A poeticidade nas folhas de outono foi morrendo aos poucos. Em cada uma das folhas, anos, um pouco das novas ciências e percepções - ocultando cada detalhe de beleza num céu cada vez mais cinza, e vistas obstruídas pela crescente quantidade de prédios.
Recordo-me da infância perdida numa cidade de São Paulo inexistente. Na distância de uma década, o que era periferia se tornou centro. Os terrenos baldios, que hoje vejo tomado por construções frias, eram espaço de sociabilidade, apenas ponto de encontro dos amigos. Brincávamos de bolinha de gude, empinávamos pipas, competíamos em nossas bicicletas nas improvisadas pistas de cross criadas.
Houve uma época em que quase toda rua era o terreno baldio, poucas eram as casas. Hoje uma casa fria deixa enterrada na imaginação dos que viveram tais cenas o nosso último reduto. Ninguém após nós saberá aonde está os tesouros que enterrávamos, criando mapas e pistas para serem descobertos pelos grupos rivais - a rua de baixo. Saudade.
Nessa época, transformávamos os restos de obras em nosso quartel-general. Portas antigas, ferros de grades, papelão... constituíam nossa fortaleza; muitas vezes derrubadas apenas pela força do vento. Com a imaginação podíamos tudo e fazíamos tudo. Mostrávamos nossas habilidades com o novo ioio, pião ou jogávamos bafo, conquistando as figurinhas de colar que faltavam aos nossos álbuns.
Até caçar um "popótamo" fomos quando criança. Eu, meu irmão e meus primos. Num sáfari na cidade. Numa cidade muito diferente. Quando atravessávamos a rua, encontrávamos a nossa selva, onde tudo era possível.
Fomos crescendo e numa proporção diretamente proporcional, os espaços vazios foram diminuindo. Novas casas, e novos amigos... a cidade chegou à periferia. Mas ainda tenho as lembranças.
Nas épocas de festa junina, pegávamos as madeiras nos terrenos e construções vizinhas. Passávamos de casa em casa convidando os vizinhos para a festa, que vinham e ficavam conversando num clima agradável. E traziam o essencial: comida. Fazíamos mesas com compensados que encontrávamos e alguns blocos.... e ficávamos ao redor da fogueira. Mais saudades.
Quando o vento ou a chuva impossibilitavam as nossas brincadeiras no "morro", ficávamos na garagem de algum de nossos colegas de infância. Num rodízio de brincadeiras e de casas - para as mães não se cansarem com tanto barulho. Uma época saudável.
Houveram várias modas. Lembro-me que colecionávamos tampinhas de Coca-Cola para trocar por garrafinhas miniaturas ou por ioios. Era uma festa. Simples mas que deixava a todos felizes. E apesar dos problemas, que todas as famílias tem, vivi plenamente a minha infância.
Naquela época surgiu uma "nova moda" que iria se perpetuar e modificar a infância de milhões de crianças: o videogame. No final da década de 70, joguei o telejogo - primeiro videogame - que apesar de machucar muito o dedo, era ambicionado por todas as crianças. Em 84, ganhamos um Odissey (segunda geração) que rivalizava com o Atari na condição de melhor videogame - já com outra resolução e qualidade. Mas nunca deixamos de lado os amigos, ele era apenas mais instrumento para as brincadeiras da turma.
Jogávamos futebol na rua, ou no campinho da rua de baixo. Muitas vezes os nossos pais jogavam conosco, mas na maioria das vezes ficavam conversando sobre política. Tirávamos o sarro da cara deles. Papo de adulto. Muito longe da nossa realidade, e que tão rapidamente se tornou a nossa conversa.
Chatices!!! Convenções!!! A vida adulta nos transforma e nos distancia, assim como São Paulo, que muda a cada dia. Um bairro que era deserto, está lotado de casas e prédios, que surgiram num tempo realmente curto. E os "amigos" já não são mais os mesmos.
À medida que um se mudava, parte do passado morria. Começava uma nova fase, época. E a vida é cheia desses recomeços. A cada terreno que sumia, novas casas, e com elas as pessoas se tornavam mais estranhas. Hoje os vizinhos são apenas desconhecidos, só e nada mais.
Quando crescemos esquecemos as coisas boas que nos aconteceram; e as sensações que tínhamos quando éramos crianças. O adulto começa a matar os bons sentimentos... a amizade, companheirismo, ou mesmo a companhia para passar o tempo e jogar conversa fora. Era criança, fui criança um dia... e em São Paulo!!! E triste, penso: "Haverá para os nossos filhos, a mesma oportunidade de terem uma vida saudável...agradável... nesta terra?".
sábado, 1 de março de 2008
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