Assim como flecha em direção ao inimigo. Como coroas construídas e pétalas despedaçadas. Como a vida cíclica que finda na velhice, e teima em continuar nos descendentes. Pobre de mim. Na imortalidade conferida a um objeto, nunca serei sujeito. Deixe a história se fazer, que lhos venho contar.
Das minas do quadrilátero ferrífero à corte do Rio de Janeiro, um longo caminho - de transformações, prensas e separações - decidiu o meu eterno destino: ser uma moeda. Saber o que é ter e perder o valor, mas essa é uma outra história.
Sendo uma moeda fui manipulada por diversas mãos - presenciei vidas e mortes, casos e fatos, amores e tragédias. E seria apenas mais uma moeda se não fosse especial para o mundo: A primeira moeda da República do Brasil. O ano grifado em mim, 1889.
Vocês, que conhecem história, podem me perguntar: "A República não foi proclamada em meados de novembro, como seria possível ter sido cunhada e entrar em circulação ainda neste ano?". Nem o melhor dos ouvires do Império ou a melhor das Repúblicas conseguiria essa eficiência em tão pouco tempo. Mistérios. Coisas que somente eu posso contar.
Era tarde. Dia 17 de outubro. A casa de Fundição trabalhava a todo o vapor, e eu estava pronta para ser transformada em mais uma das milhares de moedas de 100 réis imperiais, quando o Marechal chegou. A sua figura era bastante respeitada, apesar da aparência contraditória e das conseqüentes piadas que corriam sobre sua pessoa - afinal, como todos os seres humanos, as inconstâncias e "pecados" faziam parte de sua alma animal.
Um dos homens que acompanhava o Marechal, Sr. Benjamim Constant, se aproximou de um funcionário que trabalhava na prensa e ordenou que a matriz fosse alterada, entregando a que havia consigo - matriz que me deu as formas que preservo até hoje, mesmo com mais de um século de existência. Apesar de certa relutância, o funcionário cedeu. E o primeiro dos símbolos da República nasceu, antes do parto, que seria "normal" quase um mês depois.
Nunca me esquecerei a felicidade de Deodoro ao me pegar em suas mãos. Observava o meu brilho, de metal trabalhado e novo. Seus olhos refletiam com a mesma intensidade que, sendo eu criança neste mundo, não conseguiria perceber naquele momento - olhos de quem sente o poder nas mãos. Não que eu fosse tão poderosa, afinal qual poder teria uma única moeda... ou estaria enganada. Sim, eu estava. Eu era um símbolo - carregava o maior dos poderes, o ideológico. E seria indispensável para o fortalecimento dessas idéias, essencialmente libertárias.
Já era noite quando saíram da casa de Fundição. Nas mãos de Deodoro, encontrava o aconchego do primeiro dos muitos "pais" que tive. Colocou-me em sua algibeira num espaço separado das outras moedas, montou em seu cavalo e saímos, juntamente com a sua comitiva, em direção a uma casa na Rua Direita - sobrado no qual se reuniam para a mobilização de forças e discussão das medidas a serem adotadas.
Deodoro da Fonseca estava armando o futuro. E todos, sem exceção, me esperavam ansiosamente - uma simples moeda. Instrumento de uma propaganda fortalecedora para a verdadeira independência de Portugal. Tirou-me da algibeira e exibindo-me como se fosse um troféu, afirmou em voz alta:
- "Devemos caracterizar a nossa legitimidade, alterar a face imperial e deveras colonial que aqui se instaurou desde os primórdios. Nossa república demora a eclodir....e agora, como em épocas antigas, seremos legítimos e verdadeiramente livres para atender aos nossos interesses, de brasileiros".
- "Que a face do império seja extinta, e que surja a efígie da república" - forte frase que encontrou entusiasmada aclamação na voz séria do nosso Marechal, e primeiro Presidente.
Quem conhece o poder, prova de seu licor, não ousa largá-lo. É como o vício dos bêbados, a ganância dos avaros, o fanatismo dos fiéis. O poder estimula uma disputa interior essencialmente maniqueísta - a diferença entre o próprio e o coletivo. Afinal, não existe nada que seja bom para o mundo que não seja melhor para aquele que vive o poder, mesmo carregando as mais puras palavras.
Deodoro, que provou de seu delicioso licor, tentou ficar mais tempo do que o estipulado - não conseguiu. Certamente saberia prorrogar tal sensação se tivesse a mesma habilidade política de Getúlio Vargas. E imaginar que, nesta época, este era apenas um rapazote gaúcho que escondia medos e incertezas - tive a possibilidade de conhecê-lo. Se tornou grande e amado, mesmo sendo ditador.
Volto agora no tempo. No dia em fui comprada num sebo em Pinheiros - na praça Benedito Calixto. Local onde tive a possibilidade de conhecer aqueles olhos que souberam me enxergar, e que hoje podem dizer tudo o que eu tenho para contar.
Ao nosso redor: móveis seculares, roupas, selos, câmeras fotográficas.... muita velharia; ou melhor, antigüidade. A praça estava tomada pelos transeuntes e mercadores. Ouvia-se ao fundo o som de uma vitrola 78 rotações, com aqueles enormes e pesados discos de cerâmica - meu Deus, como o mundo se transforma!!! Sentia os raios de um domingo de sol, após ter ficado vários dias fechada numa caixa com outras moedas. Moedas tão antigas quanto eu, e que certamente guardam diversas histórias - mas não tão raras, visto que sou única. Porém, naquele espaço, éramos todas iguais.
Percebia traços, pessoas, roupas - um mundo totalmente diferente daquele primeiro que presenciei. Onde era comum percorrer as mãos de homens vestidos com fraques e cartolas, exibindo seus bens e títulos. E também outras mãos, de homens maltrajados e tratados na ignorância - discriminados apesar da utilidade, da força, do caráter que construíram este país. Tempos tumultuosos encontrávamos na capital. Ouvia-se o brado dos negros livres.
Se houvesse um humano capaz de ter a vida eterna, certamente ele iria se horrorizar com tantas diferenças - com essa cultura mutável, que cria e destrói ao mesmo tempo, e produz um mundo de coisas totalmente normais a partir do inconcebível. Algumas dessas criações sendo a essência de Deus e outras, a sua destruição. Que a liberdade do homem o leve a escolhas benéficas, e que a sua vontade não seja a imposição dos outros.
Sempre me perguntei por que fui a escolhida para presenciar a história. Sabe-se lá o que nos leva a presenciar tais situações, ainda por cima sendo a única moeda que, naquele ano, dignamente estampava: "República dos Estados Unidos do Brazil". Isso mesmo, moeda de uma época em que Brazil ainda se escrevia com "z". E o nosso lema "Ordem e Progresso" era o positivismo em forma de ação, não a esperança em forma de propaganda política - procurei durante anos tal ordem e progresso; difícil num país que já surgiu com complexo de inferioridade.... Estados Unidos. Eu e minhas divagações. Voltemos a história.
Naquela mesma noite, Deodoro me levou para sua casa. Apresentou-me o seu lar e a única pessoa de sua convivência diária, sua esposa. Seus filhos já eram crescidos e tinham suas respectivas famílias. Contavam apenas com alguns poucos empregados.
Já em seu leito, segurava-me em suas mãos e observava as formas da qual era pai - porém, me levava para a cama como se fosse uma de suas amantes. O desejo que se escondia naquele brilho era muito maior - e foi uma longa história de amor. Tornei-me a amante de Deodoro aos olhos de sua esposa, que não tinha ciúme. Esta sabia do imenso amor que movia Deodoro, objetivo primário em sua vida: instaurar a República e o ser Presidente. Intimamente tinha medo dessa ambição do marido, mas quem era ela para contrariá-lo.
Deodoro carregava-me para todos os lados. E assim foi por anos, mesmo após o grande Marechal ter se tornado o primeiro Presidente do país. Fui seu amuleto, e modelo para as demais moedas da nova República, durante praticamente dois anos. Recebi seu amor e gratidão - e ouvi muitos de seus pensamentos que não ousava proferir a nenhuma alma viva. Certamente queria que o acompanhasse eternamente, e que, na sua falta, ficasse para seus filhos e descendentes. Porém, outros destinos estavam reservados para mim.
Corria o ano de 1891. O Marechal andava preocupado com a pressão civil e a do Congresso - que havia o eleito nesse mesmo ano. Como sempre, antes de dormir, ficava me segurando e olhando. Devia estar pedindo aos céus a boa sorte que sempre o acompanhou. Sobreviveu a diversas guerras e agora estava sendo difícil "sobreviver" no poder, como desejava.
Em seu leito, sua esposa pediu-lhe que apagasse o queimador. O que o fez, colocando-me na sua algibeira. Em poucos segundos, da escuridão surge o ronco dos que estão no mundo dos sonhos. A noite caminhava na tranqüilidade que era possível ao Rio de Janeiro no final daquele século, quando, de repente, outras mãos buscaram-me dentro da algibeira de Deodoro e me esconderam no fundo de um bolso. Não consegui enxergar quem era a pessoa, e muito menos entender o que estava acontecendo. Mas sabia que somente poderiam ser a sua esposa ou algum de seus empregados, os únicos que residiam naquela casa.
No dia seguinte, ainda no fundo daquele bolso - de tecido sedoso e extremamente confortável, uma mão me pegou. Era a esposa de Deodoro.
- "Maldito Deodoro. Desgraçado. Como ousou me trair.. "
- "Agora verá como se retribui uma traição. E todas as noites que me fez passar acordada, nervosa, enquanto dormia como um anjo".
Será que ela, após dois anos de convivência pacífica, ficou com ciúmes de mim - uma simples moeda. Certamente não seria para tanto. E não era. Continuou caminhando apressadamente pelas ruas difamando o Presidente para todos os que quisessem ouvir.
- "Sr. Presidente. Mais de 40 anos de casados para serem jogados fora dessa maneira" - dizia furiosamente nas estreitas ruas do centro.
- "Trair-me com aquela mulata Alzira!!! Porco desgraçado!!!". Agora o crime tinha um enredo, conteúdo.
Cansei de presenciar as traições do Presidente, que mesmo com mais de 60 anos, era um compulsivo sexual. Todos sabiam dos pecados de Deodoro, mas santo-de-casa, além de não fazer milagres, muitas vezes não enxerga que convive com o Diabo. É mais fácil ver luxurias em olhos santos do que imaginar um dos seus sendo o maior dos pecadores. No dia anterior, Deodoro havia agarrado a empregada e certamente havia sido flagrado.
Uma raiva violenta subiu-lhe a cabeça. Vingança. Sabia que Deodoro tinha me como o seu bem material mais precioso, e saberia o que fazer comigo.
De repente ela pára na banca de jornal do Sr. Joaquim, e compra um exemplar de "O paiz" - fui como parte do pagamento, como uma qualquer. E me perdi no mundo, passando imperceptível por milhares de mãos.
Pouco tempo depois, na mão de um italiano no interior de Minas Gerais, fiquei sabendo que o Marechal não era mais o Presidente, e no ano seguinte, no caixa de uma padaria, fiquei sabendo de sua morte. Era 1892, nunca esquecerei. Aquele alagoano que resistiu a muitas batalhas e guerras como a do Paraguai e da Cisplatina, não soube perder, e se deixou morrer.
E continuei seguindo a minha trajetória. Percorri diversos Estados, e até conheci o exterior. O mundo realmente é grande - a mente das pessoas é que é pequena. Vivi muitas vidas, aventuras, numa única existência... histórias, que ficam para a próxima.
domingo, 8 de junho de 2008
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