sábado, 26 de abril de 2008

A saga dos 2000 anos

Bug. Computadores. Com o clima de tensão e muita expectativa, o ano 2000 está se aproximando. Como proclamado "De 1000 passarás e 2000 não chegarás", muitos temem pelo pior. Sou um deles. Justificado ou não esse medo, só o destino poderá comprovar.

Último dia de 1999. O sol machuca a pele no litoral paulista, Praia Grande; único local onde os trocados poderiam suprir os gastos necessários - nada de Paris, Roma ou Nova York. Quem sabe na próxima encarnação, se o planeta ainda existir, venha comemorar a virada dos 2999. Penso: Qual será o problema que a civilização enfrentará!!!! Certamente existirá.... será uma doença incurável, a escravidão para povos alienigenas ou a inesperada era de paz e tranquilidade conseguirá efetivamente tocar o espírito humano, deixando-o nobre às atitudes e diferenças, se é que existirá diferença!!!

Outro pensamento surgiu a cabeça, fato raro; poderemos nem chegar ao tão esperado ano. Na televisão podíamos ver que já era ano 2000 na Nova Zelândia, 13 horas antes.... e se o Bug afetar uma usina atômica na Rússia, ou mísseis de bases indianas ou alemãs. O questionamento que não parecia ter sido feito me preocupava profundamente. Nem os poderosos norte-americanos presenciariam - e nós, terceiro mundo latino-americano estaríamos em pé de igualdade neste último segundo.

As horas foram passando. Vimos apresentações folclóricas e comemorações em quase todos os países do mundo - Filipinas, Malásia, Indía... até Israel.... deveria ser o fim-do-mundo... nem eles quiseram perder a festa, mesmo estando milenios distante de nós, no ano 5000 e cassetada. A hora passou pela Alemanha.... UFA!!! Fiquei mais tranquilo. E sentindo arder a pele por ter me exposto muito ao Sol - umas garotas foram conversar comigo, e como bom cavalheiro, não recusei bate-papo (nada melhor para o ego) - Não eram bonitas mas falavam coisas engraçadas. Acharam que a minha irmã mais nova, de 15 anos, estava gravida novamente.... Tadinha, como as pessoas são cruéis, além de estar brincando com o nosso Léo (irmãozinho de 2 anos), a barriga dela se tornou um ponto de questionamento entre pessoas "curiosas" (acho que foi a melhor palavra para descrevê-las). Uma lição para o ano novo, ela vai precisar emagrecer. Logicamente, apesar das meninas implorarem para eu não contar para ela (o que não o fiz), o fato chegou ao ouvido dela... como os seres humanos são cruéis, mesmo sendo família, ninguém perdoa.

Acreditando que o perigo havia passado, já que os países mais desestruturados (e poderosos) do mundo não sentiram nenhum efeito negativo, chegaríamos ao ano 2000.... Mas ainda havia uma dúvida a me questionar: apesar do governo brasileiro não assumir haver armas atômicas, uma intrigante conversa com o ex-governador de São Paulo, Franco Montoro, deixou-me cheio de receio. E tendo essa conversa como argumento, Deus bem que poderia ser mesmo brasileiro, dando ao mundo o fim que poderia começar neste caos. Neurose, pode ser. Vivendo em São Paulo é fácil obter um atestado médico de insanidade.

5, 4, 3, 2, 1..... Fogos. Erramos. Não que esperasse uma grande bola de fogo do céu e o dia do "juízo final". Os guardiões das portas dos céus, nesse momento, eram os analistas de sistemas - poderosos guerreiros dos programas fatais, do inseto que poderia fazer sumir a luz, o dinheiro, a comida e mesmo o planeta. Agora que o "receio" passou, me sinto um pouco "idiota". Não querendo me justificar, mas já..... Nunca houve um tempo em que o homem teve tanto poder sobre os destinos do mundo. Um poder que pode lhe fugir às mãos. E é infinitamente maior do que a vontade de todas as pessoas do planeta. Afinal, quem poderá nos defender dessa ameaça que é invisível para a imensa maioria, e que pode vir sem avisar.

Para começar o ano com o pé direito, dessa vez resolvi seguir o que manda a tradição - passei com a roupa branca, pelo menos a camiseta, o que não fazia nos outros anos. Em 1990, iniciei o ano totalmente de preto e pulei as 7 ondas de costas - foi um dos melhores anos da minha vida. No ano passado resolvi fazer a mesma coisa - todos me olhavam como se fosse um alienigena - e para aprimorar, pulei as 7 ondas de costas e com o pé esquerdo. Meu ano foi uma merda. Naquela virada, cortei o dedo para abrir o "champagne", uma fagulha dos inúmeros fogos atingiu o meu pé e outras coisas aconteceram que deixaram todas as mãos e pés com machucados. Será que existe maldição!!!

Com essa dúvida na mente e depois de um ano de muito sacrifício e poucos resultados. Algumas vitórias e muitas derrotas. Resolvi apelar para todos os santos. A camiseta branca é uma conquista para este cético. Li numa revista que jogar moedas ao mar como uma oferenda a Iemanjá traria também dinheiro, esta fortuna que tanto falta. E aproveitando as velas que os outros depositavam na praia, joguei mais uma moeda para garantir o ano. Se depender das mandingas, estou feito. E minha família inteira, pois saí distribuindo moedas para todos.

A imprevisibilidade marcou esse reveillon. Até o dia 31, pela manhã, não sabia aonde iria passar a virada. A "viagem" que faria com o um amigo, o Cajú, no último dia do ano virou suco. Muitos foram os planos, poderia ter ido com uma amiga para Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Ou mesmo para Garopaba, em Santa Catarina. Outro amigo também me convidou para viajarmos. E fui acreditar na conversa de Cajú.... Uma amiga nossa, a Fabi, passou aqui em casa após o Natal... O ano novo iria comemorar em Boiçucanga. Achamos uma boa idéia. Combinei que passaria o dia em Juqueí na casa da minha tia, e a noite com os amigos; Sem companhia, acabei indo para a Praia Grande. O apartamento estava cheio, mas sabia que caberia mais um. O meu irmão, Fábio, com medo do trânsito, ficou em São Paulo. Se eu fosse para Fortaleza, faria a mesma coisa.

O dia será memorável. Não queria passar de forma nenhuma mais um reveillon na Praia Grande, mas não me arrependo. Nunca me senti tão bem. Estar com a família foi a benção para um ano que será tão imprevisível quanto os caminhos que me levaram à praia. E que poderiam ter me levado para qualquer lugar do país se não tivessem se esgotado todas as passagens. Felizmente curti o último dia, e noite (que como sempre faltou luz e jantamos no "Don Zarpelo"). Nada melhor do que uma bela pizza para encerrar o ano. E o vinho italiano que comprei para a passagem do ano marcar a prosperidade que esperamos.

Cada qual deve ter sentido algo especial. As fotos que tirei marcaram o momento para a eternidade. E o texto, para os meus filhos, netos, bisnetos.... e todos os que descenderem de nós. No futuro, certamente seremos os "australopitecus" do ano 2000. Seres estranhos, de outra época e costumes. Pensei em todos os que virão no futuro... e no meu incerto destino. Cheio de esperança e com uma grande paz.... uma "energia" que, mesmo com certa relutância minha, me fez ajoelhar no meio da praia e rezar.... e acordar no outro dia conversando por mais de meia hora com essa energia. Será que existe algo de bom!!!

Sábado. Primeiro dia do ano 2000. Ligo a TV, as mesmas porcarias - grupos de pagode, programas de auditório, filmes que passaram milhares de vezes. A mesma merda. Mas ainda continuo nutrindo o sonho, para que um dia a realidade acorde para o que existe, e deixe para o mundo marcas melhores do que estas que se apresentam.
Janeiro - 2000

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