domingo, 8 de junho de 2008

Confusões da vida adulta

Era uma quarta-feira chuvosa. Estava perdendo a paciência e os cabelos, arrancados em momentos de absoluta fúria com a enrascada dos céus - "valeu, Bendito São Pedro!!!". Não posso xingar, afinal, é um santo. Mas estando no carro preso a um congestionamento que prometia se estender por muito tempo, já haviam se passado 6 horas, buscava descarregar de qualquer forma a raiva acumulada por sentir tamanha "modernidade".

O ruim de viver na cidade mais desenvolvida do país me fez refletir sobre o pior dos contrastes, caracterizado no lema da bandeira brasileira: "Ordem e Progresso". Santa Ilusão. A mesma mão que traz as oportunidades leva com a outra todas as riquezas. Traduzindo: "Estamos sendo constantemente dilacerados pela percepção do progresso, que a poucos serve".

Certamente, para muitos, tal definição seja o paraíso onde a poluição não se distingue do ar e água consumidos. A vida some. E os crimes e mortes, ocorrências crescentes. A vida morre. Onde a perda da sensibilidade recebe um nome bonito "blase" - ninguém mais chora uma terrível catastrofe, tudo é tão normal. Onde o excesso de gente em busca de uma oportunidade nos transformam em animais ferozes que manifestam os atributos mais mesquinhos. "Eu por mim, e que Deus... me ajude". O individualismo egoísta deve estar próximo. Já chegou.

Pena que ninguém se conscientizou que ambos - ordem e progresso - devem caminhar paralelamente, e como consequência, enchentes, poluição... o verdadeiro caos nos é presenteado como recompensa ao egoísmo, pela nossa incompetência de desejar ser uma coletividade. Enquanto isso, vivamos os males até que estes nos liquidem.

Num desses raros momentos, ficar 6 horas no "sossego", a agitação da vida moderna seria a paz absoluta. Seria. Se soubesse como aproveitar o momento livre em algo construtivo. Preferia, nesse momento, amaldiçoar o prefeito, o governador e toda a raça política. E também o porco do carro da frente que acabou de jogar uma latinha de refrigerante pela janela. Consciência social, hummm... é ruim de acreditar.

Um clarão me cega. Será que o divino se manifestou aos mortais para nos salvar da perdição plantada!!! Comecei a refletir sobre o passado... e o tempo que desejava ser adulto. Acreditava que seria livre se, um dia, fosse como o meu pai. Quando era pequeno, mal o via em casa. Saia muito cedo para o trabalho - bancário - e quando voltava já estavámos dormindo. O dia dele deveria ser muito divertido. Ganhava o seu dinheiro, tinha a sua casa, carro. Tudo o que deseja e honrava em dizer que conseguira com muito esforço e sacrifício. Sendo pequenos, somente podíamos imaginar com eram as coisas. E na nossa mentalidade criativa, toda a diferença do mundo parecia ser a coisa mais maravilhosa.

Não conheciamos o mundo lá fora. E não sentia a ameaça proclamada pela minha mãe: "Tomem cuidado com os ladrões". O medo era uma sensação desconhecida, distante de crianças que cresceram felizes brincando na rua como as antigas gerações. Tive sorte. Muitos dos meus amigos viveram trancado em seus condominios, não conheceram nem seus vizinhos. A prisão já era uma verdade.

Para quem cresceu livre. O mundo real se transformou na pior das prisões. Muitos acham que começamos a ter conscîencia dos nossos atos aos 7 anos de idade. Na minha mortalidade, percebi que ainda estou tentando me descobrir e a esse mundo - totalmente estranho - extremamente diferente do imaginado. A força das idades, os aniversários que passaram trouxeram perspectivas tão diferenciada quanto os bolos comidos em todos esse anos.

Tudo parecia nos prender. O dinheiro, a família, a obrigação... a liberdade começou a parecer mais utópica do que real. Mesmo quando era jovem, preso no quarto ficava na falta de esperança da possibilidade de ser parte desse mundo. Pagamos para respirar o ar, como seria andar pela cidade impunemente. Quando o dinheiro falta , nada mais parece possível... não existe família, as obrigações não são cumpridas e a vida se esfacela... será que sempre foi assim? Até mesmo nas épocas mais insanas o mundo parecia ter uma lógica, que se constituiu na riqueza de uns e na extrema pobreza de outros. Fiquei no meio termo, jogado a pobreza com a capacidade de ter sido algo. Cadê o destino... esperei tanto por ele que acabei perecendo.

A ironia é uma constante. Preciso ser assim para desabafar e rir das desgraças... que são muitas. A sensação de liberdade e o medo da responsabilidade são as novas vertentes... e agora, Mané!!! O que fazer!!! Antes fossem apenas um método eficaz de não entrar em confusão: Não falar. Se vejo o "circo" pegar fogo, deixo-o para os macacos se digladiarem....nem sempre fui envolvido em confusões. Mas, nestas horas, perco a minha classe. Se quiserem me incluir sem permissão.... tomarão uma invertida que voltarão para casa desnorteados. Nada mais justo. E eu que já sonhei ser diplomata! Que todos os infelizes vão para o inferno, felizmente a minha insanidade me liberta!

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