Aquele olhar cativante me invadiu. Não podia acreditar ser o felizardo nesta roleta da vida. Eu era um apostador... sim, apostar era um vício incontrolável. Arriscava tudo o que tinha: dinheiro, amor, felicidade... tudo e em poucos lances. Ganhei muito, mas também perdi. Jogos de azar não foram feitos para "dar sorte". Emprestam por uns míseros segundos até que, uma ambição incontrolável, põe tudo a perder. A ilusão é o maior dos ópios, a impressão de um quase que nunca chega.
Estava, naturalmente, sendo engolido pela roleta. Eu "era" cada uma daquelas moedas perdidas. Tinha a impressão que a vida começava somente após o sinal do recreio - final do sufocante dia de trabalho. Não ía para casa, não jantava e me dirigia ao antro de perdição. Aprendi o que é perder, o que é pegar o salário de um mês inteiro e deixar escorrê-lo pelas mãos, moedas líquidas.
Foram-se, uma a uma, as pessoas impreteríveis - mãe, pai, filhos, amigos - nada mais havia. Moedas e almas, um solitário me tornei. Um hermitão maltrajado, esfarrapado pelas situações que não consegui escapar - intempéries, caos, fenômenos naturais, sol e chuva, que abençoavam e maltratavam ao mesmo tempo. Era um indigente. Os valores transformados me fizeram enferrujar sem perceber minha situação. Mas, face solitária vista diante do espelho pega a compulsão e joga-a no lixo.... lixo no qual acabara de me ver, desfigurado, diante da forte e poderosa compulsão, que outra vez retornava vencedora.
Outros anos foram sendo consumidos. Não havia prosperidade. E continuava arriscando, apostando tudo. Na roleta russa, venci a vida - minha maior vitória - mas voltei para casa com fragmentos do perdedor... sangue, plasma.. pedaços do derrotado. Sem saída.
Apostei tudo também no sexo. Vi muitos morrerem e, inatingível, continuei vivo. A noite era vizinha e desejo dolorido, porém, não me era permitida. Não eram alucinações, não era a depressão. Não era a piedade de poucos ou a imaginação.... um retrato surreal onde espelhos tortos, relógios derretidos, demência constante era arte. E eu, o objeto sem ciência.
Um dia, nas roletas do Gran Cassino, um anjo apareceu. Não era alado ou possuía onipotente brilho alveo - não abriu os céus com fogos e carruagens, somente lançou-me um olhar. Era de carne e osso. Uma mulher... sim, uma linda mulher. De tanta carne quanto eu pensava ter. Pensava.
Novamente, a impressão da vida vagava oceanos. "O que seria a vida?" - pensamentos que foram ganhando a claridade da sanidade. "O que estava fazendo comigo?". Quanto tempo havia se passado? Estava perdido.
Pesadelo. Ao meu lado da cama, minha esposa permanecia nos sonhos. Era a face emprestada ao anjo salvador - pedindo-me, suplicando, que parasse de apostar. A tendência genética à compulsão poderia se manifestar em mim. Numa fração de segundo, pude viver aquilo que me pareceu apenas uma leve diversão. Tentadora, mas leve diversão. O tempo abriu uma lacuna, vivências imaginárias, que puderam me despertar do caminho que, fatalmente, iria me atrair.
Parei. Intimamente agradeci a sóbria sensação - pecados não cometidos. E fui embora com a minha esposa, ciente, de que acabara de obter a salvação.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
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