Na minha "humanidade", tentei salvar a formiga menos esperta da possível morte. E, infelizmente, não tive êxito - mas não proporcionei o velório. Lavei a colher, economicamente raspei a lata, deixando "micro resto" para ser consumido posteriormente. Lata na geladeira. Ainda mais vazia.
No dia seguinte, deixei de lado a minha "pão-durice" e resolvi ver se a lata podia me propiciar algo. A felicidade perdida. E deixar que a natureza, o lixeiro e a lata tivessem o seu destino. Qual não é a minha surpresa: no fundo da lata, uma formiga que não eu havia percebido, morta, afogada pela imensa gota condensada - a outra soube se esconder na esperteza de quem poderia ficar com todo o doce para ela, aproveitando sozinha aquela montanha de açúcar, que para mim era só um resto.
Muitos foram os pensamentos que me vieram a partir dessas duas cenas que tiveram a morte como fim comum. Ambas ambicionaram mais do que poderiam usufruir. Uma morreu no resgate imposto pela generosidade, e a outra da morte inevitável - os excessos que matam as pessoas, os animais, os bichos são os mesmos. E todos somos suscetíveis a esses pecados da gula, do ter e consumir muito mais do que as necessidades, e ser egoístas em querer só para nós, e ser desumano em não estender as mãos.
O homem é o bicho que faz isso conscientemente. Tem a razão como linha mestra, e a imperdoável atitude que o poder do excesso lhe confere - até a inveja dos outros. E se esquece, estúpido, de que é acima de tudo, mortal.

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