Maldita solidão. Mais uma noite de Carnaval. Observo ao meu redor o despertar dos mais diferentes sentimentos - uns, se perdem na esbórnia sazonal, outros, antigos pecadores, se isolam em retiros espirituais tentando fugir das tentações do mundo.
Sou invisível. Seria diferente se não fosse assim. Um anjo não se pode apresentar ao mundo, deve permanecer recluso e atento às necessidades das pessoas. Estou sempre em alerta. No Carnaval existe o risco das pessoas se transformarem mais do que seria permitido. Não há nada de mal em deixar a liberdade trazer a alegria... nessa época, executivos, juízes, professores, se transformam em seres que a liberdade constrói. Se divertir não é pecado, pecado é deixar de viver.
O juiz "marajá" é o diabo condenatório cuja sentença pode martirizar o mundo, e o tridente espeta a bunda dos foliões. Os pobres costumam ser as vítimas nos outros dias. Porém, sorri com o bolso gordo pelas suas conquistas. A desigualdade que nos faz brasileiros.
Os pobres também tem a sua chance. A riqueza, o deslumbre das fantasias tornam-no especial, mesmo que seja apenas por um dia. No sambódromo, o mundo pode vê-lo. E após o desfile volta ao anonimato de sempre, esperando o outro Carnaval para poder ser "rei".
Distante da sensação de me julgar uma divindade benigna ou maligna - não sou superior a ninguém. Que me perdoem os céus. Sinto a solidão das pessoas, mesmo num grande salão de festa... numa grande cidade... rodeado de pessoas. Um vazio me completa. Algo tão efêmero não pode perdurar mais de alguns segundos, e isso é triste. O significado se perde, os instintos aparecem.
Ao redor, mulheres nuas sendo assediadas pelos tarados de ocasião. O meu olho observava cada detalhe. Uma lágrima misturada com suor escorria a face da namorada de um briguento. Ela carregava decepção e vergonha. O Carnaval estava morto. Muito diferente da alegria que sentira no ano anterior, na Bahia, seguindo o trio-elétrico com as amigas. Onde os beijos rolavam soltos. E eram outros os sentimentos desses mesmos olhos; a sensação imortalizava o amor pelo Carnaval, nossa festa popular, mais popular do que todas as outras. Onde todos, irrestritamente se envolvem... pelo menos uma vez na vida.
No camarote dessa mesma casa noturna, prostitutas de ocasião. Umas contratadas para exibir os corpos e atrair os homens. Isso justificava o alto preço da entrada, e a quantidade excessiva de homens. Algumas mulheres eram assediadas como se fossem uma "dessas" mulheres. E as cameras de televisão passavam pelas suas faces, envergonhadas, exibindo outra das falsidades ideológicas que podem existir no Carnaval.
Uma dessas prostitutas, podia ler em seus olhos, dançava sensualmente mas estava extremamente triste. Apesar de ninguém saber, era a primeira vez que fazia aquilo. Em casa, o pai doente era a sua única preocupação. No camarote fingia ser uma das iguais - com o mesmo despudor - porém, sua alma dizia a quem podia enxergar. Essa era a única alternativa.
Em cada um dos lugares que viajei, sendo o anjo que acompanha as pessoas, tentei ajudá-las a se descobrirem. Presenciei os vôos aos sentimentos de atração, carinho e amor. Também senti suas tristezas e decepções. Todos esses sentimentos existem nos céus e infernos que se criam nos carnavais. Seja nos tempos passados ou futuros, eles foram e se repetirão. E eu, na solidão invisível de ser um anjo, estou presente nas festas profanas, pois na reunião de duas ou mais almas, sempre lá devemos estar.
Quarta-feira de cinzas. Nas suas diferenças semelhantes, se alternam os personagens e histórias, e o Carnaval se despede. No próximo ano tem mais. Sempre haverá. Nos encontramos no próximo, até mais.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
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