terça-feira, 1 de abril de 2008

A boneca de uma vida inteira

As velhas paredes acusavam sinais de outras épocas. Naquele edifício, de aspecto colonial, muitas histórias se escondiam. Eram os olhos dos amantes ou a tristeza do pedreiro com a terra prometida: "Será que havia mérito em ter abandonado a santa terra pelo ouro paulista?". Até aquele momento, não.

Sensações confusas... prazer e ódio.... imagens do passado. Corpos nus dos que desafiavam a época, dos que se entregavam ao amor quando tais pecados eram realmente mortais. Quando a honra era defendida com sangue e o corpo inerte do pecador. A dignidade prevalecia na aparência - sórdidas eram as verdades na essência. Mas, quem poderia contestar?

Das imagens guardadas nesse prédio, pude rever diversos operários estrangeiros que vieram construir a nossa cidade - hoje, insuportável. Essa pensão, onde muitos viviam de forma subumana, estava ao redor da velha fábrica têxtil onde muitos de nossos antepassados trabalharam. Sim... a vida era muito difícil. E o futuro agradece àqueles que possilitaram a mudança, o progresso. Particularmente, agradeço as imagens do meu bisavô sofrendo pela educação e comida. Afinal, somos a resultante da somatória do passado de muitos... e estamos vivos. Essa é a maior das graças. O que mais me marcou foi a história de um daqueles pobres funcionários, um espanhol que guardou em sua memória uma promessa que nunca iria esquecer, e que agora vou lhes contar.

Era uma quarta-feira de um mês de novembro de 1939. Toda vez que José passava em frente a uma loja de brinquedos na rua Frei Caneca, sua filhinha, Inês, pedia-lhe aquela boneca que tanto encantava. Era uma boneca cara, de porcelana, com ornamentos em fios de ouro, que enfeitiçava a menina. Todas as manhãs, no trajeto ao colégio, seus olhos suplicavam por aquela que não seria apenas mais uma boneca, mas uma filha.

O exausto pai colecionava calos, cansaço e dores.. e a boneca não lhe era possível naquele momento. A vida demandava as necessidades primárias. Sonhos, desejos e outras imaginações não eram possíveis.

-"Minha filhinha, o papai promete que, um dia, lhe presenteará com tudo o que você merece". A tristeza nos olhos da menina só não era maior do que a dele. A vida era dura na Espanha, mas podia se dar a alguns luxos que não encontrava no Brasil.

Os dias passaram. Continuou na labuta pelo alimento. A filha foi crescendo. Estudou... trabalhou.... casou, e constituiu a sua família. Intimamente sabia ter sido uma vencedora, e o pouco que possuía era muito mais do que todos os sonhos do pai durante a sua vida. E a ele dedicava tudo o que tinha, que a vida pode proporcionar.

Na sua festa de aniversário, cerca de trinta anos após o evento, um episódio dos mais felizes, e ao mesmo tempo, tristes aconteceu.

- "Filha....um dia lhe fiz uma promessa e hoje vou cumpri-la".

Inês não entendia do que falava. Foram muitos anos... fatos e eventos.... para se lembrar da palavra do pai.

- "Promessa, pai??? Que promessa... não me lembro!!!".

Seu José estendeu-lhe um pacote belamente embrulhado. Inês estranhou a atitude do pai. O que haveria de especial naquele pacote!!! O que teria a ver com a promessa? Abriu-no com dificuldade devido a ansiedade. E, quando viu o presente, colocou-se em prantos... chorando compulsivamente.

- "Filhinha.... me desculpe por um arranhão ou outro... comprei essa boneca, mandei reformar para ficar igualzinha como era no passado". Respirou profundamente, faltava-lhe o ar com tamanha emoção.

- "Hoje sinto-me realizado... feliz... consegui cumprir com a minha palavra... fazer aquilo que a tanto tempo queria e não tinha como". E continuou:

- "Não tive uma vida próspera como esperava, não alcancei muito dos meus objetivos. E uma boneca, que procurei por mais de 20 anos... me trouxe essa felicidade. Me perdoe por ter demorando tanto, Inês".

Inês deu-me um abraço como nunca havia dado. Sabia que seu pai era uma pessoa tímida, que se constrangia com essas demonstrações de afeto. E foi correndo para a cozinha mostrar para sua mãe o presente que havia ganhado. Sua família, suas filhas e marido, ficaram reunidos ao redor do fogão conhecendo a verdadeira história daquela boneca. Na sala, o velho José sentou na sua poltrona e lá ficou.

Pouco mais tarde, descobriram ele ascendeu ao céu. Nos olhos dos familiares, as lágrimas escorriam diante da certeza de que ele havia se mantido vivo para ver sua promessa realizada, e a triste felicidade de saber que o pai, avô... havia morrido em paz.

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