domingo, 20 de abril de 2008

A invasão dos deuses brancos

Na grande ilha, os lobos-guarás homenageavam o céu estrelado e enluarado. A floresta e seus espíritos regozijavam os novos ventos - esses, que sempre vieram do lago de areia, estavam invertidos. Nunca havia visto o vento que sopra da montanha. Sinal dos deuses. As árvores choravam o orvalho na terra que iriam nutri-la após a longa noite. Acordando saciada pelo descanso, e preparada para a nova batalha. Essa mesma batalha que acabou de ser vencida: a maior de todas as colheitas.

Os deuses da natureza nos presentearam de forma jamais vista - o sol forte e vigoroso, sem perder a suavidade, atingia a todos com uma energia uniforme, gerando vida; a chuva se intercalou propiciando a água tão necessária, o nosso maior tesouro, para a saciedade de nossa gente, de nossa terra, plantação e, especialmente, para os espíritos de nossos antepassados. Não tivemos os castigos na forma de secas, geadas ou inundações, que tanto nos afligiram em outras ocasiões.

Nessa noite, nos reunimos para agradecer - o espírito da natureza, os nossos antepassados, o Sol, a chuva - toda prosperidade e segurança que nos foram oferecidos pelos os alimentos que não iriam faltar aos nossos filhos e aos ritos de troca com as tribos vizinhas, o que poderia ocasionar uma situação de guerra entre nossos povos. Agradecer sempre fez parte de nossa cultura, seja em épocas férteis ou nas quais os alimentos não nos vinham em abundância.

No meio da aldeia, o fogo consumia a madeira. Ao redor, nas ocas que compunham a nossa tribo, víamos as mulheres pintando os seus homens e sendo pintadas. Elas passaram o dia inteiro fazendo ornamentos de penas de aves, preparando as tintas e os cestos de palha entrelaçada nos quais iriam os alimentos que representavam a colheita. Os homens costumavam ser os caçadores e ajudavam as mulheres no plantio e nas árduas tarefas do campo. Preparavam as ferramentas, a terra.

Em algumas ocas, as crianças ficavam a espreita tentando observar a preparação do ritual. O ritual da colheita era exclusivo aos adultos. E como não podiam participar ficavam curiosos. Todos os adultos sabiam que eles não conseguiriam ficar dormindo.... já fomos pequenos. Os mais velhos, cujo ingresso na vida adulta estava próxima, ficavam isolados em uma oca afastada, se preparando para as tarefas do ritual da maioridade que estavam por vir. Tudo tem a sua época.
Após o dia de sol claro, os deuses trouxeram uma bela lua.... redonda. Nessa época em que o tempo é mais frio, as folhas caem dos galhos das árvores para que se nasçam belas flores.... as abelhas certamente agradecem essa época. Observava ao mesmo tempo o Sol, a Lua.... sempre estiveram distantes.... lá no céu; deuses que nunca tiveram tempo de descer a terra para comemorar conosco. Mas, sabíamos que o grande dia estava próximo.

Muitas luas atrás, durante um ritual de maioridade dos guará-mirim - antiga tribo de nossos antepassados - o cacique Piroembu recebeu a voz do "espírito da natureza"; este contou ao nosso povo sobre a futura visita dos deuses à nossa terra. Os deuses iriam se transformar em seres, como nós, para poder festejar o dia da grande colheita. Muitos esperaram.... esperaram.... e voltaram para a natureza sem presenciar.

Essa história se manteve conosco por muitas e muitas luas. Aquela tribo cresceu, e nasceram três tribos de descendentes daquela tradição, que proporcionam novos filhos para ambos. Os mais velhos se reuniam com os mais novos, contavam a história e, desta forma, imortalizaram o passado para nós.... continuamos fazendo o mesmo para com nossos filhos.

Passamos a noite inteira dançando. Agradecemos cada um desses filhos que vieram para dar continuidade a nossa família, e que recebiam as lições dos que estavam com muitas luas, cabelos grisalhos, próximos da hora de voltar à natureza. As festividades se estenderam até a fogueira apagar.....

Com os primeiros pássaros, a tribo amanhecia.... estava deitado na rede, e observava a fumaça que ainda saía da fogueira.... as crianças correndo pela aldeia, até que sumiram em direção ao lago de areia. Na oca vizinha a minha, o cacique se encontrava fraco.... estava doente.... e algumas mulheres estavam cuidando de sua saúde. Eu, ainda cansado, resolvi dormir mais um pouco.....

De repente, acordo assustado.... as crianças vieram correndo, ofegantes, e gritando: "Os deuses.... os deuses....". Era o mais velho da tribo e na ausência do cacique, pela sua debilitação, vieram me procurar.... e disseram: "Horoé venha até o grande lago.... os deuses estão chegando". Os outros adultos da tribo se reuniram, todos tínhamos a esperança de que estivesse sendo realizada a profecia, e partimos com os pequenos para o local no qual haviam visto os deuses.
E, seguindo as marcas que os pequenos deixaram na areia, chegamos ao grande lago.... todos ficamos surpresos com o que vimos.... sobre a água, uma canoa gigante trazia muitos deuses.... suas peles eram mais claras do que as nossas, e possuíam algo estranho que lhes cobriam o corpo. Estava tão quente, o dia claro e não haviam nuvens no céu...... mas, eram deuses.

Alguns deles desceram para uma canoa menor, e vieram a nós. Próximo a eles, vimos que até os pés estavam cobertos... achamos muitíssimo estranho. Um sujeito com imponente barba se aproximou. Outro, um pouco atrás, mantinha uma pena em movimento sobre uma diferente espécie de folha - não sabíamos de que árvore vinha - onde a pena deixava estranhas marcas.
Não compreendíamos o que falavam, a língua dos deuses era tão diferente, complicada, mas não deixava de ser bela. Ofereceram-nos presentes, alguns destes eram mágicos, as nossas mulheres adoraram.... era uma madeira com a capacidade que só os lagos possuíam, mostravam exatamente como cada um de nós éramos. Certamente eram deuses, só estes poderiam ter tal poder.

Ficaram conosco por alguns dias, pude observá-los e por meio de sinais até nos entendemos. Construíram uma espécie de totem em nossa ilha, e os ajudamos no que foi preciso.... em pouco tempo foram embora; o encontro com os deuses foi a situação mais emocionante que vivi até aquele momento.... vimos sua gigante canoa ir tão longe.... longe..... e, de repente, sumiu nas águas.

Muitas vezes desafiamos as águas do grande lago. Tentamos com nossas canoas chegar a outra margem, mas a água sempre nos empurrava de volta para a areia. Quando isso não acontecia, nossos homens não conseguiam alcançar a outra margem.... muitos não voltavam.... o que nos confirmava que eram de fato deuses.

A vida continuou.... sempre continua. E para nós, não era mais a mesma, afinal havíamos presenciado um fato raro, os deuses vieram em nosso auxílio, e conosco dançaram, comemorando a nossa colheita, a nossa atitude. Voltamos para as atividades com mais afinco - caça, pesca, plantio - cuidando bem da nossa terra, esperávamos poder repetir uma colheita tão boa e ter novamente a companhia dos deuses. Mas uma grande surpresa estava reservada a nós.
Sem esperar, antes de qualquer colheita - não foram necessárias muitas luas - eles voltaram. Como no primeiro dia fomos ao mesmo local recebê-los, estávamos ansiosos para entender o que estava acontecendo. Porque novamente se transformaram em humanos e vieram a nós. Mas.... não eram as mesmas pessoas, somente algumas faces foram reconhecidas, e pensei: "Existem mais deuses do que imaginava".

Vieram muitos e muitos outros, porém desta vez foi diferente. Começaram a nos pegar pelos braços, todos ..... alguns começaram correr atrás de nossas mulheres.... tentávamos defendê-las, e um outro aparelho mágico, muito mais poderoso do que nossas flechas, impedia os que tentavam.... caiam mortos no chão. Mas, porque tal castigo.... o que havíamos feito em tão pouco tempo para sermos machucados e violentados pela irá dos deuses!!! Nossas filhas, mulheres.... nossas crianças, sendo tão maltratadas.... nem a seca mais poderosa, ou a enchente mais devastadora tinha sido capaz de nos ferir tanto. Não tinham razão para isto.

Em pouco tempo começamos a descobrir o que estava acontecendo. Os deuses que eram homens, na verdade não eram deuses. Não sabíamos bem quem eram, não eram índios de tribos conhecidas. Mas eram índios.... brancos. A grande canoa deles ia para outras terras, e sempre voltava.... cada vez com mais pessoas que aqui ficavam, construíam ocas diferentes, feitas de barro e madeira.... alguns eram bons, queriam nos ensinar a cultura e a língua deles, outros nos castigavam e faziam que o nosso e outros povos fizessem coisas para eles, e o açoite era o prêmio para o cansaço.

Em poucas luas, comecei a compreender melhor as coisas. Os "jesuítas" nos ensinavam a língua deles. E nos diziam o que era "a verdade". Falavam que estávamos vivendo em pecado, pela nossa inocência, por desconhecermos o "Deus" deles. Único. Mas que este não jogaria mais pestes se mudássemos nossa atitude.

Mostraram o objeto mais precioso para eles: ouro. Uma pedra brilhante que, para mim, parecia não servir para nada. Nos machucaram muito para falar aonde havia, mas nunca tínhamos visto tal pedra; além do mais, já possuíamos tudo o que preciso.... mandioca, banana, água, animais que eram caçados em nossas terras ou pescados em abundantes rios.... para que mais!!! Mas esta nova tribo era muito estranha... sempre queriam mais e mais, e obrigavam nossos homens a fazer todo o serviço.

A terra que durante muitas luas, ou como diziam, "anos" fora nossa não era mais. Diziam que eram deles. A vinda dos homens que deveriam ser nossos deuses não foi pacífica.... índios brancos nos mataram, nos obrigaram a fazer o que queriam.... e a nossa tristeza foi muito grande. Tivemos que fugir da terra em que vivíamos, deixando os espíritos de nossos antepassados, para nos esconder do poder destruidor deles. Para tentar voltar a nossa antiga vida.

Depois de todo sacrifício começaram a trazer outros índios, de pele escura, negra. E sofreram por nós. Diziam que a nossa tribo não prestava para o trabalho. Nos maltrataram impondo uma vontade que não era nossa e nos chamam de vagabundos. Os presentes preciosos.... quinquilharias.... não pagaram o alto preço da nossa liberdade. O preço que julgaram ser justo pela nossa terra, agora deles; no futuro certamente irão comemorar esta invasão.
E nós, índios, vamos ficar em silêncio.... em sinal de luto. Pois a vossa "descoberta" significou a nossa desgraça. E de muitos outros. Éramos uma terra de deuses, onde entre nós havia respeito e uma verdadeira vida, que o canibalismo dos brancos destruiu em poucos dias.

E foi assim que tudo começou..... e qual será o destino dessa grande ilha, dessa terra.... que hoje se chama Brasil......

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