio de receio. E tendo essa conversa como argumento, Deus bem que poderia ser mesmo brasileiro, dando ao mundo o fim que poderia começar neste caos. Neurose, pode ser. Vivendo em São Paulo é fácil obter um atestado médico de insanidade.
5, 4, 3, 2, 1..... Fogos. Erramos. Não que esperasse uma grande bola de fogo do céu e o dia do "juízo final". Os guardiões das portas dos céus, nesse momento, eram os analistas de sistemas - poderosos guerreiros dos programas fatais, do inseto que poderia fazer sumir a luz, o dinheiro, a comida e mesmo o planeta. Agora que o "receio" passou, me sinto um pouco "idiota". Não querendo me justificar, mas já..... Nunca houve um tempo em que o homem teve tanto poder sobre os destinos do mundo. Um poder que pode lhe fugir às mãos. E é infinitamente maior do que a vontade de todas as pessoas do planeta. Afinal, quem poderá nos defender dessa ameaça que é invisível para a imensa maioria, e que pode vir sem avisar.
Para começar o ano com o pé direito, dessa vez resolvi seguir o que manda a tradição - passei com a roupa branca, pelo menos a camiseta, o que não fazia nos outros anos. Em 1990, iniciei o ano totalmente de preto e pulei as 7 ondas de costas - foi um dos melhores anos da minha vida. No ano passado resolvi fazer a mesma coisa - todos me olhavam como se fosse um alienigena - e para aprimorar, pulei as 7 ondas de costas e com o pé esquerdo. Meu ano foi uma merda. Naquela virada, cortei o dedo para abrir o "champagne", uma fagulha dos inúmeros fogos atingiu o meu pé e outras coisas aconteceram que deixaram todas as mãos e pés com machucados. Será que existe maldição!!!
Com essa dúvida na mente e depois de um ano de muito sacrifício e poucos resultados. Algumas vitórias e muitas derrotas. Resolvi apelar para todos os santos. A camiseta branca é uma conquista para este cético. Li numa revista que jogar moedas ao mar como uma oferenda a Iemanjá traria também dinheiro, esta fortuna que tanto falta. E aproveitando as velas que os outros depositavam na praia, joguei mais uma moeda para garantir o ano. Se depender das mandingas, estou feito. E minha família inteira, pois saí distribuindo moedas para todos.
A imprevisibilidade marcou esse reveillon. Até o dia 31, pela manhã, não sabia aonde iria passar a virada. A "viagem" que faria com o um amigo, o Cajú, no último dia do ano virou suco. Muitos foram os planos, poderia ter ido com uma amiga para Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Ou mesmo para Garopaba, em Santa Catarina. Outro amigo também me convidou para viajarmos. E fui acreditar na conversa de Cajú.... Uma amiga nossa, a Fabi, passou aqui em casa após o Natal... O ano novo iria comemorar em Boiçucanga. Achamos uma boa idéia. Combinei que passaria o dia em Juqueí na casa da minha tia, e a noite com os amigos; Sem companhia, acabei indo para a Praia Grande. O apartamento estava cheio, mas sabia que caberia mais um. O meu irmão, Fábio, com medo do trânsito, ficou em São Paulo. Se eu fosse para Fortaleza, faria a mesma coisa.
O dia será memorável. Não queria passar de forma nenhuma mais um reveillon na Praia Grande, mas não me arrependo. Nunca me senti tão bem. Estar com a família foi a benção para um ano que será tão imprevisível quanto os caminhos que me levaram à praia. E que poderiam ter me levado para qualquer lugar do país se não tivessem se esgotado todas as passagens. Felizmente curti o último dia, e noite (que como sempre faltou luz e jantamos no "Don Zarpelo"). Nada melhor do que uma bela pizza para encerrar o ano. E o vinho italiano que comprei para a passagem do ano marcar a prosperidade que esperamos.
Cada qual deve ter sentido algo especial. As fotos que tirei marcaram o momento para a eternidade. E o texto, para os meus filhos, netos, bisnetos.... e todos os que descenderem de nós. No futuro, certamente seremos os "australopitecus" do ano 2000. Seres estranhos, de outra época e costumes. Pensei em todos os que virão no futuro... e no meu incerto destino. Cheio de esperança e com uma grande paz.... uma "energia" que, mesmo com certa relutância minha, me fez ajoelhar no meio da praia e rezar.... e acordar no outro dia conversando por mais de meia hora com essa energia. Será que existe algo de bom!!!
Sábado. Primeiro dia do ano 2000. Ligo a TV, as mesmas porcarias - grupos de pagode, programas de auditório, filmes que passaram milhares de vezes. A mesma merda. Mas ainda continuo nutrindo o sonho, para que um dia a realidade acorde para o que existe, e deixe para o mundo marcas melhores do que estas que se apresentam.
Janeiro - 2000
sábado, 26 de abril de 2008
domingo, 20 de abril de 2008
A invasão dos deuses brancos
Na grande ilha, os lobos-guarás homenageavam o céu estrelado e enluarado. A floresta e seus espíritos regozijavam os novos ventos - esses, que sempre vieram do lago de areia, estavam invertidos. Nunca havia visto o vento que sopra da montanha. Sinal dos deuses. As árvores choravam o orvalho na terra que iriam nutri-la após a longa noite. Acordando saciada pelo descanso, e preparada para a nova batalha. Essa mesma batalha que acabou de ser vencida: a maior de todas as colheitas.
Os deuses da natureza nos presentearam de forma jamais vista - o sol forte e vigoroso, sem perder a suavidade, atingia a todos com uma energia uniforme, gerando vida; a chuva se intercalou propiciando a água tão necessária, o nosso maior tesouro, para a saciedade de nossa gente, de nossa terra, plantação e, especialmente, para os espíritos de nossos antepassados. Não tivemos os castigos na forma de secas, geadas ou inundações, que tanto nos afligiram em outras ocasiões.
Nessa noite, nos reunimos para agradecer - o espírito da natureza, os nossos antepassados, o Sol, a chuva - toda prosperidade e segurança que nos foram oferecidos pelos os alimentos que não iriam faltar aos nossos filhos e aos ritos de troca com as tribos vizinhas, o que poderia ocasionar uma situação de guerra entre nossos povos. Agradecer sempre fez parte de nossa cultura, seja em épocas férteis ou nas quais os alimentos não nos vinham em abundância.
No meio da aldeia, o fogo consumia a madeira. Ao redor, nas ocas que compunham a nossa tribo, víamos as mulheres pintando os seus homens e sendo pintadas. Elas passaram o dia inteiro fazendo ornamentos de penas de aves, preparando as tintas e os cestos de palha entrelaçada nos quais iriam os alimentos que representavam a colheita. Os homens costumavam ser os caçadores e ajudavam as mulheres no plantio e nas árduas tarefas do campo. Preparavam as ferramentas, a terra.
Em algumas ocas, as crianças ficavam a espreita tentando observar a preparação do ritual. O ritual da colheita era exclusivo aos adultos. E como não podiam participar ficavam curiosos. Todos os adultos sabiam que eles não conseguiriam ficar dormindo.... já fomos pequenos. Os mais velhos, cujo ingresso na vida adulta estava próxima, ficavam isolados em uma oca afastada, se preparando para as tarefas do ritual da maioridade que estavam por vir. Tudo tem a sua época.
Após o dia de sol claro, os deuses trouxeram uma bela lua.... redonda. Nessa época em que o tempo é mais frio, as folhas caem dos galhos das árvores para que se nasçam belas flores.... as abelhas certamente agradecem essa época. Observava ao mesmo tempo o Sol, a Lua.... sempre estiveram distantes.... lá no céu; deuses que nunca tiveram tempo de descer a terra para comemorar conosco. Mas, sabíamos que o grande dia estava próximo.
Muitas luas atrás, durante um ritual de maioridade dos guará-mirim - antiga tribo de nossos antepassados - o cacique Piroembu recebeu a voz do "espírito da natureza"; este contou ao nosso povo sobre a futura visita dos deuses à nossa terra. Os deuses iriam se transformar em seres, como nós, para poder festejar o dia da grande colheita. Muitos esperaram.... esperaram.... e voltaram para a natureza sem presenciar.
Essa história se manteve conosco por muitas e muitas luas. Aquela tribo cresceu, e nasceram três tribos de descendentes daquela tradição, que proporcionam novos filhos para ambos. Os mais velhos se reuniam com os mais novos, contavam a história e, desta forma, imortalizaram o passado para nós.... continuamos fazendo o mesmo para com nossos filhos.
Passamos a noite inteira dançando. Agradecemos cada um desses filhos que vieram para dar continuidade a nossa família, e que recebiam as lições dos que estavam com muitas luas, cabelos grisalhos, próximos da hora de voltar à natureza. As festividades se estenderam até a fogueira apagar.....
Com os primeiros pássaros, a tribo amanhecia.... estava deitado na rede, e observava a fumaça que ainda saía da fogueira.... as crianças correndo pela aldeia, até que sumiram em direção ao lago de areia. Na oca vizinha a minha, o cacique se encontrava fraco.... estava doente.... e algumas mulheres estavam cuidando de sua saúde. Eu, ainda cansado, resolvi dormir mais um pouco.....
De repente, acordo assustado.... as crianças vieram correndo, ofegantes, e gritando: "Os deuses.... os deuses....". Era o mais velho da tribo e na ausência do cacique, pela sua debilitação, vieram me procurar.... e disseram: "Horoé venha até o grande lago.... os deuses estão chegando". Os outros adultos da tribo se reuniram, todos tínhamos a esperança de que estivesse sendo realizada a profecia, e partimos com os pequenos para o local no qual haviam visto os deuses.
E, seguindo as marcas que os pequenos deixaram na areia, chegamos ao grande lago.... todos ficamos surpresos com o que vimos.... sobre a água, uma canoa gigante trazia muitos deuses.... suas peles eram mais claras do que as nossas, e possuíam algo estranho que lhes cobriam o corpo. Estava tão quente, o dia claro e não haviam nuvens no céu...... mas, eram deuses.
Alguns deles desceram para uma canoa menor, e vieram a nós. Próximo a eles, vimos que até os pés estavam cobertos... achamos muitíssimo estranho. Um sujeito com imponente barba se aproximou. Outro, um pouco atrás, mantinha uma pena em movimento sobre uma diferente espécie de folha - não sabíamos de que árvore vinha - onde a pena deixava estranhas marcas.
Não compreendíamos o que falavam, a língua dos deuses era tão diferente, complicada, mas não deixava de ser bela. Ofereceram-nos presentes, alguns destes eram mágicos, as nossas mulheres adoraram.... era uma madeira com a capacidade que só os lagos possuíam, mostravam exatamente como cada um de nós éramos. Certamente eram deuses, só estes poderiam ter tal poder.
Ficaram conosco por alguns dias, pude observá-los e por meio de sinais até nos entendemos. Construíram uma espécie de totem em nossa ilha, e os ajudamos no que foi preciso.... em pouco tempo foram embora; o encontro com os deuses foi a situação mais emocionante que vivi até aquele momento.... vimos sua gigante canoa ir tão longe.... longe..... e, de repente, sumiu nas águas.
Muitas vezes desafiamos as águas do grande lago. Tentamos com nossas canoas chegar a outra margem, mas a água sempre nos empurrava de volta para a areia. Quando isso não acontecia, nossos homens não conseguiam alcançar a outra margem.... muitos não voltavam.... o que nos confirmava que eram de fato deuses.
A vida continuou.... sempre continua. E para nós, não era mais a mesma, afinal havíamos presenciado um fato raro, os deuses vieram em nosso auxílio, e conosco dançaram, comemorando a nossa colheita, a nossa atitude. Voltamos para as atividades com mais afinco - caça, pesca, plantio - cuidando bem da nossa terra, esperávamos poder repetir uma colheita tão boa e ter novamente a companhia dos deuses. Mas uma grande surpresa estava reservada a nós.
Sem esperar, antes de qualquer colheita - não foram necessárias muitas luas - eles voltaram. Como no primeiro dia fomos ao mesmo local recebê-los, estávamos ansiosos para entender o que estava acontecendo. Porque novamente se transformaram em humanos e vieram a nós. Mas.... não eram as mesmas pessoas, somente algumas faces foram reconhecidas, e pensei: "Existem mais deuses do que imaginava".
Vieram muitos e muitos outros, porém desta vez foi diferente. Começaram a nos pegar pelos braços, todos ..... alguns começaram correr atrás de nossas mulheres.... tentávamos defendê-las, e um outro aparelho mágico, muito mais poderoso do que nossas flechas, impedia os que tentavam.... caiam mortos no chão. Mas, porque tal castigo.... o que havíamos feito em tão pouco tempo para sermos machucados e violentados pela irá dos deuses!!! Nossas filhas, mulheres.... nossas crianças, sendo tão maltratadas.... nem a seca mais poderosa, ou a enchente mais devastadora tinha sido capaz de nos ferir tanto. Não tinham razão para isto.
Em pouco tempo começamos a descobrir o que estava acontecendo. Os deuses que eram homens, na verdade não eram deuses. Não sabíamos bem quem eram, não eram índios de tribos conhecidas. Mas eram índios.... brancos. A grande canoa deles ia para outras terras, e sempre voltava.... cada vez com mais pessoas que aqui ficavam, construíam ocas diferentes, feitas de barro e madeira.... alguns eram bons, queriam nos ensinar a cultura e a língua deles, outros nos castigavam e faziam que o nosso e outros povos fizessem coisas para eles, e o açoite era o prêmio para o cansaço.
Em poucas luas, comecei a compreender melhor as coisas. Os "jesuítas" nos ensinavam a língua deles. E nos diziam o que era "a verdade". Falavam que estávamos vivendo em pecado, pela nossa inocência, por desconhecermos o "Deus" deles. Único. Mas que este não jogaria mais pestes se mudássemos nossa atitude.
Mostraram o objeto mais precioso para eles: ouro. Uma pedra brilhante que, para mim, parecia não servir para nada. Nos machucaram muito para falar aonde havia, mas nunca tínhamos visto tal pedra; além do mais, já possuíamos tudo o que preciso.... mandioca, banana, água, animais que eram caçados em nossas terras ou pescados em abundantes rios.... para que mais!!! Mas esta nova tribo era muito estranha... sempre queriam mais e mais, e obrigavam nossos homens a fazer todo o serviço.
A terra que durante muitas luas, ou como diziam, "anos" fora nossa não era mais. Diziam que eram deles. A vinda dos homens que deveriam ser nossos deuses não foi pacífica.... índios brancos nos mataram, nos obrigaram a fazer o que queriam.... e a nossa tristeza foi muito grande. Tivemos que fugir da terra em que vivíamos, deixando os espíritos de nossos antepassados, para nos esconder do poder destruidor deles. Para tentar voltar a nossa antiga vida.
Depois de todo sacrifício começaram a trazer outros índios, de pele escura, negra. E sofreram por nós. Diziam que a nossa tribo não prestava para o trabalho. Nos maltrataram impondo uma vontade que não era nossa e nos chamam de vagabundos. Os presentes preciosos.... quinquilharias.... não pagaram o alto preço da nossa liberdade. O preço que julgaram ser justo pela nossa terra, agora deles; no futuro certamente irão comemorar esta invasão.
E nós, índios, vamos ficar em silêncio.... em sinal de luto. Pois a vossa "descoberta" significou a nossa desgraça. E de muitos outros. Éramos uma terra de deuses, onde entre nós havia respeito e uma verdadeira vida, que o canibalismo dos brancos destruiu em poucos dias.
E foi assim que tudo começou..... e qual será o destino dessa grande ilha, dessa terra.... que hoje se chama Brasil......
Os deuses da natureza nos presentearam de forma jamais vista - o sol forte e vigoroso, sem perder a suavidade, atingia a todos com uma energia uniforme, gerando vida; a chuva se intercalou propiciando a água tão necessária, o nosso maior tesouro, para a saciedade de nossa gente, de nossa terra, plantação e, especialmente, para os espíritos de nossos antepassados. Não tivemos os castigos na forma de secas, geadas ou inundações, que tanto nos afligiram em outras ocasiões.
Nessa noite, nos reunimos para agradecer - o espírito da natureza, os nossos antepassados, o Sol, a chuva - toda prosperidade e segurança que nos foram oferecidos pelos os alimentos que não iriam faltar aos nossos filhos e aos ritos de troca com as tribos vizinhas, o que poderia ocasionar uma situação de guerra entre nossos povos. Agradecer sempre fez parte de nossa cultura, seja em épocas férteis ou nas quais os alimentos não nos vinham em abundância.
No meio da aldeia, o fogo consumia a madeira. Ao redor, nas ocas que compunham a nossa tribo, víamos as mulheres pintando os seus homens e sendo pintadas. Elas passaram o dia inteiro fazendo ornamentos de penas de aves, preparando as tintas e os cestos de palha entrelaçada nos quais iriam os alimentos que representavam a colheita. Os homens costumavam ser os caçadores e ajudavam as mulheres no plantio e nas árduas tarefas do campo. Preparavam as ferramentas, a terra.
Em algumas ocas, as crianças ficavam a espreita tentando observar a preparação do ritual. O ritual da colheita era exclusivo aos adultos. E como não podiam participar ficavam curiosos. Todos os adultos sabiam que eles não conseguiriam ficar dormindo.... já fomos pequenos. Os mais velhos, cujo ingresso na vida adulta estava próxima, ficavam isolados em uma oca afastada, se preparando para as tarefas do ritual da maioridade que estavam por vir. Tudo tem a sua época.
Após o dia de sol claro, os deuses trouxeram uma bela lua.... redonda. Nessa época em que o tempo é mais frio, as folhas caem dos galhos das árvores para que se nasçam belas flores.... as abelhas certamente agradecem essa época. Observava ao mesmo tempo o Sol, a Lua.... sempre estiveram distantes.... lá no céu; deuses que nunca tiveram tempo de descer a terra para comemorar conosco. Mas, sabíamos que o grande dia estava próximo.
Muitas luas atrás, durante um ritual de maioridade dos guará-mirim - antiga tribo de nossos antepassados - o cacique Piroembu recebeu a voz do "espírito da natureza"; este contou ao nosso povo sobre a futura visita dos deuses à nossa terra. Os deuses iriam se transformar em seres, como nós, para poder festejar o dia da grande colheita. Muitos esperaram.... esperaram.... e voltaram para a natureza sem presenciar.
Essa história se manteve conosco por muitas e muitas luas. Aquela tribo cresceu, e nasceram três tribos de descendentes daquela tradição, que proporcionam novos filhos para ambos. Os mais velhos se reuniam com os mais novos, contavam a história e, desta forma, imortalizaram o passado para nós.... continuamos fazendo o mesmo para com nossos filhos.
Passamos a noite inteira dançando. Agradecemos cada um desses filhos que vieram para dar continuidade a nossa família, e que recebiam as lições dos que estavam com muitas luas, cabelos grisalhos, próximos da hora de voltar à natureza. As festividades se estenderam até a fogueira apagar.....
Com os primeiros pássaros, a tribo amanhecia.... estava deitado na rede, e observava a fumaça que ainda saía da fogueira.... as crianças correndo pela aldeia, até que sumiram em direção ao lago de areia. Na oca vizinha a minha, o cacique se encontrava fraco.... estava doente.... e algumas mulheres estavam cuidando de sua saúde. Eu, ainda cansado, resolvi dormir mais um pouco.....
De repente, acordo assustado.... as crianças vieram correndo, ofegantes, e gritando: "Os deuses.... os deuses....". Era o mais velho da tribo e na ausência do cacique, pela sua debilitação, vieram me procurar.... e disseram: "Horoé venha até o grande lago.... os deuses estão chegando". Os outros adultos da tribo se reuniram, todos tínhamos a esperança de que estivesse sendo realizada a profecia, e partimos com os pequenos para o local no qual haviam visto os deuses.
E, seguindo as marcas que os pequenos deixaram na areia, chegamos ao grande lago.... todos ficamos surpresos com o que vimos.... sobre a água, uma canoa gigante trazia muitos deuses.... suas peles eram mais claras do que as nossas, e possuíam algo estranho que lhes cobriam o corpo. Estava tão quente, o dia claro e não haviam nuvens no céu...... mas, eram deuses.
Alguns deles desceram para uma canoa menor, e vieram a nós. Próximo a eles, vimos que até os pés estavam cobertos... achamos muitíssimo estranho. Um sujeito com imponente barba se aproximou. Outro, um pouco atrás, mantinha uma pena em movimento sobre uma diferente espécie de folha - não sabíamos de que árvore vinha - onde a pena deixava estranhas marcas.
Não compreendíamos o que falavam, a língua dos deuses era tão diferente, complicada, mas não deixava de ser bela. Ofereceram-nos presentes, alguns destes eram mágicos, as nossas mulheres adoraram.... era uma madeira com a capacidade que só os lagos possuíam, mostravam exatamente como cada um de nós éramos. Certamente eram deuses, só estes poderiam ter tal poder.
Ficaram conosco por alguns dias, pude observá-los e por meio de sinais até nos entendemos. Construíram uma espécie de totem em nossa ilha, e os ajudamos no que foi preciso.... em pouco tempo foram embora; o encontro com os deuses foi a situação mais emocionante que vivi até aquele momento.... vimos sua gigante canoa ir tão longe.... longe..... e, de repente, sumiu nas águas.
Muitas vezes desafiamos as águas do grande lago. Tentamos com nossas canoas chegar a outra margem, mas a água sempre nos empurrava de volta para a areia. Quando isso não acontecia, nossos homens não conseguiam alcançar a outra margem.... muitos não voltavam.... o que nos confirmava que eram de fato deuses.
A vida continuou.... sempre continua. E para nós, não era mais a mesma, afinal havíamos presenciado um fato raro, os deuses vieram em nosso auxílio, e conosco dançaram, comemorando a nossa colheita, a nossa atitude. Voltamos para as atividades com mais afinco - caça, pesca, plantio - cuidando bem da nossa terra, esperávamos poder repetir uma colheita tão boa e ter novamente a companhia dos deuses. Mas uma grande surpresa estava reservada a nós.
Sem esperar, antes de qualquer colheita - não foram necessárias muitas luas - eles voltaram. Como no primeiro dia fomos ao mesmo local recebê-los, estávamos ansiosos para entender o que estava acontecendo. Porque novamente se transformaram em humanos e vieram a nós. Mas.... não eram as mesmas pessoas, somente algumas faces foram reconhecidas, e pensei: "Existem mais deuses do que imaginava".
Vieram muitos e muitos outros, porém desta vez foi diferente. Começaram a nos pegar pelos braços, todos ..... alguns começaram correr atrás de nossas mulheres.... tentávamos defendê-las, e um outro aparelho mágico, muito mais poderoso do que nossas flechas, impedia os que tentavam.... caiam mortos no chão. Mas, porque tal castigo.... o que havíamos feito em tão pouco tempo para sermos machucados e violentados pela irá dos deuses!!! Nossas filhas, mulheres.... nossas crianças, sendo tão maltratadas.... nem a seca mais poderosa, ou a enchente mais devastadora tinha sido capaz de nos ferir tanto. Não tinham razão para isto.
Em pouco tempo começamos a descobrir o que estava acontecendo. Os deuses que eram homens, na verdade não eram deuses. Não sabíamos bem quem eram, não eram índios de tribos conhecidas. Mas eram índios.... brancos. A grande canoa deles ia para outras terras, e sempre voltava.... cada vez com mais pessoas que aqui ficavam, construíam ocas diferentes, feitas de barro e madeira.... alguns eram bons, queriam nos ensinar a cultura e a língua deles, outros nos castigavam e faziam que o nosso e outros povos fizessem coisas para eles, e o açoite era o prêmio para o cansaço.
Em poucas luas, comecei a compreender melhor as coisas. Os "jesuítas" nos ensinavam a língua deles. E nos diziam o que era "a verdade". Falavam que estávamos vivendo em pecado, pela nossa inocência, por desconhecermos o "Deus" deles. Único. Mas que este não jogaria mais pestes se mudássemos nossa atitude.
Mostraram o objeto mais precioso para eles: ouro. Uma pedra brilhante que, para mim, parecia não servir para nada. Nos machucaram muito para falar aonde havia, mas nunca tínhamos visto tal pedra; além do mais, já possuíamos tudo o que preciso.... mandioca, banana, água, animais que eram caçados em nossas terras ou pescados em abundantes rios.... para que mais!!! Mas esta nova tribo era muito estranha... sempre queriam mais e mais, e obrigavam nossos homens a fazer todo o serviço.
A terra que durante muitas luas, ou como diziam, "anos" fora nossa não era mais. Diziam que eram deles. A vinda dos homens que deveriam ser nossos deuses não foi pacífica.... índios brancos nos mataram, nos obrigaram a fazer o que queriam.... e a nossa tristeza foi muito grande. Tivemos que fugir da terra em que vivíamos, deixando os espíritos de nossos antepassados, para nos esconder do poder destruidor deles. Para tentar voltar a nossa antiga vida.
Depois de todo sacrifício começaram a trazer outros índios, de pele escura, negra. E sofreram por nós. Diziam que a nossa tribo não prestava para o trabalho. Nos maltrataram impondo uma vontade que não era nossa e nos chamam de vagabundos. Os presentes preciosos.... quinquilharias.... não pagaram o alto preço da nossa liberdade. O preço que julgaram ser justo pela nossa terra, agora deles; no futuro certamente irão comemorar esta invasão.
E nós, índios, vamos ficar em silêncio.... em sinal de luto. Pois a vossa "descoberta" significou a nossa desgraça. E de muitos outros. Éramos uma terra de deuses, onde entre nós havia respeito e uma verdadeira vida, que o canibalismo dos brancos destruiu em poucos dias.
E foi assim que tudo começou..... e qual será o destino dessa grande ilha, dessa terra.... que hoje se chama Brasil......
domingo, 13 de abril de 2008
Efeito oásis
Povo brasileiro. Perdoem a minha ironia, estou revoltado com o progresso do mundo. Explico: Antigamente, a ilusão de óptica era restrita aos deuses. A física não existia. E com ela não haviam explicações para os fenômenos que hipnotizavam os homens, ingênuos na sua constatação; verdadeiros por serem visíveis.
Mudam-se os tempos, e com eles as "ilusões". Há quase um século, Einstein abalava os alicerces do mundo conhecido com a Teoria da Relatividade. Mas, mesmo ele, se pudesse prever o futuro, não poderia dizer o quão relativo este iria se tornar. Pobres homens.
A palavra mais exata para definir as novas ilusões: Enganação. Hoje, os corpos apolíneos são delineados pelo bisturi do cirurgião "plástico"... colocam plástico ali, tiram banha daqui. Peitos e bundas, quando são belos, não o são por natureza. Lei da sobrevivência.
Fora os meninos, anabolizados, com peito de pombo, que só faltam ciscar o chão para demonstrar a sua imbecilidade. Como se não soubessem que uma bexiga de gás hélio fica murcha em poucas horas. O efeito é o mesmo, e depois ficam deprimidos pelo que foram e que nunca voltarão a ser. A menos que busquem a beleza a qualquer custo e a morte venha como conseqüência.
Todos querem ser belos. E o momento é já, agora!!! Ninguém quer esperar muito tempo. Esforço.... humm!!! Mesmo as pessoas que se prezam, não conquistam a beleza através deste. A lei do esforço parece ser para os ingênuos dos nossos tempos. Imbecis são aqueles que procuram conquistas no sacrifício. Bem-vindo ao mundo dos "Gersons".
E assim como o oásis some nas tempestades do deserto, com suas ambicionadas águas construídas pela imaginação, tais pessoas, são tão reais como estes. Mas uma só é a verdade: "Não podemos confiar em nossos olhos". E tal constatação, apesar de óbvia, demorou a me atingir. Dentro de casa, o mundo real é mais imaginário do que todas as imaginações possíveis.
Foi somente numa dessas noites, na boêmia proporcionada por São Paulo e desconhecida para mim, que a inspiração deste texto surgiu. Alguns amigos me arrastaram para fora do meu "recanto". E, apesar da minha indisposição, não me arrependi; o bar era agradável e as mulheres, muito bonitas. Comentei a beleza de uma mulher que passava a um amigo e ele me disse:
- "Essa é pré-fabricada".
- "O que!?! Pré-fabricada, o que é isso?!" - respondi ingenuamente.
- "Mulher pré-fabricada, é aquela que só é bela após uma super produção" - respondeu-me pacientemente. E me ensinou os mandamentos da vida noturna, complementos da teoria do efeito oásis.
- "Amigo, o ditado que ouviu toda a vida é verdadeiro - na noite todos os gatos, gatas são pardos. A mais terrível mocréia pode se tornar na mais bela princesa" - afirmou numa obviedade que me fez parecer estúpido. E continuou:
- "É claro que um ambiente escuro, uma super produção, e a ajuda do amigo rei das ilusões, álcool, ajudam a mudar toda e qualquer perspectiva. Principalmente para as mais pobres que não tem condições de ser transformarem pela cirurgia". E confessou:
- "O efeito oásis já se manifestou comigo. Estava alcoolizado e fiquei com uma garota supostamente linda. Até me gabei para os amigos. E quando a encontrei, meu Deus do céu... o filhote do satanás seria mais belo".
Passamos a noite inteira no debate fervoroso sobre a aparência, e muitos foram os causos. E também as descobertas dos truques de beleza. Coisa boiola, né? Mas essenciais para não sermos enganados. Afinal, a tecnologia aliada com a criatividade pode transformar tudo. Bundas que são de espuma, vestida em calcinhas, ou mesmo os sutiãs com enchimento, o famoso "wonder bra" - sutiã maravilha - que transformam o que não existe em fantasia. Cremes especiais que escondem as marcas de espinha; enfim, uma infinidade de recursos. Difícil de escapar.
Mas pior é a maneira como nos empurram tais conceitos. Meios de comunicação. Todos os artistas promovem tal perfeição. A exigência de sermos belos. E acabamos sendo jogados em duas categorias - frustrados e não frustrados. Aqueles que aceitam as suas imperfeições (adoro as minhas gordurinhas) e os que se sentem incomodados pelo fato de serem iguais aos outros, mas ainda não terem usado tais recursos.
Já vejo o futuro. Notícias nos jornais: "Extra, extra.... artista "X" afirma que o seu seio é de verdade". Todos irão duvidar. Sou mais um seio de verdade na mão do que um de plástico recauchutado. É triste ver que nessa nova lei da natureza para se perpetuar a espécie, vale absolutamente tudo. Que vivam as suas ilusões de "serem", continuarei no meu mundinho.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
O grande artista
Ao entardecer
Deus sai de sua toca
Em suas mãos - palhetas, tintas, pincéis
Em sua mente - inspiração
Inicia sua arte, e o céu azul
Começa a se transformar
As nuvens, antes brancas, pela mágica
Se tornam laranja, rosa.
No limiar terra e céu, o negro poder
A força dos deuses da mãe África
O sol cai, se esconde
Do outro lado, surge a lua
Trazendo a escuridão, e com sua beleza
Soberana fortalece nossos sonhos
Neste momento, resquícios de luz e vida
Poeticidade em tinta
Aguardando outro luar.
Deus sai de sua toca
Em suas mãos - palhetas, tintas, pincéis
Em sua mente - inspiração
Inicia sua arte, e o céu azul
Começa a se transformar
As nuvens, antes brancas, pela mágica
Se tornam laranja, rosa.
No limiar terra e céu, o negro poder
A força dos deuses da mãe África
O sol cai, se esconde
Do outro lado, surge a lua
Trazendo a escuridão, e com sua beleza
Soberana fortalece nossos sonhos
Neste momento, resquícios de luz e vida
Poeticidade em tinta
Aguardando outro luar.
terça-feira, 1 de abril de 2008
A boneca de uma vida inteira
As velhas paredes acusavam sinais de outras épocas. Naquele edifício, de aspecto colonial, muitas histórias se escondiam. Eram os olhos dos amantes ou a tristeza do pedreiro com a terra prometida: "Será que havia mérito em ter abandonado a santa terra pelo ouro paulista?". Até aquele momento, não.
Sensações confusas... prazer e ódio.... imagens do passado. Corpos nus dos que desafiavam a época, dos que se entregavam ao amor quando tais pecados eram realmente mortais. Quando a honra era defendida com sangue e o corpo inerte do pecador. A dignidade prevalecia na aparência - sórdidas eram as verdades na essência. Mas, quem poderia contestar?
Das imagens guardadas nesse prédio, pude rever diversos operários estrangeiros que vieram construir a nossa cidade - hoje, insuportável. Essa pensão, onde muitos viviam de forma subumana, estava ao redor da velha fábrica têxtil onde muitos de nossos antepassados trabalharam. Sim... a vida era muito difícil. E o futuro agradece àqueles que possilitaram a mudança, o progresso. Particularmente, agradeço as imagens do meu bisavô sofrendo pela educação e comida. Afinal, somos a resultante da somatória do passado de muitos... e estamos vivos. Essa é a maior das graças. O que mais me marcou foi a história de um daqueles pobres funcionários, um espanhol que guardou em sua memória uma promessa que nunca iria esquecer, e que agora vou lhes contar.
Era uma quarta-feira de um mês de novembro de 1939. Toda vez que José passava em frente a uma loja de brinquedos na rua Frei Caneca, sua filhinha, Inês, pedia-lhe aquela boneca que tanto encantava. Era uma boneca cara, de porcelana, com ornamentos em fios de ouro, que enfeitiçava a menina. Todas as manhãs, no trajeto ao colégio, seus olhos suplicavam por aquela que não seria apenas mais uma boneca, mas uma filha.
O exausto pai colecionava calos, cansaço e dores.. e a boneca não lhe era possível naquele momento. A vida demandava as necessidades primárias. Sonhos, desejos e outras imaginações não eram possíveis.
-"Minha filhinha, o papai promete que, um dia, lhe presenteará com tudo o que você merece". A tristeza nos olhos da menina só não era maior do que a dele. A vida era dura na Espanha, mas podia se dar a alguns luxos que não encontrava no Brasil.
Os dias passaram. Continuou na labuta pelo alimento. A filha foi crescendo. Estudou... trabalhou.... casou, e constituiu a sua família. Intimamente sabia ter sido uma vencedora, e o pouco que possuía era muito mais do que todos os sonhos do pai durante a sua vida. E a ele dedicava tudo o que tinha, que a vida pode proporcionar.
Na sua festa de aniversário, cerca de trinta anos após o evento, um episódio dos mais felizes, e ao mesmo tempo, tristes aconteceu.
- "Filha....um dia lhe fiz uma promessa e hoje vou cumpri-la".
Inês não entendia do que falava. Foram muitos anos... fatos e eventos.... para se lembrar da palavra do pai.
- "Promessa, pai??? Que promessa... não me lembro!!!".
Seu José estendeu-lhe um pacote belamente embrulhado. Inês estranhou a atitude do pai. O que haveria de especial naquele pacote!!! O que teria a ver com a promessa? Abriu-no com dificuldade devido a ansiedade. E, quando viu o presente, colocou-se em prantos... chorando compulsivamente.
- "Filhinha.... me desculpe por um arranhão ou outro... comprei essa boneca, mandei reformar para ficar igualzinha como era no passado". Respirou profundamente, faltava-lhe o ar com tamanha emoção.
- "Hoje sinto-me realizado... feliz... consegui cumprir com a minha palavra... fazer aquilo que a tanto tempo queria e não tinha como". E continuou:
- "Não tive uma vida próspera como esperava, não alcancei muito dos meus objetivos. E uma boneca, que procurei por mais de 20 anos... me trouxe essa felicidade. Me perdoe por ter demorando tanto, Inês".
Inês deu-me um abraço como nunca havia dado. Sabia que seu pai era uma pessoa tímida, que se constrangia com essas demonstrações de afeto. E foi correndo para a cozinha mostrar para sua mãe o presente que havia ganhado. Sua família, suas filhas e marido, ficaram reunidos ao redor do fogão conhecendo a verdadeira história daquela boneca. Na sala, o velho José sentou na sua poltrona e lá ficou.
Pouco mais tarde, descobriram ele ascendeu ao céu. Nos olhos dos familiares, as lágrimas escorriam diante da certeza de que ele havia se mantido vivo para ver sua promessa realizada, e a triste felicidade de saber que o pai, avô... havia morrido em paz.
Sensações confusas... prazer e ódio.... imagens do passado. Corpos nus dos que desafiavam a época, dos que se entregavam ao amor quando tais pecados eram realmente mortais. Quando a honra era defendida com sangue e o corpo inerte do pecador. A dignidade prevalecia na aparência - sórdidas eram as verdades na essência. Mas, quem poderia contestar?
Das imagens guardadas nesse prédio, pude rever diversos operários estrangeiros que vieram construir a nossa cidade - hoje, insuportável. Essa pensão, onde muitos viviam de forma subumana, estava ao redor da velha fábrica têxtil onde muitos de nossos antepassados trabalharam. Sim... a vida era muito difícil. E o futuro agradece àqueles que possilitaram a mudança, o progresso. Particularmente, agradeço as imagens do meu bisavô sofrendo pela educação e comida. Afinal, somos a resultante da somatória do passado de muitos... e estamos vivos. Essa é a maior das graças. O que mais me marcou foi a história de um daqueles pobres funcionários, um espanhol que guardou em sua memória uma promessa que nunca iria esquecer, e que agora vou lhes contar.
Era uma quarta-feira de um mês de novembro de 1939. Toda vez que José passava em frente a uma loja de brinquedos na rua Frei Caneca, sua filhinha, Inês, pedia-lhe aquela boneca que tanto encantava. Era uma boneca cara, de porcelana, com ornamentos em fios de ouro, que enfeitiçava a menina. Todas as manhãs, no trajeto ao colégio, seus olhos suplicavam por aquela que não seria apenas mais uma boneca, mas uma filha.
O exausto pai colecionava calos, cansaço e dores.. e a boneca não lhe era possível naquele momento. A vida demandava as necessidades primárias. Sonhos, desejos e outras imaginações não eram possíveis.
-"Minha filhinha, o papai promete que, um dia, lhe presenteará com tudo o que você merece". A tristeza nos olhos da menina só não era maior do que a dele. A vida era dura na Espanha, mas podia se dar a alguns luxos que não encontrava no Brasil.
Os dias passaram. Continuou na labuta pelo alimento. A filha foi crescendo. Estudou... trabalhou.... casou, e constituiu a sua família. Intimamente sabia ter sido uma vencedora, e o pouco que possuía era muito mais do que todos os sonhos do pai durante a sua vida. E a ele dedicava tudo o que tinha, que a vida pode proporcionar.
Na sua festa de aniversário, cerca de trinta anos após o evento, um episódio dos mais felizes, e ao mesmo tempo, tristes aconteceu.
- "Filha....um dia lhe fiz uma promessa e hoje vou cumpri-la".
Inês não entendia do que falava. Foram muitos anos... fatos e eventos.... para se lembrar da palavra do pai.
- "Promessa, pai??? Que promessa... não me lembro!!!".
Seu José estendeu-lhe um pacote belamente embrulhado. Inês estranhou a atitude do pai. O que haveria de especial naquele pacote!!! O que teria a ver com a promessa? Abriu-no com dificuldade devido a ansiedade. E, quando viu o presente, colocou-se em prantos... chorando compulsivamente.
- "Filhinha.... me desculpe por um arranhão ou outro... comprei essa boneca, mandei reformar para ficar igualzinha como era no passado". Respirou profundamente, faltava-lhe o ar com tamanha emoção.
- "Hoje sinto-me realizado... feliz... consegui cumprir com a minha palavra... fazer aquilo que a tanto tempo queria e não tinha como". E continuou:
- "Não tive uma vida próspera como esperava, não alcancei muito dos meus objetivos. E uma boneca, que procurei por mais de 20 anos... me trouxe essa felicidade. Me perdoe por ter demorando tanto, Inês".
Inês deu-me um abraço como nunca havia dado. Sabia que seu pai era uma pessoa tímida, que se constrangia com essas demonstrações de afeto. E foi correndo para a cozinha mostrar para sua mãe o presente que havia ganhado. Sua família, suas filhas e marido, ficaram reunidos ao redor do fogão conhecendo a verdadeira história daquela boneca. Na sala, o velho José sentou na sua poltrona e lá ficou.
Pouco mais tarde, descobriram ele ascendeu ao céu. Nos olhos dos familiares, as lágrimas escorriam diante da certeza de que ele havia se mantido vivo para ver sua promessa realizada, e a triste felicidade de saber que o pai, avô... havia morrido em paz.
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