Invadia-me os olhos com a pretensão de descobrir minhas supostas verdades. Nunca a tinha visto. Virei a minha face para um outro objeto. Carros buzinando, pessoas andando apressadas, neurose. A avenida Paulista, o coração pulsante de artérias entupidas. Malditos. Olhava-me como se estivesse cagado ou como se fosse capaz de me destruir. Impossível... a morte já havia chegado. O fracasso.
Mais uma negativa ao meu desespero por um emprego. Sempre chegam as cartas idiotas que deveriam ficar caladas, esquecidas, para não serem mais uma das novas chagas abertas, nunca cicatrizáveis: "agradecemos a sua participação no processo seletivo". NÃO!!! Novamente. Droga de esperança que nos prende aos sonhos que nunca se concretizam.
Já com o espírito perdido e tentando fingir compreensão a um mundo condenatório. Peço o perdão de todos para aliviar o fardo. O telefone toca. Atendo. A voz amigável inveja a minha vida boa, sem trabalhar - que venham passar pelo desemprego para saber a dor de ser pisado impiedosamente e não ser ajudado. As mãos amigas se lavam. E continuam egoístas. Mundo moderno que me tortura.
Antes a morte fosse a saída. Mas não me aceito derrotado e tão menos desprezado. No bolso só tenho 1 real. É tudo o que não me resta. A pizza Hut deliciosa na boca dos amigos ficará longe. Finjo estar sem fome. Antes não fosse letrado nas melhores faculdades. Antes tivesse sonhado em ser ao ter podido viver. Uma realidade perturbadora que ao mesmo tempo parece dar e retira. A dignidade.
Na mortalidade sinto a pobreza. Invadem-me o "privado" e me expõem ao "público". Sou ridicularizado. E qual é o meu pecado? Todos tem os seus. Maria Madalena do ano 2000. Como milhões de outros sofredores das mesmas e injustas invasões. Sou mais um. E sirvo como objeto de pesquisa para antropólogos urbanos. Sinto raiva. Os olhos da psicóloga devastam minha alma e retiram-me as oportunidades - qual a minha culpa diante do passado ao qual fui obrigado viver e que formaram cicatrizes profundas. Mesmo sem querer meus olhos são uma ameaça poderosa; sou uma arma apontada para todos - espelho do que podem se tornar.
Não me importo mais com o que querem dizer. Somente os amigos tem a liberdade da palavra, mesmo sendo ela cítrica. Na rua um sujeito me pára. Quer uns trocados. Continuo andando pela Paulista com as imagens e pensamentos dos meus infortúnios. - "Não tenho nada, meu amigo". Sai xingando a minha falta de caridade. Vá a merda. Será que as pessoas pensam que só elas sofrem no mundo? Certamente pensam... só nelas. Percebo que não posso manter a minha vaidade ou felicidade... olhos ferinos atacam o pouco que nos resta para tentarmos sermos humanos. Vida miserável. E o estereótipo já está formado. Será que até no pensamento dos outros crêem poderosos interventores? A sanidade parece desvanecer no cérebro já cansado de tentativa... tentativas inócuas. Voltar para casa de mãos vazias, e ser chamado de vagabundo.
- "Pára de passear e arranja um emprego" diz minha sogra. Cadê a compreensão humana? Que se danem todos!!!
Nunca fui egoísta. Compartilhei minhas mãos, distribui sorrisos e atitudes. Objetivar retorno financeiro não era o importante em cada um desses momentos, mas capitalizar a sensação de vida... a energia alegre que está nesse mesmo ar que agora é denso. A avenida Paulista do meu cérebro. Conturbada na velocidade e quantidade, mas pobre no conteúdo. E de diretrizes difusas que, na crise que passamos, faz com que nos percamos.
Amo o meu país. Mas, o que está acontecendo? Terei que culpar políticos ou rever as minhas atitudes. O que será mais fácil? Terei que navegar a globalização ou ser uma bolinha de gude retirada de meninos pobres. Que corram as lágrimas.... a piedade não tem irmão.
No escritório da psicóloga era testado para a empresa. Diversas foram as empresas. E muitas foram as fases suplantas - pequenas batalhas diante da guerra. E na sua capacidade discriminatória, o meu destino. Falhei novamente. Ou melhor, fui falhado na mente desta. Reprovado. Poucas foram as vitórias na vida deste soldado que caminha na Paulista e acabou de ter a vida vasculhada. Sim, meu pai era alcoólatra... e qual é o problema!!! Sim... tenho defeitos!!! Sim.... sou humano. Ou será que terei que transcender a divindade por um mísero, mas tão ambicionado emprego. Mundo estranho. Serei eu objeto de provações mais ríspidas por ter a capacidade de refletir ou a lógica do mundo ainda não foi descoberta? As pessoas não tem tempo a perder. E fazem outros terem todo o tempo do mundo, ainda mais com a invasão tecnológica e virtual sobre seus empregos, hoje dispensáveis.
Na avenida Paulista aquela mulher de traços nordestinos invadia-me os olhos. Não era compaixão o que sentia, tão menos atração. Era agressiva a forma como me desnudava... poderia ela prever o meu futuro ou testar a minha força, já que os mais fracos perecem em solos hostis.... roubar-me, o quê? Corro o risco de ser baleado por bandidos incrédulos da minha pobreza. A minha parte animal, reprimida e adequada pela religião, se manifesta na mesma intensidade e sentido contrário. Ela se sente incomodada, vira a face e vai embora.....
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
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2 comentários:
E qual é o meu pecado?
su pecado... yo no se! Pero creo que sea la manera que vive la vida
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